Uma grata surpresa – Demi Lovato, “Tell Me You Love Me”

Demi Lovato - Tell Me You Love Me (Official Standard Album Cover).pngDe todas as ex-acts da Disney, Demi Lovato é seguramente, a artista que possui a trajetória mais irregular de carreira. Saindo do pop/rock dos dois primeiros álbuns para uma blend de resultados questionáveis entre pop e R&B, apenas no “Confident” (2015) ela conseguiu apresentar maior controle da própria voz em aspectos técnicos; mas em relação ao estilo, ainda patinava em encontrar sua verdadeira identidade.

Problema resolvido em seu novo lançamento – “Tell Me You Love Me“, sexto álbum na discografia, mostra uma Demi muito confortável com uma sonoridade pop/R&B condizente com seu vocal (que não é extremamente soul e com volume, e sim indiscutivelmente pop, mas com a já conhecida potência). Além disso, a cantora finalmente se provou uma intérprete versátil em músicas excelentes que trazem uma audição surpreendente: é o melhor álbum da Demi, com material de alta qualidade e um som gostoso, agradável de ouvir, controlado, maduro e que tem muita personalidade.

Para saber mais sobre as canções, é só conferir depois do pulo!

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Repetitivo, mas os refrões tão grudentos – “Evolve”, Imagine Dragons

Você já sentiu que achou um CD sensacional, mas nunca mais ouviria na vida; enquanto outro álbum que não é exatamente uma Brastemp te deixou viciada nas músicas?

ImagineDragonsEvolve.jpgEu contei ontem sobre a minha estranha experiência com o  “Melodrama“, novo álbum da Lorde, muito bem feito, produzido, excelentes letras, um dos melhores do ano, mas tive zero conexão com o material. Hoje, é hora de terminar aquela trama do “álbum que não é lá essas coisas mas é viciante” com um CD que tô ouvindo non-stop desde ontem de manhã: “Evolve“, do Imagine Dragons.

Aliás, você já teve a impressão de que era iniciado ou iniciada em algum culto ouvindo o Imagine Dragons? Eu me vejo percebendo isso, eu não sei se é por causa dos arranjos meio evocativos com pretensão épica, ou as letras com as mensagens desconexas que não fazem sentido mas dão ótimas legendas para fotos; não sei, o que interessa é que o “Evolve” tem uma pegada eletrônica bem vinda e refrões absolutamente grudentos em meio a fillers imperdoáveis e um tema que se repete com pouca sutileza ou elegância.

(mas é tão bom fazer air drums no buzú ouvindo o CD…)

O álbum todo trabalha com a ideia de “sofrer pra alcançar a evolução, seja pelo amor, pela dor ou por simplesmente acreditar que é possível”. É meio teoria da Xuxa, mas os refrões são tão grudentos, a produção tão bem feita (boa parte do álbum tem produção de Mattman & Robin, que dá uma coesão bem legal a todo o álbum) e a voz do Dan Reynolds (frontman da banda) tão carismática que você até esquece que os caras falam do mesmo assunto em quase 11 músicas sem mudar quase nada da lógica haha Mas o mais interessante desse CD é que o ID conseguiu colocar refrões insanamente grudentos em meio a alguns fillers desnecessários de todo.

Seja na faixa de abertura “I Don’t Know Why”, com o pré-refrão que é tiro (e grita pra ser single); o promocional “Whatever it Takes” (que me lembra bem de longe o Coldplay popzinho atual, mas BEM mais pop e grudento); “Walking the Wire” (com a letra simples, mas bem efetiva, um belo resumo do álbum, liricamente – para chegar em algo, evoluir, você acaba superando obstáculos seja em relacionamentos, na sua autoestima ou tentando lidar com a dor mesmo); e a lindinha “I’ll Make it Up To You” (com uma vibe anos 80 bem retrôzinha) – a letra é tão fofa que é um respiro depois de tanta sofrência conceitual, e é outra que grita single; você percebe construções simples, refrões fáceis, faixas ótimas pra ouvir num dia de chuva ou dublando no busão depois do trabalho; um CD gostoso e que mesmo não sendo uma OBRA-PRIMA, te deixa sempre querendo mais.

Ao mesmo tempo, tem fillers tensas aqui, como “Rise Up”, a BIZARRA “Yesterday” (o mesmo Alex DaKid que voltou dos mortos com “Thunder” e “Dancing in the Dark” – que música, que vibe, nunca achei que ia achar uma música do Imagine Dragons sexy – me apresenta esse treco na produção), “Mouth of the River” e “Start Over”, que ainda não decidi se pulo ou não quando ouço o CD.

