Vencedores e perdedores de 2017 [primeiro semestre]

O ano de 2017 chegou à metade e sempre é bom ver, em retrospecto, as coisas que deram certo ou não dentro do pop – especialmente quando estamos num dos anos mais curiosos dentro do mainstream: com a ascensão quase dominante dos streams como determinante para o sucesso de uma faixa (ou de um estilo), muitos artistas e gêneros estão padecendo para se inserir numa nova cultura de consumo – e atingir o público que lá está, enquanto outros conseguiram o segredo para um hit, um viral, e execuções certeiras no Spotify.

Ao mesmo tempo em que veteranos e novatos lutam para entender e se adequarem à nova ordem da indústria, podemos dizer que a “guerra dos sexos” dentro do mundo pop hoje está com os homens ganhando de goleada. Eles estão com os álbuns mais bem recebidos, singles de sucesso e parcerias que deram certo – além dos gêneros que dominam as rádios e streams atualmente serem justamente aqueles onde os male acts dominam. E o pop, que durante toda a primeira metade da década foi uma festa feminina, hoje se tornou um clube do Bolinha.

Pensando nestes encontros e desencontros é que eu trago uma lista de vencedores e perdedores no pop de 2017, cobrindo o primeiro semestre. Lá no final do ano, eu retomo essa mesma lista com os destaques do ano em geral, e perspectivas para 2018. Por isso, coloque os headphones, aperte play na “Today’s Top Hits” do Spotify e continue lendo!

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You’re not going to happen! Por que o jump de compositor para artista famoso é tão difícil

Você já deve conhecer a história – compositor escreve músicas para outros artistas enquanto espera a hora dele ou dela aparecer na frente do palco. Às vezes, o songwriter em questão precisa apenas de um featuring ou uma faixa viral pra ficar na boca do povo e instigar a gravadora a lançar um trabalho solo. Outras vezes, é só a progressão natural da carreira – você entra como cantor, mas precisa melhorar suas habilidades e passa a compor para os outros – até o momento em que está pronto para fazer sucesso com o próprio nome.

Só que nem sempre essa progressão natural acontece – pelo contrário: muita gente rala horrores pra deixar o anonimato da composição e chegar no topo do sucesso como artista principal, mas não dá certo e o topo fica bem distante. Os motivos são inúmeros, e os exemplos de como às vezes essa transição não se converte em sucesso ou reconhecimento são vários. Esse é o tema do novo vídeo lá do canal Duas Tintas de Música no Youtube, usando três exemplos bem interessantes pra ilustrar as dificuldades desse jump. É só dar play (e não se esqueça de se inscrever no nosso canal!)

 

Lançamentos da semana: do pior para o melhor

Essa quinta-e-sexta-feira teve uma quantidade tão grande de lançamentos pop que a gente tem até que respirar em pensar quais são as músicas e que artistas lançaram alguma coisa. Mas eu decidi juntar tudo num post só, com o velho combo de singles, só que com um diferencial: do pior material lançado até a melhor música divulgada neste fim de semana.

Esse é o meu top 4, veremos se será parecido com o de vocês 😉

4. “Switch”, Iggy Azalea feat. Anitta

Um dia a Iggy foi uma rapper ascendente com um som bacana, e que prometia ser a grande revelação na cena, a julgar pelas antigas mixtapes. O “The New Classic”, primeiro CD, foi aquele rap para neófitos, mais pop que qualquer outra coisa, que apesar do sucesso, não se converteu depois numa segunda era bem sucedida – pelo contrário, depois daquele CD, a queda da australiana foi uma das coisas mais rápidas e frenéticas já vista na popsfera.

Atualmente a mulher ainda está tentando lançar alguma coisa para o segundo CD, “Digital Distortion”, e até agora o que eu tenho consciência que foi single mesmo foi “Team“, que teve uma certa divulgação e algum buzz. O resto foi lançado daquele jeito, e nada foi tão interessante. Pra completar, todo single que a Iggy vinha apresentando parecia sem sal, sem apelo; e pior – agora com “Switch”, sem personalidade alguma.

