Últimos lançamentos – Kesha, Demi e Selena

As duas últimas semanas foram repletas de ótimas, surpreendentes e deliciosas estreias especialmente no combalido pop feminino de 2017. Uma delas talvez seja um dos melhores do ano, em que finalmente tivemos a oportunidade de ouvir a verdadeira voz de uma artista – em todos os sentidos.

Kesha, de verdade, em “Praying”

Em primeiro lugar, quem escondeu essa voz de nós, da Kesha, esses anos todos? (pergunta retórica, mas não custa nada nos surpreendermos) Essa voz forte, potente, cheia de emoção e alma foi finalmente apresentada ao grande público com o single “Praying”, o lead de seu novo álbum, “Rainbow”. Uma das melhores músicas lançadas no ano, merece não apenas o praise da crítica como awards e o retorno de público.

Um pop piano-driven com refrão épico, tem uma letra diretamente indireta para o Dr. Luke, em que mesmo tendo consciência de todo o mal (a perseguição, abusos) que ele lhe fez, a Kesha segue um caminho de perdão (“I hope you’re somewhere prayin’, prayin’ / I hope your soul is changin’, changin'”), mas sabendo que com sua música e composições a sua verdade se torna algo tão forte que depois de “Rainbow”, era uma vez Dr. Lúcifer (em “When I’m finished, they won’t even know your name”). Um comeback absolutamente perfeito.

Apesar de ser uma grande canção, “Praying” não é exatamente radiofriendly; no entanto, isso não tira o fato da faixa ser um musicão da porra que abre os trabalhos para a era “Rainbow” em grande estilo. É pop, tem produção bem trabalhada e orgânica e nos deixa loucos para ouvir o resto do CD (aliás, ela já lançou outra faixa, a rock/soul “Woman“, a cara da old Kesha, mas com um groove inesperado). Se você ainda não se interessou por “Rainbow”, melhor entrar no hype.

Enquanto isso, outro lead lançado recentemente é “Sorry not Sorry”, primeiro single da Demi Lovato abrindo os trabalhos de seu novo álbum sem título.  Aparentemente, a Demi realmente decidiu investir mais a fundo numa sonoridade pop/R&B que se enquadra muito bem em sua voz, mas não era isso exatamente que eu estava pensando que ela seguiria…

Que legal essa música nova da Ariana GrOPA

“Sorry not Sorry” é boazinha, upbeat, a cara do verão, com uma letra direcionada aos haters e cheia de quotes perfeitos pra usar nos stories do Instagram (aliás, já imagino as pessoas dublando o refrão no Snapchat usando um filtro de cachorro ou a coroa de flores). No entanto, é uma faixa extremamente derivativa, muito parecido com o pop/R&B que a Ariana sempre faz (o acompanhamento ao piano é bem parecido com o mood meio retrô das faixas do “Yours Truly”). Apesar da faixa ter ecos anos 90, o que é sempre legal, não há muita coisa que me faça revisitar a música depois de uma ou duas ouvidas – especialmente com o refrão gritado e o tom da música estar sempre acima (Demi ainda não entendeu que menos é mais).

No entanto, a música é ideal para o verão americano, o refrão é repetitivo e feito pra grudar e se a Demi/gravadora souberem divulgar, considerando ainda que o clipe pode ter artistas famosos (ou seja, forte potencial de viralização) consegue fácil um top 10. De uma coisa é certa: a Demi não tem medo de batalhar pelos singles, tá sempre divulgando e tentando emplacar. (só não entendi SNS ainda não estar no Youtube…)

Mas bem que poderia ser algo melhor, né? “Sorry not Sorry” não me faz ganhar nenhum interesse em ouvir o CD.

(aliás, essa música tem sample de “A Little Bit of Love” ou não?)

A outra estreia de destaque é de uma artista que sempre está oferecendo surpresas dentro da sua capacidade vocal, e apesar de não ser tão inspirada quanto seu primeiro single, essa música é outro acerto na carreira dela.

Selena Gomez se conhece bem em “Fetish”

A faixa, aparentemente o segundo single do novo álbum ainda sem título, é uma parceria com Gucci Mane e tem a mesma vibe sexy discreta que a jovem já tinha trabalhado no Revival. Com a mesma pegada urban das faixas do álbum anterior, mas com uma letra mais direta ao ponto, é outro tiro bem dado da Selena: misteriosa e fresh, “Fetish” combina muito bem com o vocal limitado dela. É impressionante como ela compreende bem onde a voz dela pode ir ou não.

