Combo de álbuns – Kendrick Lamar, “DAMN.”e Harry Styles, “Harry Styles”

Prometi, protelei e cheguei com mais um “Combo de Álbuns”, com dois lançamentos que considero entre os melhores de 2017. Qualidade comercial, identidade artística e retorno comercial são elementos que ajudam a tornar os dois CDs alguns dos lançamentos mais vibrantes do ano, cada um em fields distintos.

“DAMN.“, o quarto álbum do Kendrick Lamar (lançado em 14.04.17), o sucessor da obra-prima “To Pimp A Butterfly”, chegou com uma missão – corresponder às altíssimas expectativas em torno do trabalho do K-Dot, alçado a uma das cabeças pensantes da música atual, gênio e uma das figuras mais relevantes da cultura pop. O rapper conseguiu fazer algo incrível – se não superou TPAB (o que é uma missão ingrata), ele ofereceu a todos nós um álbum excelente, com ótima qualidade, e com apelo comercial suficiente para colocar três músicas no top 10 da Billboard e “Humble” como seu primeiro #1 solo.

Já o self-titled do Harry Styles (lançado em 12.05.17) é o debut do britânico após o hiato do One Direction. Todo mundo ficou de olho no que o jovem colocaria pro jogo – afinal de contas, ele era o membro mais popular da boyband e todos consideraram que ele tinha maior potencial para hitar. O que Harry ofereceu ao grande público foi uma verdadeira – e grata – surpresa: um CD de rock, mais precisamente emprestando o estilo soft rock, setentista, com um ar nostálgico, tocante e melancólico. Um álbum de muita personalidade e que alcançou muita gente fora do espectro do One Direction, e que além das boas críticas, foi lançado em primeiro lugar na Billboard 200 com mais de 230 mil cópias, sendo 190 mil só de álbuns (imagine isso em 2017, e com um artista cuja base de fãs é formada por jovens adultos e adolescentes que não compram CD físico nem digital há séculos).

Hora de saber o que há de tão bom nesses dois álbuns!

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Muita calma antes de falar mal de “Witness”

Ultimamente, falar mal da Katy Perry virou esporte mundial. Seja pelos singles lançados não fazerem muito sentido com o que ela tinha prometido no começo da era (de “pop com propósito” a “Swish Swish” é um caminho bem tortuoso), declarações ruins (como aquela “piada” com referência à Brtiney que foi de péssimo gosto), parceria com rappers acusados de homofobia (os Migos, em “Bon Appetit“) e outros artigos criticando a Katy que oscilam entre apontar erros válidos e perseguição sem muito sentido (já que a mídia adora derrubar quem costuma erguer), Katy é o alvo da vez, e para completar, os singles lançados não foram exatamente os sucessos que todos esperavam.

Mesmo trabalhando com hitmakers (Max Martin, Shellback, Ali Payami, Sia) e nomes mais alternativos (como os grupos Purity Ring e Hot Chip) em seu novo álbum, “Witness“, o que todos vem comentando em fóruns e resenhas dos grandes jornais é em como o álbum é uma “bomba”, “sem graça”, “Katy não cresceu”, que o som é ruim etc. Mas será que o CD é realmente essa napalm que estão todos dizendo ou já existe uma má vontade gratuita por causa de todo o backlash (merecido ou não) que a moça vem recebendo?

O que eu posso dizer é: CALMA JOVEM. E olha que eu fui com a pior expectativa possível pra esse álbum

Antes de mais nada, quem já ouviu todos os CDs da Katy Perry, sabe que eles são obras bem irregulares, porque elas tem bons singles mesclados com fillers às vezes ofensivos – tente passar incólume pela segunda parte do “PRISM” que é uma snoozefest. Mas o segredo dos álbuns da moça sempre foi: apesar da irregularidade, sempre teve uma penca de músicas fortes para serem single que ancoram a audição porque estão bem localizados dentro do álbum (em “One of the Boys”, os singles e/ou músicas com potencial estão na primeira parte do CD; o “Teenage Dream” é quase um Greatest Hits, nem dá pra estabelecer uma comparação; e o “PRISM” também coloca os singles e/ou faixas com potencial na primeira parte do CD. Tanto que você até “engole” os fillers porque passou por algo bem bacana antes). Já no “Witness” as músicas boas estão espalhadas num mar de fillers num CD que dura tempo demais e tem músicas demais.