Esse ritmo tropical já cansado, essa música batida, a Iggy cantando por cima do featuring … Aliás, Anitta foi desperdiçadíssima na faixa: parece uma backing vocal qualquer e o vocal ficou abafado por tanta camada e efeito que eu só percebi que era ela mesmo porque o timbre, mesmo em inglês (um bom inglês até), se sobressaiu. Mas sinceramente, se colocassem a Iggy com autotune no lugar não fazia diferença alguma.

Para a brasileira, o featuring valeu a pena para apresentá-la ao mercado americano de uma forma mais “oficial” (mesmo que o nome dela já esteja rodando aqui e ali, em matérias da Billboard e interações com artistas no twitter e no instagram), mas pra Iggy Azalea, é mais uma oportunidade desperdiçada numa música que é bem ruinzinha e esquecível.

(curiosamente, a parte mais marcante pra mim foi o pré-refrão da Anitta. A única coisa que tá na minha cabeça até agora de “Switch”)

nota: ⭐⭐ de ⭐⭐⭐⭐⭐

 

3. “Crying on the Cheap Thrills of You”, Camila Cabello

Quando você sai em carreira solo de uma boyband/girlband, onde geralmente as canções eram bem polidas e produzidas para gerar uma sonoridade generalista (pra não dizer outra palavra) e puxada para o público jovem, o que se espera é que o artista em questão mostre o motivo pelo qual ele ou ela se sentiu pronto/a para dar o jump e mostrar “identidade musical”. O Zayn, com o “Mind of Mine”, fez isso – quem imaginava que o menino do One Direction lançaria aquele petardo de álbum alt-R&B todo moody e misterioso?

Pois bem, depois de ver o vídeo de “Crying on the Club”, da Camila Cabello, duas coisas ficaram na minha mente. Uma é: alguém cancela a Sia, porque essa música é mais um derivado da fórmula “Cheap Thrills”/”The Greatest”, e pior, a faixa me lembra “Shape of You”, ou seja, música mais genérica não há! Pra piorar a situação, o delivery vocal da Camila tá muito parecido com o da Rihanna (como todas as últimas 1500 pop starlets tentam fazer – e a Pitchfork pontuou muito bem recentemente). Zero personalidade numa música que mesmo grudenta, é bem safe, bem “o que tá tocando por aí.

Aí a cidadã me lança um clipe (chatérrimo, aliás), onde a intro é com uma midtempo pop mega dramática, com um letrão daqueles, os vocais impecáveis; pra combar com “Cheap Thrills parte 3”. Quem é a gravadora da Cabello, minha gente, que não colocou “I Have Questions” de lead? Isso seria um tapa na cara maravilhoso de quem acha que a menina não tem identidade musical!

(btw, a melhor coisa de “Crying on the Shape of the Club” é o sample de “Genie on the Bottle” haha)

nota: ⭐⭐⭐ de ⭐⭐⭐⭐⭐

 

3. “Swish Swish”, Katy Perry feat. Nicki Minaj

Primeiramente, mais uma música da Katy que não aconteceu, né? Eu tô impressionada com a era dela, porque nada deu certo – até mesmo o vídeo de “Bon Appétit”, que fez um barulho nas redes sociais, não ajudou no desempenho da faixa nos charts. Daqui a pouco a mulher lança o álbum e a gente só vai ouvir a imprensa caindo em cima e o público realmente desinteressado na Katy.