(porque tão importante quanto ter uma boa voz, é saber como usá-la)

Apesar de achar a faixa boa, eu particularmente prefiro o pré-refrão do que o refrão (que demora bastante pra pegar), e “Bad Liar” ainda é uma música adorável por ser diferente e fora da caixa para a própria Selena. “Fetish” é mais familiar e confortável para um ouvido distraído escutar, e mais radiofriendly. No entanto, não adianta nada lançar faixas tão envolventes se a cidadã não move um músculo para divulgar essas músicas. Mesmo que o chart digital mostre que a Selena tem força, e o deal com o Spotify ajude na exposição dessas canções, o airplay está abaixo do decente, o que mostra que não se pode esquecer do grande público. E nisso a Selena peca e muito – a impressão que dá é: ela é mais celebridade, ícone fashion, produtora, do que cantora.

Se for assim, melhor selecionar suas prioridades.

E vocês? Qual dessas três músicas vocês mais gostaram?

Demi Lovato acertou finalmente com “Body Say”

Cover Demi Lovato Body SayJá tem algum tempo que venho comentando da busca da Demi Lovato em busca de uma identidade que se reflita no reconhecimento da jovem como uma estrela da música. Talentosa, com uma grande voz e letras confessionais sobre sua vida e relações pessoais, além de uma imagem de superação conhecida, Demi acabou pecando por trabalhos irregulares, ainda no limite entre ser adulta ou teenager. Além disso, o lançamento de “Confident” ano passado, um álbum com boas ideias, que numa primeira ouvida é um bom álbum de uma jovem artista adulta (eu elogiei o CD na época, mesmo questionando onde estava a “Demi Lovato” real no álbum), mas depois de algum tempo soa cansativo e pecando nos mesmos erros de “não saber o que quer”, não ajudou em nada no fortalecimento da imagem da Demi como artista adulta.

No entanto, pouco antes do início da turnê conjunta com o Nick Jonas – a “Future Now – Demi lançou um single que parece abrir os trabalhos para o novo álbum, já fora da tenebrosa Hollywood Records. A música em questão, “Body Say”, é uma Demi Lovato que realmente parece uma artista adulta, cantando uma música com apelo a um público crossover e usando a voz com parcimônia, graças a uma produção equilibrada e gostosa.

Um pop/R&B que lembra bastante o breakthrough single do amigo Nick, “Jealous” (o que se explica pelo fato de um dos compositores e produtores ser Sir Nolan, produtor da faixa), especialmente no refrão, é uma faixa que atrai ouvintes para além do público mais jovem da Demi, com uma letra safadinha e bem sacada, ótima para as preliminares pré-sexo. Especialmente o refrão é um achado.

“You can touch me with slow hands
Speed it up, baby, make me sweat
Dreamland, take me there cause I want your sex
If my body had a say, I wouldn’t turn away
Touch, make love, taste you
If my body told the truth, baby I would do
Just what I want to”

Adoro essas músicas que te colocam numa ambientação, meio que contam uma história mesmo com o intérprete cantando em primeira pessoa. E a produção da música é melhor do que qualquer coisa lançada no álbum anterior. Simples, equilibrada, sem superprodução, sem exageros. A voz da Demi está no ponto -nada de gritarias, firulas desnecessárias, apenas o trabalho de performance e os agudos nos pontos certos. A voz não está parecida com ninguém, não parece música rejeitada de outros artistas; é uma música que tem o jeito e a identidade dela.

Pop/R&B é o negócio da Demi, e se a vibe do futuro álbum for nessa linha, sem overproducing, finalmente sabendo como usar a voz dela, teremos um ótimo lançamento.

E você, o que achou de “Body Say”?

 

Demi Lovato na busca pela própria voz em “Confident”

2015 tem uma marca sutil, não sei se percebida pelos ouvintes casuais ou mais perceptivos de música pop. É o ano em que os artistas com grande público adolescente lançaram (ou vão lançar) materiais com objetivo de atingir um público maior – e por fim, fazer com que esse público perceba que os artistas cresceram. Selena Gomez mostrou uma maturidade reflexiva no ótimo “Revival”, enquanto Justin Bieber logo vai lançar o seu “Purpose” para provar aos críticos que pode ser levado a sério.

