Previsões para o Grammy 2018 [2] O ônibus lotou

Como diria um grande pensador contemporâneo, “it’s tradition now”. Após aquela primeira leva de previsões para o Grammy 2018, avaliando o espectro musical entre o final do ano anterior e o primeiro semestre de 2017, hora de ver de que forma as submissões das gravadoras podem ajudar nas novas configurações da nossa futurologia, seja para o bem ou para o mal.

O “problema feliz” de 2018 é que de junho a setembro muitos singles e artistas tiveram destaque, correndo o risco de 1. muita gente boa ficar de fora do corte final; 2. determinadas categorias não terem acts favoritos. Nosso foco – as usual – é no Pop Field e no General Field.

Segue o pulo!

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Um organograma de referências – Taylor Swift, “Look What You Made Me Do”

Durante o Video Music Awards 2017, Taylor Swift apresentou para todo o mundo o vídeo de seu já bem sucedido lead single, “Look What You Made Me Do”, cuja letra está meio definida que é para o casal Kimye, mas o vídeo metralha praticamente todo mundo com shades e referências, óbvias ou não. Tantas que você precisa até de um organograma de referências.

Na primeira vez que vi o vídeo, consegui enxergar algumas; depois, ainda deu pra captar outras que não tinha reparado de primeira; mas de uma coisa é certa, o vídeo de “Look What You Made Me Do” ganha altíssimo nível de replay value só pra gente confrerir todas essas referências. Smart move, Taylor.

  1. O “TS” que parece um 13, número da sorte da Taylor

2. O pseudônimo (Nils Sjoberg) que Taylor usou para assinar a composição de “This is What You Came For”, do Calvin Harris com a Rihanna

3. O Grammy, evidentemente, é sobre a Katy, e até a aparência dela no take parece com a versão loira da “arquiinimiga”

4. Spotify, com a referência “Stream.co” e a Taylor saindo do cofre com dinheiro, quando foi taxada por público e parte da mídia de mercenária

5. O infame squad – outra famosa acusação de que as amigas da Taylor tinham todas o mesmo padrão: mulheres brancas com pinta de modelo

6. A infame camisa “I ❤ TS”

7. As “old taylors” tentando ser salvas pela “nova” (com referências a apresentações antigas e looks de vídeos e awards)

8. E evidentemente, o diálogo final entre elas, em que as associações consagradas em torno da Taylor (fake, forçada, “bancando a vítima” e a famosa linha “excluded from this narrative” mostram bem o quanto ela é informada sobre o que dizem da cantora nas mídias sociais)

(quem tiver outras referências fiquem à vontade para apresentar nos comentários!)

No geral, o vídeo é caro, bem trabalhado, muito bem produzido, e inteligentemente dirigido pelo atual parceiro de Taylor nas videografias, Joseph Kahn, não é muito curto nem muito longo: possui o tempo certo pra você captar as referências principais e ainda tem um replay value fortíssimo – ou seja, as referências colaboram para que você assista outras vezes ao clipe só pra captar referências mais discretas. Fãs e quem acompanha música pop vão se esbaldar. Em critérios técnicos, já é forte candidato a tudo possível no VMA 2018.

A parte mais ou menos é que, ao contrário da ironia fina e divertida de “Blank Space”, onde a Taylor brinca com os estereótipos de “serial dater” com um humor até agradável, aqui em “Look What You Made Me Do” não chega a ser tão fun e fresh. Não é um vídeo que depois de um tempo, você queira revisitar – por ter tantas referências até temporais, corre o risco de ficar datado após um tempo. Mas a depender de seu engajamento com o trabalho da Taylor, isso não interfere.

Já os aspectos negativos são mais semânticos do que outra coisa. Apesar do esforço em parecer “vilã”, “malvadona” e “badass”, a Taylor não vende essa imagem de “cobra” com tanta facilidade quando toda a narrativa de sua história (história no sentido da música que acompanha o vídeo) é ela ter “mudado” por ações de “outras pessoas”, ou seja, ela ainda é vítima, não full time vilã. São duas mensagens díspares, e o pior é que não dá pra acreditar muito nessa imagem “malvadona” da New Taylor. Parece uma adolescente revoltada porque a mãe tirou o cartão de crédito.

Pra completar, aquela coreô final. Não gente, Taylor não segura na dança. Não adianta, os dançarinos atrás ENSINARAM com presença, carão e rebolado. Eu fiquei com vergonha.