Há um conceito pelo CD que a Katy busca, mas nem sempre dá certo. Entende-se que ela discuta aqui e ali, com letras mais maduras, assuntos sobre relacionamentos, empoderamento, autoestima e questões políticas, mas o que a gente pode perceber é que a musicalidade do álbum tem um diferencial mais palpável: o dance-pop não parece tão teen oriented, há uma memória meio retrô em algumas faixas, mas no final não sai muito dessa evocação. Mesmo assim, há muitas ideias bem realizadas, como em “Witness”, a faixa título onde o hype faz todo sentido. A letra é no ponto, a ambientação, é agradável e gostosa, um dance-pop maduro. Outras músicas que são ótimas ideias bem executadas e que indicariam um caminho interessante (um dance 80’s retrô que funcionaria bem com as letras românticas e reflexivas) são “Roulette”, com o synthzinho super bacana e tem bastante potencial; “Miss You More” (que aparentemente é sobre o John Mayer), a melhor baladinha do CD, onde a interpretação vocal da Katy, com os graves do refrão, está no ponto e muito bonita; “Bigger than Me” (inspirada na derrota da Hillary Clinton na eleição do ano passado), uma faixa gostosinha com o refrão fácil que poderia muito bem ser o último single do álbum; e a sensacional “Pendulum”, com o coral gospel ao fundo, o acompanhamento das palminhas, a pegada R&B com algo oitentista (gente, cadê meu CD anos 80 dona Katheryn?), tem até um groovinho de guitarra, uma música ótima que merecia fechar fácil o CD num clima bem up.

(não acredito que Katy Perry inventou a música gospel bicho)

(curiosamente, os singles do CD, que exceto por “Chained” não vendem o conceito do “Witness” AT ALL, estão bem localizados na tracklist, exceto “Bon Appetit”, uma anomalia que não faz sentido em lugar algum, mas que estranhamente cresce a cada ouvida)

Em outras músicas, como a medonha “Hey Hey Hey”, a letra parece ter sido escrita por uma menina revoltada de 14 anos (e considerando que essa música vem LOGO após “Witness”, nada faz sentido). Pior que a melodia não é ruim (umas guitarras dariam um ar bem rock ‘n roll), mas a letra é uma vergonha gente. Sem contar as fillers como “Dejà Vú”, “Save as Draft” (com o verso You don’t have to subtweet me que está me deixando envergonhada só em ler), “Tsunami”, e até “Mind Maze”, com a ótima letra sobre se perder dentro dos próprios problemas desperdiçada numa melodia entediante.

Mas se você perceber, nenhuma das músicas que tem potencial de single são faixas que gritam HIT SMASH CHART MONSTER. São faixas agradáveis, bem feitas, com boas letras, que dão substância e coerência ao CD, e que podem render sim; mas o que foi lançado não vende nada do CD – o que cria a impressão de que a Katy não “evoluiu” tampouco as músicas são “maduras”. As faixas são boas e interessantes, mas ainda tem o problema da tracklist cagada em que duas músicas parecidas estão juntas (“Mind Maze” e “Miss You More”), duas músicas se anulam completamente em ideias (“Witness” e “Hey Hey Hey”), músicas boas sendo seguidas por grandes porcarias (“Chained” e “Tsunami”) e ainda encerra numa bela snoozefest (“Into Me You Se”) quando poderia terminar lá em cima.

(resumindo o problema da tracklist: quando você tem muito filler e pouca música com pinta de hit, tem que fazer um bom corte final e deixar as faixas fortes juntas, ancorando a audição 😉 )

Em resumo, “Witness” é um CD de ótimas ideias e uma condução mais reflexiva e madura que se perde numa tracklist confusa, faixas sem sentido e uma péssima escolha de single. Se Katy e a Capital eu fosse, seria dessa forma que lançaria o CD:

E você, qual a sua opinião sobre “Witness”? É bomba ou não é bem assim?

 

 

 

 

 

Pop baunilha – Ed Sheeran – ÷

Nas últimas semanas, vocês já devem ter tido acesso à célebre resenha do novo álbum do Ed Sheeran, “÷” (lê-se “divide“), feita pela conceituada Pitchfork (spoiler: a publicação deu 2.8 ao CD, menos que o pavoroso “Nine Track Mind”, do Charlie Puth). Mas será que o novo álbum do ruivo é tão ruim assim?