Mas com certeza, os dois primeiros singles são os que mais tem cara de que fui iniciada num culto. “Believer” (olha o nome minha gente, hahaha) é  O TIRO EM FORMA DE MÚSICA, ainda mais com a letra que realmente parece coisa de teoria da conspiração e o uso do tema “sofrimento para evoluir” usado com elegância e dramaticidade bem equilibradas; e “Thunder”, a clássica história do menino que sonha em ser rockstar, é outra música perfeita para o ritual com a levada de marcha que é a cara do Imagine Dragons, são essenciais para se entender “Evolve”, seus refrões grudentos, letras simples e uma produção viciante, feita pra você cantar “I was lightning before the thunder” sem perceber no meio da rua.

Cuidado, você está dentro e nem sabe onde entrou.

Já ouviu o novo CD do Imagine Dragons? O que achou?

É bom mas só vou ouvir três vezes – “Melodrama”, Lorde

Você já sentiu que achou um CD sensacional, mas nunca mais ouviria na vida; enquanto outro álbum que não é exatamente uma Brastemp te deixou viciada nas músicas?
Essa é a minha sensação neste momento, que vou dividir em dois posts, e você entenderá o porquê. O primeiro é sobre um dos melhores álbuns do ano que não vou ouvir muito, “Melodrama”, da Lorde.

Green Light (Official Single Cover) by Lorde.pngRepetindo: “Melodrama” É um dos melhores álbuns do ano. FATO. brilhantemente bem escrito, bem trabalhado produção esmeradíssima e uma evolução (não apenas sonora como lírica e de vida) em relação ao Pure Heroine. Lorde (nascida Ella O’Connor) não é mais a garota esquisita de 16 anos da Nova Zelândia; agora é uma A-list, parte do squad da Taylor Swift, uma das sensações da música pop. E está crescendo. E terminou um relacionamento. E terminou um relacionamento longo em meio à saída da adolescência pra idade adulta, quando a gente não sabe bem pra onde está indo como pessoa.

(quando eu falo de mim no blog é mais ou menos o óbvio; no entanto, o máximo de drama dos meus 18 anos foi que eu não passei de primeira no vestibular. Tem quase nada – ou nada – vivido pela Lorde que eu tenha lidado porque eu era – e sou – uma figura complicada. Basta dizer que “Liability” seria minha música se eu me importasse)

A partir do fim de um longo namoro com o fotógrafo James Lowe (apenas para contexto: quando a Lorde estourou, ela já namorava com o cidadão, que tinha 24 anos enquanto ela tinha 16), a neozelandesa entrega pra gente um álbum sobre solidão, fim de relacionamento, crescimento, autodescoberta e muito drama, hiperbolizado ou não – e realmente algo que todo mundo na adolescência (ou fim de adolescência) deve lidar. Mas, para quem passa (ou passou) por algum relacionamento, o coração desse CD – um relacionamento intenso que termina mal, e Lorde tem que lidar com isso enquanto amadurece sob a luz dos holofotes – é forte o suficiente para tornar tudo identificável.

Seja na estranha “Green Light” (que eu já resenhei, e apesar de não curtir até hoje a estrutura quebrada, admito que é uma faixa extremamente forte e fora da caixa de um 2017 bem repetitivo e chato musicalmente), “Sober” (e a obsessão da Lorde com dentes), “Homemade Dynamite” (uma das faixas mais brilhantes do CD, com vários dedos da Tove Lo, uma das compositoras, na faixa) ou na incrivelmente bem interpretada “Writer in the Dark” (se você acha que a Lorde é cantora de um truque só, basta dizer que ela é uma das melhores intérpretes do pop com essa música. Que cantora da porra), você percebe todos os passos de um relacionamento, e compreende bem por que acabou esse relacionamento, compreendendo por trás de todo o “melodrama” do álbum.

Extremamente coeso por causa da pouca quantidade de compositores e produtores (especialmente o Jack Antonoff), “Melodrama” tem como principal qualidade a habilidade absurda da Lorde com as palavras – e ela consegue se conectar com você porque, mesmo sendo famosa e rica, ela mostra que o seu relacionamento é “comum” a muitas pessoas – e ela é mais relatable que metade do showbiz quando fala de qualquer coisa.

Além disso, Lorde é visivelmente “wise beyond her years” – a sua percepção é mais madura que a de muita gente na sua idade, tanto em autoconhecimento sobre seus erros e acertos (na outra faixa brilhante “Liability”), em focar nas coisas boas de um relacionamento que acabou; ou mesmo em “Perfect Places”, a mais “jovial” do CD (e a que mais me lembrou os tempos do “Pure Heroine”, onde mesmo que a temática seja mais “wild”, no fim das contas, crescer é uma bosta e seguir em frente, procurando “lugares perfeitos” pra se esconder da realidade complicada no fim não vai a lugar nenhum.

