É bom mas só vou ouvir três vezes – “Melodrama”, Lorde

Você já sentiu que achou um CD sensacional, mas nunca mais ouviria na vida; enquanto outro álbum que não é exatamente uma Brastemp te deixou viciada nas músicas?
Essa é a minha sensação neste momento, que vou dividir em dois posts, e você entenderá o porquê. O primeiro é sobre um dos melhores álbuns do ano que não vou ouvir muito, “Melodrama”, da Lorde.

Green Light (Official Single Cover) by Lorde.pngRepetindo: “Melodrama” É um dos melhores álbuns do ano. FATO. brilhantemente bem escrito, bem trabalhado produção esmeradíssima e uma evolução (não apenas sonora como lírica e de vida) em relação ao Pure Heroine. Lorde (nascida Ella O’Connor) não é mais a garota esquisita de 16 anos da Nova Zelândia; agora é uma A-list, parte do squad da Taylor Swift, uma das sensações da música pop. E está crescendo. E terminou um relacionamento. E terminou um relacionamento longo em meio à saída da adolescência pra idade adulta, quando a gente não sabe bem pra onde está indo como pessoa.

(quando eu falo de mim no blog é mais ou menos o óbvio; no entanto, o máximo de drama dos meus 18 anos foi que eu não passei de primeira no vestibular. Tem quase nada – ou nada – vivido pela Lorde que eu tenha lidado porque eu era – e sou – uma figura complicada. Basta dizer que “Liability” seria minha música se eu me importasse)

A partir do fim de um longo namoro com o fotógrafo James Lowe (apenas para contexto: quando a Lorde estourou, ela já namorava com o cidadão, que tinha 24 anos enquanto ela tinha 16), a neozelandesa entrega pra gente um álbum sobre solidão, fim de relacionamento, crescimento, autodescoberta e muito drama, hiperbolizado ou não – e realmente algo que todo mundo na adolescência (ou fim de adolescência) deve lidar. Mas, para quem passa (ou passou) por algum relacionamento, o coração desse CD – um relacionamento intenso que termina mal, e Lorde tem que lidar com isso enquanto amadurece sob a luz dos holofotes – é forte o suficiente para tornar tudo identificável.

Seja na estranha “Green Light” (que eu já resenhei, e apesar de não curtir até hoje a estrutura quebrada, admito que é uma faixa extremamente forte e fora da caixa de um 2017 bem repetitivo e chato musicalmente), “Sober” (e a obsessão da Lorde com dentes), “Homemade Dynamite” (uma das faixas mais brilhantes do CD, com vários dedos da Tove Lo, uma das compositoras, na faixa) ou na incrivelmente bem interpretada “Writer in the Dark” (se você acha que a Lorde é cantora de um truque só, basta dizer que ela é uma das melhores intérpretes do pop com essa música. Que cantora da porra), você percebe todos os passos de um relacionamento, e compreende bem por que acabou esse relacionamento, compreendendo por trás de todo o “melodrama” do álbum.

Extremamente coeso por causa da pouca quantidade de compositores e produtores (especialmente o Jack Antonoff), “Melodrama” tem como principal qualidade a habilidade absurda da Lorde com as palavras – e ela consegue se conectar com você porque, mesmo sendo famosa e rica, ela mostra que o seu relacionamento é “comum” a muitas pessoas – e ela é mais relatable que metade do showbiz quando fala de qualquer coisa.

Além disso, Lorde é visivelmente “wise beyond her years” – a sua percepção é mais madura que a de muita gente na sua idade, tanto em autoconhecimento sobre seus erros e acertos (na outra faixa brilhante “Liability”), em focar nas coisas boas de um relacionamento que acabou; ou mesmo em “Perfect Places”, a mais “jovial” do CD (e a que mais me lembrou os tempos do “Pure Heroine”, onde mesmo que a temática seja mais “wild”, no fim das contas, crescer é uma bosta e seguir em frente, procurando “lugares perfeitos” pra se esconder da realidade complicada no fim não vai a lugar nenhum.

Um grande, brilhante, intenso e dramático CD, mas que não me vejo ouvindo daqui até o dia em que for indicado a todos os Grammys possíveis. É melhor que o “Pure Heroine”, mais acabado, maduro; e pra quem estranhou o primeiro single (como eu), o álbum traz uma sensação de conforto, de que ela continua afiada e tão interessante quanto no primeiro dia. Só que é engraçado, eu não me sinto engajada a ouvir outra vez. Não sei se é a quantidade de “drama”, “tragédia” e “perfídia” envolvidas; ou se eu não tenho conexão alguma com o coração do CD (o que já indica o suficiente sobre minha vida pessoal 😉 ), mas não me pegou como eu gostaria. No entanto, isso não significa que o álbum seja ruim – pelo contrário, é uma das melhores coisas de 2017. Pode ouvir colocando a mãozinha no coração.

E você, o que achou do álbum?

E qual deve ser o outro CD de que estou falando?