(ou seja, ela nunca conseguiu firmar uma base de fãs que a seguem aonde vai, a fã-base sólida e fiel que outras colegas tem aos montes, como a Lady Gaga, por exemplo)

Pois bem, “Swish Swish” é o single promocional do “Witness”, o novo álbum da californiana (que tem essa capa bem “teoria da conspiração”), e deve ser sobre a Taylor Swift né, só pra confirmar… Mas enfim, a faixa passa longe do “pop com propósito” ou daquele treco inominável que era “Bon Appétit”: é um dance-pop que lembrou uma versão mais pesada de “Walking On Air” (que a KATY NÃO LANÇOU COMO SINGLE NA ERA PRISM, desperdício!), uma letra debochada que rememora a velha Katy de “One of The Boys” e que tem um clima menos infantil que boa parte dos singles da moça desde “Teenage Dream”. É um pop adulto, divertido, despretensioso, com uma letra fácil e cheia de shades e um bom momento da Nicki Minaj, que como rapper anda tendo um ano criativamente tenso (aquela resposta à diss da Remy Ma foi ridícula…).

Infelizmente, apesar de crescer na gente igual bolo no forno, “Swish Swish” não chega perto daquele soco no estômago de outros singles da Katy Perry – sabe, aquela sensação de OMG QUE HINO de quando a gente ouvia “Teenage Dream”, “Hot ‘n Cold” e “Dark Horse”? Tá faltando aqui e nas outras faixas que ela trouxe nessa era. E o pior é que as músicas dessa nova era poderiam ser melhor trabalhadas, ou até retrabalhada com ganchos menores, mas o resultado final infelizmente é muito aquém do que a Katy poderia oferecer como uma das maiores hitmakers da década.

nota: ⭐⭐⭐/5 de ⭐⭐⭐⭐⭐

1. “Bad Liar”, Selena Gomez

Quando a gente fala de evolução dos artistas, não é apenas evolução de imagem (mais edgy, mais madura, ou conceitual); dizemos também sobre a evolução do som deles.

Neste momento, não dá pra pensar na Selena Gomez como aquela cantora fofa do pop adolescente da banda “Selena Gomez & The Scene como a mesma pessoa que canta “Bad Liar”, lead single do seu segundo álbum solo. “Bad Liar” é um pop fresco, diferente de tudo que tá tocando por aí. É uma música única por não ser tropical house, urban, EDM, ou um derivado da Sia.

A faixa, escrita por Selena junto com os hitmakers do momento Julia Michaels e Justin Tranter, usa de forma inteligente o sample de “Psycho Killer” do Talking Heads pra criar uma história de amor meio confusa entre Selena e o boy, com estrutura meio sincopada, alguns trechos falados, gemidos bem colocados, o refrão mais grudento do primeiro semestre e uma interpretação impecável da Selena. O que é essa menina hoje, que puta intérprete! É uma artista que conhece suas limitações, sabe trabalhar com elas e o que fazer com a própria voz.

O resultado é um dos melhores singles pop do ano, que recebeu praise da Pitchfork com uma “Best New Track” e a bênção do David Byrne, vocalista e guitarrista do Talking Heads e um dos artistas mais cultuados da indústria.”Bad Liar” mostrou uma evolução grande e surpreendente (a Interscope confia mesmo na Selena, porque a música tem risco, mesmo sendo extremamente pop), e me fez ficar ainda mais curiosa com o que  ela vai oferecer na sua segunda empreitada solo.

(agora, é fato que a Selena capturou o delivery vocal TODINHO da Julia Michaels no começo da faixa né haha)

⭐⭐⭐⭐⭐ de ⭐⭐⭐⭐⭐

Bonus track: “Strip That Down” (Liam Payne feat. Quavo)

Né… Enfim…

Zayn, Niall e Harry possuem vozes distintas e marcantes no ouvido do público comum, na hora de divulgar o material solo… Porque o Liam é lindo, mas tem o vocal tão marcante quanto um boi pastando.

Pra piorar, parece alguma coisa que o Justin Timberlake rejeitou e foi passada pelo Nick Jonas, que nem quis gravar; e ficou dentro do guarda-roupa do Justin Bieber. Que horror.

 

E você,  o que achou dos lançamentos da semana? Concorda com a ordem que eu listei aqui ou preferia outra música nas primeiras posições?