Um grande, brilhante, intenso e dramático CD, mas que não me vejo ouvindo daqui até o dia em que for indicado a todos os Grammys possíveis. É melhor que o “Pure Heroine”, mais acabado, maduro; e pra quem estranhou o primeiro single (como eu), o álbum traz uma sensação de conforto, de que ela continua afiada e tão interessante quanto no primeiro dia. Só que é engraçado, eu não me sinto engajada a ouvir outra vez. Não sei se é a quantidade de “drama”, “tragédia” e “perfídia” envolvidas; ou se eu não tenho conexão alguma com o coração do CD (o que já indica o suficiente sobre minha vida pessoal 😉 ), mas não me pegou como eu gostaria. No entanto, isso não significa que o álbum seja ruim – pelo contrário, é uma das melhores coisas de 2017. Pode ouvir colocando a mãozinha no coração.

E você, o que achou do álbum?

E qual deve ser o outro CD de que estou falando?

Combo de álbuns – Kendrick Lamar, “DAMN.”e Harry Styles, “Harry Styles”

Prometi, protelei e cheguei com mais um “Combo de Álbuns”, com dois lançamentos que considero entre os melhores de 2017. Qualidade comercial, identidade artística e retorno comercial são elementos que ajudam a tornar os dois CDs alguns dos lançamentos mais vibrantes do ano, cada um em fields distintos.

“DAMN.“, o quarto álbum do Kendrick Lamar (lançado em 14.04.17), o sucessor da obra-prima “To Pimp A Butterfly”, chegou com uma missão – corresponder às altíssimas expectativas em torno do trabalho do K-Dot, alçado a uma das cabeças pensantes da música atual, gênio e uma das figuras mais relevantes da cultura pop. O rapper conseguiu fazer algo incrível – se não superou TPAB (o que é uma missão ingrata), ele ofereceu a todos nós um álbum excelente, com ótima qualidade, e com apelo comercial suficiente para colocar três músicas no top 10 da Billboard e “Humble” como seu primeiro #1 solo.

Já o self-titled do Harry Styles (lançado em 12.05.17) é o debut do britânico após o hiato do One Direction. Todo mundo ficou de olho no que o jovem colocaria pro jogo – afinal de contas, ele era o membro mais popular da boyband e todos consideraram que ele tinha maior potencial para hitar. O que Harry ofereceu ao grande público foi uma verdadeira – e grata – surpresa: um CD de rock, mais precisamente emprestando o estilo soft rock, setentista, com um ar nostálgico, tocante e melancólico. Um álbum de muita personalidade e que alcançou muita gente fora do espectro do One Direction, e que além das boas críticas, foi lançado em primeiro lugar na Billboard 200 com mais de 230 mil cópias, sendo 190 mil só de álbuns (imagine isso em 2017, e com um artista cuja base de fãs é formada por jovens adultos e adolescentes que não compram CD físico nem digital há séculos).

Hora de saber o que há de tão bom nesses dois álbuns!

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Muita calma antes de falar mal de “Witness”

Ultimamente, falar mal da Katy Perry virou esporte mundial. Seja pelos singles lançados não fazerem muito sentido com o que ela tinha prometido no começo da era (de “pop com propósito” a “Swish Swish” é um caminho bem tortuoso), declarações ruins (como aquela “piada” com referência à Brtiney que foi de péssimo gosto), parceria com rappers acusados de homofobia (os Migos, em “Bon Appetit“) e outros artigos criticando a Katy que oscilam entre apontar erros válidos e perseguição sem muito sentido (já que a mídia adora derrubar quem costuma erguer), Katy é o alvo da vez, e para completar, os singles lançados não foram exatamente os sucessos que todos esperavam.

Mesmo trabalhando com hitmakers (Max Martin, Shellback, Ali Payami, Sia) e nomes mais alternativos (como os grupos Purity Ring e Hot Chip) em seu novo álbum, “Witness“, o que todos vem comentando em fóruns e resenhas dos grandes jornais é em como o álbum é uma “bomba”, “sem graça”, “Katy não cresceu”, que o som é ruim etc. Mas será que o CD é realmente essa napalm que estão todos dizendo ou já existe uma má vontade gratuita por causa de todo o backlash (merecido ou não) que a moça vem recebendo?