Cover CD Demi Lovato Confident Demi Lovato, que deve ter tido a trajetória mais cheia de conflitos de todas as estrelas teen do final da década de 2000, encontrou uma confiança e uma atitude mais sexy com o “Confident“, lançado em Outubro. Apesar dos dois primeiros singles, “Cool For The Summer” e “Confident”, não terem sido (ou serem) os smashs pretendidos de quem decidiu trabalhar com o midas Max Martin, Demi conseguiu o seu objetivo: crescer diante do público com um material que, entre altos e baixos, consegue passar uma mensagem de crescimento e desenvolvimento de uma autoestima mais positiva, com um importante ponto: a jovem consegue controlar aqui finalmente o seu potencial vocal em músicas nas quais ela consegue finalmente se impor como intérprete, para além de cantora.

Especialmente para uma artista que até o momento, ainda me parece em busca de uma identidade que a classifique como “Demi Lovato”, para além do vozeirão (que sempre me pareceu utilizado de forma pouco inteligente no decorrer da sua carreira). Se essa identidade foi alcançada aqui? Confira no faixa-a-faixa!

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Demi Lovato em busca de identidade com Cool For The Summer

Demi LovatoAlém de Selena Gomez, outra ex-Disney lançou um novo single para iniciar os trabalhos do futuro álbum – é a Demi Lovato. Eu já havia comentado na resenha de “Good For You” que a Demi ainda estava em busca de identidade própria, em trabalhos irregulares e ainda muito associados ao público juvenil. Conhecida pela voz potente, letras confessionais e pela história de superação do vício em drogas, Demi tinha começado a carreira com um pop/rock nos moldes de Kelly Clarkson, depois flertou com o R&B e agora é bem pop, o que mostra o lead-single do quinto CD da carreira, a sintetizada “Cool For The Summer”.

 

 

Com Max Martin, Savan Kotecha e Ali Payami na produção, não tem muito como dar errado. Com visível influência dos anos 80, tanto na batida sintetizada (e atualizada com as guitarrinhas ao fundo do instrumental),o teclado que parece ter vindo de alguma faixa dance-pop de 86/87 de um bom One-Hit Wonder, a música tem um refrão pegajoso que pega você na primeira ouvida. Música ótima para remixes de boate e para dançar, é extremamente comercial e radio-friendly, e consegue oferecer um pulo do gato para Demi – não esquece a sua fã-base mais jovem, mas se abre para ouvintes mais adultos como música para o verão. A música é bem mais madura nesse aspecto que outros lead-singles, como “Get Back”, “Here We Go Again” ou “Heart Attack”.

Agora os problemas – que não são poucos: se Demi espera que “Cool For The Summer” ajude a sedimentar uma identidade dela para o público e colocá-la como uma pop star de fôlego, não é exatamente essa a música que pode ajudar nisso. Ser comercial e radio-friendly não significa que sua voz tenha que estar super parecida com a Avril Lavigne nos versos e a Katy Perry (ou a Jessie J) no refrão. A impressão que ficou é que essa música ficou rodando na mão de muita gente por aí e sobrou para a Demi, que não imprimiu nenhuma identidade sólida, nada que fosse dela mesmo na música. A letra é muito fraquinha – considerando que a própria cantora já ofereceu músicas mais interessantes em seu catálogo (mesmo na fase Disney) – e eu sei bem que Max Martin poderia ter se esforçado mais. Ficou um instrumental poderoso a serviço de uma letra preguiçosa – e uma interpretação até equivocada.

(e por falar em Jessie J, só eu achei que a marcação do refrão lembrou “Domino”?)

Sobre a possibilidade de sucesso, acho que a jogada da Demi aqui foi mais certeira que a da Selena, por exemplo, que colocou uma música mais arriscada para tentar hitar no verão: “Cool for the Summer” é música pra estourar no verão mesmo, pra ficar na cabeça de todo mundo, pra ouvir sob o sol quente e repetir até cansar no Spotify. Com esse refrão grudento, é muito difícil não ficar imune ao poder da canção. Como estamos em tempo de transição de vendas digitais para a dominação total dos streams com o lançamento do Apple Music, acho que a Demi vai se aproveitar desse período com boas vendas digitais, mas principalmente com audio stream – ela tem uma fã-base fiel que vai colaborar e muitos ouvintes curiosos que podem vir a gostar da música. Repito aqui o que disse na resenha da Selena: os próximos passos serão conquistar o público que ainda a vê como Disney Star e mostrar que é artista adulta. 

Mas primeiro precisa decidir que tipo de artista quer ser, de verdade.

P.S.: mas se o álbum todo vier nessa pegada, acho que o jogo pode ficar interessante…