E vocês? Tiveram tempo de conferir todas as referências do vídeo novo da Taylor? Encontraram outras? 😉

 

Taylor Swift arranjou uma ghost writer de 13 anos

Eu demorei de escrever uma resenha sobre o lead single da Taylor Swift, “Look What You Made Me Do” (do novo álbum da estrela pop, “Reputation”, que chega dia 10 de novembro), porque estava morrendo de preguiça. A velha preguiça que me acomete sempre; e preguiça da música mesmo. Eu não acredito que uma das letristas mais competentes da música pop dos últimos 10 anos teria regredido para uma adolescente revoltada de 13 anos em 2004.

Nem me importo com o beef dela com o Kanye West – que continua a ser alimentada há quase uma década, assim como o cansado feud Katy x Taylor – porque ela poderia ter escrito algo do gênero com mais habilidade e inteligência. “I don’t like your little games / Don’t like your tilted stage / The role you made me play / Of the fool, no, I don’t like you” (e repete I don’t like you na mesma estrofe), ou “I don’t trust nobody and nobody trusts me” parecem vindos de um diário revoltado juvenil (o que é aquela frase da bridge “I’m sorry, the old Taylor can’t come to the phone right now /Why? Oh, ‘cause she’s dead!”? Minhas discussões com os meus pais aos 12 anos eram mais evoluídas que isso aí). Uma letra preguiçosa, sem graça, um eletropop com uma ambientação “obscura” anos 2000 com o sample de “I’m Too Sexy” no refrão igualmente sem graça de uma música onde muita coisa acontece, mas pouca coisa realmente marca você.

“Look What You Made Me Do” padece de um problema que eu tinha indicado na resenha de “Green Light”, da Lorde (que curiosamente, compartilha o mesmo compositor e produtor, Jack Antonoff): as quebras da música – ela começa com um arranjo 1, segue para o pré-refrão em coro (a melhor coisa da música, que curiosamente lembra algo da Lorde) 2, o refrão falado 3 (que tem uma bateria meio seca acompanhando); volta para o arranjo 1, e pula para um arranjo 4 sem sentido algum. É muita informação acontecendo ao mesmo tempo e algumas vezes me senti ouvindo uma colagem de músicas escrita pelo Victor Frankenstein.

(Taylor, quando eu tinha 12 anos escrevia uma lista de pessoas que eu gostava e não gostava no meu diário. Era um ranking semanal. Eu tinha 12 anos, com 27 eu não ligo a mínima. Conselho de amiga.)

No entanto, mesmo que eu diga que a música não é boa, é esquisita, é ame-ou-odeie, a construção é confusa e a letra pedestre, “Look What You Made Me Do” já é um monstro no digital, streams e rádios, pode tirar “Despacito” da décima-sétima semana em #1 e certeza que arranja indicação este ano mesmo a Pop Solo no Grammy (por estar dentro do período de elegibilidade). O hype da Taylor é forte, todo o marketing em torno da música e da volta da cantora é evidente, e os deals com as plataformas de execução da música darão esse empurrãozinho para a música iniciar uma trajetória de sucesso. Mas nada disso tira a decepção de saber que Taylor Swift, uma das singers-songwriters mais interessantes do pop, contratou uma menina de 13 anos para escrever seu novo hit.

O que vocês acharam da música?

Indicados ao Video Music Awards 2017 [2] Melhor Colaboração

A categoria de “Melhor Colaboração” no Video Music Awards surgiu em 2007 com o nome de “Most Earthshattering Collaboration”, o que quer que esse troço signifique (foi naquele ano em que todas as categorias tiveram os nomes modificados), e durou apenas aquela edição. Esse award sumiu por dois anos seguidos e voltou a ser premiado em 2010, prosseguindo até hoje.

Num século em que colaborações entre artistas são essenciais para o sucesso de determinadas faixas – e ainda ajudam a lançar novos nomes na cena, essa categoria acaba se tornando uma das indispensáveis dentro do VMA (e por consequência, em outros awards importantes de música). Por isso, a categoria este ano me parece tão confusa e com possibilidades interessantes de vitória.

(que parecem anticlimáticas pensando que “Despacito” não foi indicada e um vídeo com TRÊS BILHÕES DE VISUALIZAÇÕES foi ignorado)

Primeiro, os indicados:

BEST COLLABORATION
Charlie Puth ft. Selena Gomez – “We Don’t Talk Anymore”
DJ Khaled ft. Rihanna & Bryson Tiller – “Wild Thoughts”
D.R.A.M. ft. Lil Yachty – “Broccoli”
The Chainsmokers ft. Halsey – “Closer”
Calvin Harris ft. Pharrell Williams, Katy Perry & Big Sean – “Feels”
Zayn & Taylor Swift – “I Don’t Wanna Live Forever (Fifty Shades Darker)”

Maior favorito: o maior sucesso tem mais chances, e da lista que a MTV ofereceu, quem tem mais chances de ganhar o Moonperson (o nome do troféu mudou, partindo da nova abordagem da emissora com prêmios não mais separados por gênero) é seguramente “Closer“, do The Chainsmokers com a Halsey. Apesar de “antigo” em relação aos outros indicados, a música foi um dos maiores hits do ano passado, e mesmo tendo sido lançado após o boom da música (e não antes do estouro, para ajudar a hitar, como geralmente acontece), o clipe foi bem produzido e tem uma historinha que faz algum sentido em relação à letra. É o natural favorito, mesmo que em relação à fanbase, tenham outros concorrentes mais fortes ao prêmio.