Antes da resenha, é importante dizer que durante a divulgação do álbum, Ed deu algumas declarações no mínimo estranhas para um pop act – como dizer que “abaixo de Adele, só ele vendeu discos” e que “agora tem vários cantores-compositores e que eu estou muito feliz por todo mundo, mesmo que eles copiem tudo que eu tenho feito” (foi mais ou menos isso que ele disse, como se Ed Sheeran fosse o rei da originalidade). Pois bem, pra quem se arvorou o criador do WGWG (Bob Dylan foi uma alucinação coletiva,  I guees), o material do moço é bem aquém. Especialmente o “÷“, que é até um improvement em relação ao snoozefest que era o Multiply (que dor ouvir aquele CD que foi indicado ao Grammy!!!!), mas não tem nada de diferente, curioso ou groundbreaking em relação a outros male acts e parece um pop baunilha, pronto pra consumo nas rádios, tocar na novela e ganhar “respeito” do Grammy que vai indicar esse CD a qualquer coisa porque é puro middle-of-the-road.

Pois bem, dá pra ver que eu não gostei do CD né. Bora pro track-by-track:

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Rádio FM à meia-noite – “24k Magic”, Bruno Mars

essa capa tá doendo os meus olhos
essa capa sempre vai doer os meus olhos

Quando eu tinha uns 12 anos, antes de dormir eu sempre ligava o meu walkman (em 2002 ainda tinham essas coisas). Era um Aiwa, que me acompanhou desde os sete anos, e estava sempre ao lado da cama, sintonizado nas rádios FM aqui de casa, naqueles programas de fim de noite, tipo “Love Story”, “Momentos de Amor” e similares. Não que eu fosse uma menina romântica (na verdade, nunca fui – minha Lua em Aquário e minha Vênus em Gêmeos sempre me impediram), mas eu adorava aquelas músicas antigas que tocavam. Marvin Gaye, Lionel Richie, Brian McKnight. Seal, Boyz II Men, Bobby Brown, Rick James, Smokey Robinson, Jermaine Jackson, Rick Astley, Gregory Abbott, e a lista segue. Os clássicos dos anos 80 e 90 se misturavam na minha memória antes de dormir e acabaram me educando musicalmente, o que ajudou alguns anos depois quando decidi ter um blog sobre música. E especialmente quando não é só você que aparentemente tem essa relação próxima com esse R&B gostosinho daquela época.

As influências do Bruno Mars vão além do doo-wop, reggae, The Police e o Michael Jackson. O havaiano tem uma relação muito profunda com o R&B que era feito nos anos 90 – ele já declarou amor pela sonoridade da época algumas vezes, e a ideia de “24k Magic”, o terceiro álbum na curta discografia do moço, é homenagear essa época, cantores e grupos como Jodeci, Boyz II Man, Jagged Edge e todos os nomes do R&B que faziam babymaking songs; mas é claro, com o flavor atual que só o Bruno sabe fazer. Por cortar a “linha de influência” para um período muito específico – o final dos anos 80 até os anos 90 – o CD não é exatamente instantâneo como as outras incursões dele (se você perceber, é como se ele estivesse fazendo um estudo musical do pop com a própria discografia: o pop inocente com ecos de doo-wop e rock dos anos 50/60 com o retropop do “Doo-Wops & Hooligans”; e a vibração dos anos 70 e começo dos 80, com pop, reggae, rock, disco e uma slowjam de respeito como “Gorilla” no “Unorthodox Jukebox”), por ser bem mais R&B que todos os álbuns anteriores – e mesmo alguns acusando o lead single de ser parecido com singles do passado, o CD numa linha geral não se parece com nada dos anteriores – e nem com nada que tá tocando nas rádios.

Não é instantâneo. Mas é uma viagem daquelas (que dura pouco mais de MEIA HORA e tem NOVE FAIXAS. Tenha dó, Bruno!). Confira o track-by-track após o pulo: Continuar lendo

Começando a lapidar o diamante – Shawn Mendes, “Illuminate”

shawn-mendes-illuminate-cover-cdEu me lembro vagamente da primeira vez que ouvi falar em Shawn Mendes. Tinha sido num desses tópicos de iTunes da vida, em que todo mundo falava sobre um “menino que tinha conta no Vine” e conseguiu chegar em #1 porque, evidentemente, tinha uma porrada de fãs fiéis que o seguiam para onde fosse (foi mais ou menos assim que fui introduzida a Ariana Grande, com a diferença de que ela era uma estrela de uma série da Nickelodeon que nunca vi na vida). A música em questão, “Life of The Party”, conseguiu chegar à #24 colocação na Billboard, fazendo do menino a pessoa mais nova a estrear no top 25 com o debut single (exatamente 15 anos, 11 meses e 4 dias. Eu com essa idade estava fazendo vários nadas no Orkut).