O que eu posso dizer é: CALMA JOVEM. E olha que eu fui com a pior expectativa possível pra esse álbum

Antes de mais nada, quem já ouviu todos os CDs da Katy Perry, sabe que eles são obras bem irregulares, porque elas tem bons singles mesclados com fillers às vezes ofensivos – tente passar incólume pela segunda parte do “PRISM” que é uma snoozefest. Mas o segredo dos álbuns da moça sempre foi: apesar da irregularidade, sempre teve uma penca de músicas fortes para serem single que ancoram a audição porque estão bem localizados dentro do álbum (em “One of the Boys”, os singles e/ou músicas com potencial estão na primeira parte do CD; o “Teenage Dream” é quase um Greatest Hits, nem dá pra estabelecer uma comparação; e o “PRISM” também coloca os singles e/ou faixas com potencial na primeira parte do CD. Tanto que você até “engole” os fillers porque passou por algo bem bacana antes). Já no “Witness” as músicas boas estão espalhadas num mar de fillers num CD que dura tempo demais e tem músicas demais.

Há um conceito pelo CD que a Katy busca, mas nem sempre dá certo. Entende-se que ela discuta aqui e ali, com letras mais maduras, assuntos sobre relacionamentos, empoderamento, autoestima e questões políticas, mas o que a gente pode perceber é que a musicalidade do álbum tem um diferencial mais palpável: o dance-pop não parece tão teen oriented, há uma memória meio retrô em algumas faixas, mas no final não sai muito dessa evocação. Mesmo assim, há muitas ideias bem realizadas, como em “Witness”, a faixa título onde o hype faz todo sentido. A letra é no ponto, a ambientação, é agradável e gostosa, um dance-pop maduro. Outras músicas que são ótimas ideias bem executadas e que indicariam um caminho interessante (um dance 80’s retrô que funcionaria bem com as letras românticas e reflexivas) são “Roulette”, com o synthzinho super bacana e tem bastante potencial; “Miss You More” (que aparentemente é sobre o John Mayer), a melhor baladinha do CD, onde a interpretação vocal da Katy, com os graves do refrão, está no ponto e muito bonita; “Bigger than Me” (inspirada na derrota da Hillary Clinton na eleição do ano passado), uma faixa gostosinha com o refrão fácil que poderia muito bem ser o último single do álbum; e a sensacional “Pendulum”, com o coral gospel ao fundo, o acompanhamento das palminhas, a pegada R&B com algo oitentista (gente, cadê meu CD anos 80 dona Katheryn?), tem até um groovinho de guitarra, uma música ótima que merecia fechar fácil o CD num clima bem up.

(não acredito que Katy Perry inventou a música gospel bicho)

(curiosamente, os singles do CD, que exceto por “Chained” não vendem o conceito do “Witness” AT ALL, estão bem localizados na tracklist, exceto “Bon Appetit”, uma anomalia que não faz sentido em lugar algum, mas que estranhamente cresce a cada ouvida)

Em outras músicas, como a medonha “Hey Hey Hey”, a letra parece ter sido escrita por uma menina revoltada de 14 anos (e considerando que essa música vem LOGO após “Witness”, nada faz sentido). Pior que a melodia não é ruim (umas guitarras dariam um ar bem rock ‘n roll), mas a letra é uma vergonha gente. Sem contar as fillers como “Dejà Vú”, “Save as Draft” (com o verso You don’t have to subtweet me que está me deixando envergonhada só em ler), “Tsunami”, e até “Mind Maze”, com a ótima letra sobre se perder dentro dos próprios problemas desperdiçada numa melodia entediante.

Mas se você perceber, nenhuma das músicas que tem potencial de single são faixas que gritam HIT SMASH CHART MONSTER. São faixas agradáveis, bem feitas, com boas letras, que dão substância e coerência ao CD, e que podem render sim; mas o que foi lançado não vende nada do CD – o que cria a impressão de que a Katy não “evoluiu” tampouco as músicas são “maduras”. As faixas são boas e interessantes, mas ainda tem o problema da tracklist cagada em que duas músicas parecidas estão juntas (“Mind Maze” e “Miss You More”), duas músicas se anulam completamente em ideias (“Witness” e “Hey Hey Hey”), músicas boas sendo seguidas por grandes porcarias (“Chained” e “Tsunami”) e ainda encerra numa bela snoozefest (“Into Me You Se”) quando poderia terminar lá em cima.

(resumindo o problema da tracklist: quando você tem muito filler e pouca música com pinta de hit, tem que fazer um bom corte final e deixar as faixas fortes juntas, ancorando a audição 😉 )

Em resumo, “Witness” é um CD de ótimas ideias e uma condução mais reflexiva e madura que se perde numa tracklist confusa, faixas sem sentido e uma péssima escolha de single. Se Katy e a Capital eu fosse, seria dessa forma que lançaria o CD:

E você, qual a sua opinião sobre “Witness”? É bomba ou não é bem assim?

