Anticlímax – Miley Cyrus, “Malibu”

Eu acompanhei a Miley Cyrus crescendo diante da mídia, com Hannah Montana, os álbuns como Miley, a explosão do “Bangerz” e a surpresa do Dead Petz. Acompanhei porque no auge do Orkut, as comunidades e os fakes da Miley vinham em quantidades absurdas, e quem vivia música pop também lidava com a ascensão das Disney Stars, e se elas conseguiriam fazer de forma bem sucedida o jump de child star para artista respeitável.

Posso dizer que hoje, eu mal me recordo dos tempos de Hannah Montana, nem da imagem que a Miley tinha naquele período. Ela conseguiu deixar pra trás aquela fase com muita maestria e bom conhecimento de cultura pop. É uma das grandes marketeiras da popsfera (e isso é um termo positivo), e eu a admiro por isso.

Por outro lado, todos nós crescemos e nos arrependemos das merdas do passado (às vezes não, às vezes a gente só queria ter feito alguma merda relevante pra ter uma adolescência digna de nota), mas levando em consideração que a gente aprende algo do passado pra levar pro resto da vida. Claro que nossa adolescência não foi sob os holofotes, mas crescer sempre é um processo difícil, especialmente quando você lança mão de determinados artifícios para amadurecer.

Antes de resenhar “Malibu”, lead-single do novo álbum da Miley Cyrus, gostaria de ressaltar uma coisa, que me incomodou bastante em 2013 e hoje continua me incomodando (e olha que 2013 eram tempos menos descontruídos pra todos nós): crescer é bom, mostrar que amadureceu melhor ainda, mas não negue, nem deixe de lado que você se apropriou e usou como fantasia e estereótipo uma cultura alheia pra ser vista como “madura” e “cool”. E isso a Miley fez; usando de todos os estereótipos possíveis ligados à cultura negra pra lucrar, pra depois se afastar de elementos que ela considerava “ruins” mas que em 2013 eram bem bacanas pra pagar de “crescida”. Assumir esse erro – ninguém assume. E isso é o que todo mundo está tentando levar em consideração e colocar na discussão, especialmente as publicações ligadas aos negros, como a Complex e o BET.

(curiosamente, eu nem acho o “Bangerz” ruim – fiz alguns comentários bem elogiosos certa feita, mesmo achando que o CD envelheceu mal)

Problema é: o que em 2013 passou, hoje não passa.

E ainda pra completar, o retorno da Miley à cena ainda tem como gênero-da-vez o country (um estilo musical que faz parte das raízes da jovem, nada mais justo que trabalhá-lo), mas tudo soa como “limpeza” de imagem – especialmente considerando a pegada conservadora do country lá nos States. Sabe, depois de ser “ratchet” com o rap, hora de se “adequar” cantando country.

(as críticas também são pautadas por essa mudança. E isso deve ser levado em consideração e pontuado sim, até mesmo pelos jornalistas que forem entrevistá-la.)

Após essa breve introdução, vamos à “Malibu“:

O single é um pop/rock praiano que lembra algo da Colbie Caillat e com ecos de Sheryl Crow. A letra é interessante, com referências ao retorno do seu relacionamento com o Baby Thor aka Liam Hemsworth. A vibe é bem fim de tarde de verão, luau na praia ao pé da fogueira, comecinho de romance com abraços furtivos ouvindo música no violão – ou seja, perfeita para o Hemisfério Norte. A voz da Miley funciona muito bem com esse tipo de música – ela tem um vocal de muita personalidade, a voz é marcante, você sabe exatamente quem é, assim que ouve.

No entanto… Apesar da vibe, a faixa me pareceu muito anticlimática, indo do nada ao lugar nenhum. Monótona, não explode, e a música fica no mesmo tempo o tempo todo, tirando do refrão (bom, fácil) todo o “momento” da música. Refrão é pra ser o centro das coisas, a explosão, ou o grande momento (ou mesmo quando tratamos do pré-refrão, a hora em que você segura a respiração para o big break)… O refrão aqui parece perdido no meio da melodia, e a música perde muito com isso.

Quando se tem uma música assim, é necessário que o clipe traga o “momento” que o single não possui. E o clipe de “Malibu” não ajuda. Chato, não é um vídeo que veria de novo. Ver a Miley de um lado a outro correndo na relva e na praia, na cachoeira e segurando balões ao som de um non-event como essa música não me atrai nem um pouco. Essa coisa meio only girl in the world só funciona se a música te leva junto, num crescendo que explode (como em “Only Girl in the World” da RiRi), e essa música não cresce, não acontece.

(especialmente no chart male-dominated de 2017, em que as faixas mais bem sucedidas são urban/hip hop e EDM pasteurizado a la Chainsmokers, “Malibu” é um risco calculado, e poderia ser mais marcante até por ser um risco)

Por fim, pode ser que faça sucesso (chegou ao #1 no iTunes) porque a Miley (que já tem performances engatilhadas no Billboard Music Awards e no Today Show Concert Series) sabe render as músicas, seja com performance, seja com a imagem; e além disso, ela tem uma fã-base bem sólida (ao contrário de outra act pop por aí), construída desde os tempos da Disney – gente que literalmente cresceu com ela. Só que eu vejo a possibilidade de hit diretamente relacionada à divulgação disso, porque a música em si é tão meh…

E vocês, o que acharam de “Malibu”?