Para quem imaginava que era mais um adolescente pimpado pelos fãs que lança uma música e some do espectro, o jovem canadense mostrou um talento a ser lapidado com o debut album “Handwritten”, que contou com o primeiro hit de fato do Shawn, “Stitches”, que chegou à quarta posição na Billboard Hot 100. Diferentemente de outros teen male acts, como o conterrâneo Bieber e o que mal chegou a acontecer, Austin Mahone, que sempre tiveram uma pegada pop com influência urban (mesmo que o Justin atualmente tenha lançado mais faixas puxadas pro eletro e o tropical house), Mendes segue uma outra vibe – a do singer/songwriter com guitarra na mão, um John Mayer teen, mas que como posicionamento de mercado, é uma jogada de mestre – enquanto um Bieber só agora vem descolando sua imagem de artista adolescente (com certa dificuldade pela própria personalidade spoiled brat do moço), a sonoridade do Shawn Mendes tem muito mais apelo para um público além dos adolescentes que o conheciam desde os tempos do Vine. Pessoas adultas, quem está fora do público-alvo, podem consumir o material dele sem se sentir “envergonhados” em ouvir músicas de um moleque de 18 anos.

Que lançou um novo álbum nesta sexta-feira, “Illuminate“, já em todos os serviços de streaming perto de você, e infinitamente melhor que o primeiro CD. Faixas acústicas, um pop orgânico agradável de se ouvir e outras influências meio bluesy que ajudam a compor um álbum fascinante, ainda que simples em suas letras, de um menino que ainda tem muita lenha pra queimar.

Saiba mais no track-by-track da versão standard:

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Dê uma segunda chance ao Nick Jonas em “Last Year Was Complicated”

Cover CD Nick Jonas Last Year Was ComplicatedUma das histórias de “morte e substituição” mais bem sucedidas da música pop foi Nick Jonas. O moço do anel de pureza e músicas inofensivas com os irmãos se tornou um habilidoso cantor solo, fazendo um R&B respeitável no primeiro CD solo (descontando o “Nicholas Jonas”) e arrancando suspiros com photoshoots sensuais e sem camisa. É óbvio que depois da boa recepção ao selftitled , o que se esperava era um trabalho igualmente coeso, bem trabalhando e mantendo aquela ambientação sexy e misteriosa do “Nick Jonas”.

“Close”, o lead single do novo álbum, “Last Year Was Complicated”, era mais pop que R&B, e contou com uma química intensa com a sueca Tove Lo. Mas o resto do CD segue com a pegada R&B do álbum anterior, só que com aquela pegada menos “pura” e mais mistura urban e pop, lembrando claramente a sonoridade dos anos 2000. No entanto, não é um amor à primeira vista.

Entenda o porquê no track-by-track!

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Encontrando um caminho próprio – Fifth Harmony, “7/27”

Fifth_Harmony_-_7-27_(Official_Album_Cover)Vida de girlband que se lança num reality show e assina com uma gravadora horrenda como a Epic não é fácil. As meninas do Fifth Harmony entraram como acts solo na segunda temporada do The X-Factor e foram unidas como um grupo por Simon Cowell e Demi Lovato na fase do bootcamp. Fazer com que cinco meninas de backgrounds diferentes, vozes distintas e vontades idem se juntassem e tivessem uma identidade é uma ideia difícil, mas funcionou – afinal de contas, além de talentosas e carismáticas, Ally, Normani, Dinah, Camila e Lauren ainda representam meninas de várias origens e raças, provando que a representatividade importa e muito.

No primeiro álbum de estúdio das moças, “Reflection” (que seguiu o EP “Better Together”), as moças ainda não tinham chegado ao ponto de maturação – ou seja, a identidade musical refletida (sem trocadilhos) nas faixas. Elas ainda meio que procuravam um som próprio (e acabam atirando em várias direções). O sucesso de fato só chegou com o terceiro single, “Worth It”, um sucesso estrondoso que conquistou não apenas a fã-base adolescente das meninas, como também ouvintes casuais de música pop.

Com “7/27”, o novo álbum (o nome é baseado no dia em que o grupo foi formado no “X-Factor”, 27 de julho), o Fifth Harmony apresenta um forte coletivo de músicas que tem uma boa coesão (o pop/R&B com uma forte pegada urban e inspiração na sonoridade tropical pop que é a trend atual), agradam aos ouvidos com uma divisão equilibrada de vozes, e principalmente, você vê a identidade e personalidade das meninas em cada faixa, sem perder a visão de mercado.

Entenda o porquê na track-by-track após o pulo!

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