Mas lembre-se sempre: você até vota, mas quem dá o prêmio é a MTV.

(minha nossa, esse moço do Chainsmokers é péssimo cantando)

Concorrentes“I Don’t Wanna Live Forever (Fifty Shades Darker)” chegou ao #2 na Billboard, tem dois artistas com fandom grande (apesar do Zayn não ter alcançado nada com aquele single derivativo “Still Got Time”) e além da música ser muito boa, o vídeo tem uma ambientação e uma sensualidade sutil que vale a pena acompanhar até o fim. Na verdade, a “sensualidade sutil” fica por conta do britânico, que até parado num elevador é sexy, e cuja voz funciona MUITO bem na música – é impressionante o quanto o vocal juvenil da Taylor, com leves vibrações country, fica deslocado numa faixa R&B-influenced. Mas é um belo vídeo, que vende tanto a música quanto a ideia sensual do filme (Cinquenta Tons Mais Escuros) e a música fez sucesso. A diferença entre essa faixa e “Closer” é que Zayn e Taylor tem fandom suficiente pra votar até cair o dedo – e de certa forma, é mais um round do feud entre Taylor e Katy nessa categoria, né?

(esse Zayn é um negócio, viu?)

“Wild Thoughts” conseguiu chegar ao #1 no iTunes, chegou a #2 na Billboard Hot 100. Ou seja, é hit (e a MTV procura justamente isso em seus vencedores, não importando a qualidade do vídeo), e afortunadamente, tem um bom vídeo, que não é uma Brastemp (basicamente é a Rihanna sensualizando e andando num cenário tropical com looks fashion matadores, DJ Khaled gritando DJ KHALED e o Bryson Tiller em outro lugar do vídeo, iluminado por luzes quentes), mas é recente e tá na memória coletiva, o que ajuda bastante nas votações e na escolha final da emissora para entregar o Moonperson. A Navy é sempre sedenta em premiação com escolha do público e quem não quer ver o Asahd subir com o pai pra receber mais um brinquedinho, né? A única implicação do vídeo é ser muito recente. Há hits maiores e mais longevos que merecem ser lembrados (e já que não tem “Despacito”, né…). Classifico como azarão aqui, com menos chances que por exemplo, “I’m The One” na categoria de hip hop.

(esse sample é muito bem colocado na música, impressionante)

Agora, como a gente sabe que a MTV é sacana, não duvide de que ela esqueça qualquer lógica e dê o prêmio de Melhor Colaboração para “Feels” do Calvin Harris/Pharrell/Big Sean/Katy Perry apenas pelo fato da Katy ser a host e a concorrência aqui estar menos complicada que em Best Pop, onde tem MUITO artista com fandom grande disposto a votar até o fim dos tempos. Marque minhas palavras.

E vocês, o que acham? Quem vai levar essa categoria?

 

Previsões para o Grammy 2018 [edição 24 quilates]


O update das previsões pós-período de elegibilidade está aqui. É só clicar!

A melhor época do ano chegou! Junho-julho é o período em que os jornalistas gringos começam a especular sobre as indicações ao Grammy 2018, e apesar do meu oráculo favorito Paul Grein ainda não ter informado quais são os palpites dele, vou me adiantar e brincar de futurologia logo. (especialmente porque ano passado protelei até não poder mais essa postagem)

Pra quem já acompanha este humilde blog, eu geralmente faço duas postagens – uma agora em Junho/Julho e a outra lá pra Setembro/Outubro, após o período de elegibilidade, porque geralmente vazam as submissões das gravadoras e a gente vai confirmando quem fez escolhas boas e quem cagou nos artistas.

As previsões começam após o pulo – com foco em Pop Field e no General Field – mas como vocês viram pelo título, tem algo um tanto diferente nesta previsão…

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Indicados ao Grammy 2016 [6] Álbum do Ano

O prêmio principal da noite, aquele que todos os grandes artistas querem, em diferentes estágios da carreira, é o de Álbum do Ano. O principal prêmio do Big Four é a consagração, a confirmação de uma trajetória bem sucedida ou o surgimento de um grande artista – ou mesmo a compensação por anos de indicações malsucedidas.