 

 

 

 

 

Pop baunilha – Ed Sheeran – ÷

Nas últimas semanas, vocês já devem ter tido acesso à célebre resenha do novo álbum do Ed Sheeran, “÷” (lê-se “divide“), feita pela conceituada Pitchfork (spoiler: a publicação deu 2.8 ao CD, menos que o pavoroso “Nine Track Mind”, do Charlie Puth). Mas será que o novo álbum do ruivo é tão ruim assim?

Antes da resenha, é importante dizer que durante a divulgação do álbum, Ed deu algumas declarações no mínimo estranhas para um pop act – como dizer que “abaixo de Adele, só ele vendeu discos” e que “agora tem vários cantores-compositores e que eu estou muito feliz por todo mundo, mesmo que eles copiem tudo que eu tenho feito” (foi mais ou menos isso que ele disse, como se Ed Sheeran fosse o rei da originalidade). Pois bem, pra quem se arvorou o criador do WGWG (Bob Dylan foi uma alucinação coletiva,  I guees), o material do moço é bem aquém. Especialmente o “÷“, que é até um improvement em relação ao snoozefest que era o Multiply (que dor ouvir aquele CD que foi indicado ao Grammy!!!!), mas não tem nada de diferente, curioso ou groundbreaking em relação a outros male acts e parece um pop baunilha, pronto pra consumo nas rádios, tocar na novela e ganhar “respeito” do Grammy que vai indicar esse CD a qualquer coisa porque é puro middle-of-the-road.

Pois bem, dá pra ver que eu não gostei do CD né. Bora pro track-by-track:

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Rádio FM à meia-noite – “24k Magic”, Bruno Mars

essa capa tá doendo os meus olhos
essa capa sempre vai doer os meus olhos

Quando eu tinha uns 12 anos, antes de dormir eu sempre ligava o meu walkman (em 2002 ainda tinham essas coisas). Era um Aiwa, que me acompanhou desde os sete anos, e estava sempre ao lado da cama, sintonizado nas rádios FM aqui de casa, naqueles programas de fim de noite, tipo “Love Story”, “Momentos de Amor” e similares. Não que eu fosse uma menina romântica (na verdade, nunca fui – minha Lua em Aquário e minha Vênus em Gêmeos sempre me impediram), mas eu adorava aquelas músicas antigas que tocavam. Marvin Gaye, Lionel Richie, Brian McKnight. Seal, Boyz II Men, Bobby Brown, Rick James, Smokey Robinson, Jermaine Jackson, Rick Astley, Gregory Abbott, e a lista segue. Os clássicos dos anos 80 e 90 se misturavam na minha memória antes de dormir e acabaram me educando musicalmente, o que ajudou alguns anos depois quando decidi ter um blog sobre música. E especialmente quando não é só você que aparentemente tem essa relação próxima com esse R&B gostosinho daquela época.

As influências do Bruno Mars vão além do doo-wop, reggae, The Police e o Michael Jackson. O havaiano tem uma relação muito profunda com o R&B que era feito nos anos 90 – ele já declarou amor pela sonoridade da época algumas vezes, e a ideia de “24k Magic”, o terceiro álbum na curta discografia do moço, é homenagear essa época, cantores e grupos como Jodeci, Boyz II Man, Jagged Edge e todos os nomes do R&B que faziam babymaking songs; mas é claro, com o flavor atual que só o Bruno sabe fazer. Por cortar a “linha de influência” para um período muito específico – o final dos anos 80 até os anos 90 – o CD não é exatamente instantâneo como as outras incursões dele (se você perceber, é como se ele estivesse fazendo um estudo musical do pop com a própria discografia: o pop inocente com ecos de doo-wop e rock dos anos 50/60 com o retropop do “Doo-Wops & Hooligans”; e a vibração dos anos 70 e começo dos 80, com pop, reggae, rock, disco e uma slowjam de respeito como “Gorilla” no “Unorthodox Jukebox”), por ser bem mais R&B que todos os álbuns anteriores – e mesmo alguns acusando o lead single de ser parecido com singles do passado, o CD numa linha geral não se parece com nada dos anteriores – e nem com nada que tá tocando nas rádios.

Não é instantâneo. Mas é uma viagem daquelas (que dura pouco mais de MEIA HORA e tem NOVE FAIXAS. Tenha dó, Bruno!). Confira o track-by-track após o pulo: Continuar lendo