Entre os vencedores já tiveram clássicos atemporais (“Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, Beatles, 1968); o mesmo artista duas vezes seguidas (além do Frank Sinatra em ’66 e ’67, Stevie Wonder teve esse privilégio em 1975 com o “Innervisions” e no ano seguinte com “Fulfillingness’ First Finale”); recordistas (um tal de “Thriller” em 1984, de um mocinho chamado Michael Jackson; além daquele senhorzinho Santana em 2000); trilhas sonoras marcantes (além de “Saturday Night Fever” em ’79, Whitney Houston levou com a trilha de “O Guarda-Costas” em 1994; sem contar a trilha de “E Aí Meu Irmão, Cadê Você”, em 2002); arrasa quarteirões (“21”, alguém? – 2012) e vitórias envoltas num ambiente de “what?” (estou falando de você, Beck, e o “Morning Phase”).

Os indicados este ano compõem um espectro que representa bem como a bancada do Grammy estrutura seus indicados – um representante pop, outro R&B/urban, outro country, outro indie e um de hip hop. Por vezes, o representante de R&B é o representante do hip hop, os indies ficam de fora da equação, ou como neste ano, não teve um grande rock act fazendo o corte final, porque algum gênero diferente se destaca no ano anterior ou tem um álbum extremamente bem sucedido por aí (ou as divisões de votos fizeram vítimas aqui). Anos extremamente pop já estiveram presentes (como em 2012, na vitória do 21, com três indicados pop, um rock – Foo Fighters – e um mais eletrônico, o “Born This Way” da Gaga). Este ano foram mais álbuns de R&B contemporâneo (dois, o da Beyoncé e do Pharrell), com dois álbuns pop na equação e um de rock. Se formos para um passado mais distante, a predominância de um gênero se torna uma lógica fortíssima na escolha de álbuns para compor a lista final de indicados – como em 1978, quando entre os cinco indicados, apenas dois não eram álbuns de rock – justamente a trilha sonora de Star Wars (!!) e o comeback de James Taylor com o “JT”. Os outros eram “Aja”, do Steely Dan (classificado como jazz rock), o clássico “Hotel California” do Eagles e o vitorioso “Rumours”, do Fleetwood Mac.

Pois bem, como o ano de elegibilidade foi um dos mais diversos musicalmente dos últimos tempos (refletindo este período bem específico da música em que você não sabe exatamente o que está fazendo sucesso – e que brand seguir), hora de conferir os indicados e as análises para Álbum do Ano:

Alabama Shakes, “Sound and Color”
Kendrick Lamar, “To Pimp a Butterfly”
Chris Stapleton, “Traveller”
Taylor Swift, “1989”
The Weeknd, “Beauty Behind the Madness”

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Indicados ao Grammy [5] Melhor Álbum Pop

Finalmente o blog chegou aos momentos mais nervosos do Grammy – a premiação dos álbuns! A indicação ou a vitória em Melhor Álbum dentro de um field (pop, rock, country, R&B), além de trazer credibilidade e relevância ao trabalho do artista vencedor, pode ser um passo a mais até a cereja do bolo: Álbum do Ano (quando o indicado dentro do field também está indicado nesta categoria).

No caso de Melhor Álbum Pop, categoria que estreou em 1968 com a vitória do icônico “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e ficou de fora das premiações até 1995, quando Bonnie Raitt ganhou com “Longing in Their Hearts”, o binômio “vitória no field > vitória no prêmio principal” funcionou com Celine Dion com “Falling Into You” em 1997; Steely Dan com “Two Against Nature” em 2000 (ano que teve sua sorte de polêmicas em Álbum do Ano, já que a opção mais conservadora levou em cima do enfant terrible e grande revelação do ano, Eminem, que concorria com o “The Marshall Mathers LP”); “Come Away With Me” de Norah Jones em 2003; Ray Charles de forma póstuma com “Genius Loves Company” em 2005; e Adele com o “21” em 2012.

Este ano, o único indicado a Melhor Álbum Pop que está entre os concorrentes a Álbum do Ano é o “1989”, da Taylor Swift, e com chances fortes de fazer esse binômio acontecer – e entrar nessa lista bem curiosa, que inclui nomes poderosos da indústria misturados com artistas à época quase-novatas. A chance da Taylor levar no field é alta; o problema são as confusões em torno dessa categoria, que não me parece mais óbvia como nas previsões – porque aqui temos a maior vencedora (e maior indicada) em Álbum Pop; e uma lenda da música.

Antes de entendermos as possibilidades, vamos aos indicados.

Kelly Clarkson, “Piece By Piece”
Florence + the Machine, “How Big, How Blue, How Beautiful”
Mark Ronson, “Uptown Special”
Taylor Swift, “1989”
James Taylor, “Before This World”

A análise vem após o pulo!

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