Design de um top 10 [35] Amém, Kendrick

Não sei se vocês estão sabendo, mas KENDRICK LAMAR CONSEGUIU O #1 COM HUMBLE, destronando finalmente “Shape Of You” do #1, onde ficou tantas semanas que eu já esqueci o número. Lambs felizes, fãs do K-Dot e todo mundo que gosta de boa música pulando de alegria e evidentemente o chart deu uma bela (e boa) bagunçada com a entrada das faixas de “DAMN.” no Hot 100 – merecidíssimo, porque o álbum é monstruoso (sim, vou resenhá-lo aqui, Kendrick merece, conseguiu fazer um álbum comercial e incrível, sem perder o prumo), e já está bombando nos streams (que ajudaram o K-Dot a chegar neste momento).

Este momento do mês é o que marca a transição para os singles do verão: teoricamente, vão aos poucos saindo as midtempos e as faixas mais lentinhas do chart para os pancadões uptempo e as promessas de hit da estação. Mas, a julgar pela dominação urban em 2016-17, não duvido nada de que os hits este ano sejam algum rap que vai viralizar, um batidão urban pra fazer todos dançarem nas festas; e algum DJ vai lançar um hit farofa. É o que a música pop vem apresentando ultimamente – essa divisão entre rap, urban e EDM mais “orgânico” a la Chainsmokers é o que está mandando nos charts, e não parece sumir tão cedo (ao contrário do tropical house, que já está decaindo).

(ou sei lá, será que é hora de uma nova explosão latina? TRUMP CHORA)

Hora de ver o que aconteceu nesta semana, em que finalmente uma mulher voltou a figurar no top 10 do Hot 100.

Top 10 Billboard Hot 100 (06.05.2017)

#1 Humble  – Kendrick Lamar

#2 Shape Of You – Ed Sheeran

#3 That’s What I Like  – Bruno Mars

#4 DNA – Kendrick Lamar

#5 Mask Off  – Future

#6 ISpy – Kyle feat. Lil Yachty

#7 Stay – Zedd feat. Alessia Cara

#8 Something Just Like This – The Chainsmokers feat. Coldplay

#9 Despacito – Luis Fonsi & Daddy Yankee feat. Justin Bieber

#10 XO TOUR Llif3 – Lil Uzi Vert

 

Humble” é o segundo #1 do Kendrick Lamar, primeiro solo (o outro foi o remix da infame “Bad Blood” de famigerada história), que teve seu pulo de #3 para #1 impulsionadíssimo pelos streamings. A faixa está em primeiro lugar no chart específico há três semanas e só faz bater recordes. Ainda no top 10 do Digital Charts e crescendo nas rádios, a faixa ainda tem MUITO a crescer e render. Não é apenas um hit, é um baita viral e uma música impressionante que mostra, além do flow impecável do Kendrick, como ele sabe fazer sim hits sem perder a essência (ou seja, chega de featurings bizarros como “The Greatest” e “Don’t Wanna Know”).

Aliás, o cidadão colocou todas as músicas do “DAMN.” no Hot 100, e “.”, uma celebração à cultura negra, estreou na quarta posição do Hot 100. Amém, Streams; amém Kendrick!

 

Enquanto isso, uma mulher está de volta ao top 10 do Hot 100 – Alessia Cara, como featuring da faixa “Stay“, do DJ Zedd. Foi um retorno para os dois artistas às faixas mais consumidas na semana. A última visita do rapaz foi com “Break Free” da Ariana no já distante 2014; enquanto Alessia tinha curtido o gostinho do top 10 com “Scars to Your Beautiful”, ano passado. Uma volta merecida – a música é bem solar, fresh, bem amor adolescente (que combina com a voz juvenil da Alessia), apesar da batida parecer com toda essa pegada “orgânica” Chainsmokers, ao contrário das farofas yoki que o próprio Zedd apresentou antes (que já estavam datadíssimas, aliás).

Com bom desempenho nos charts dance, o fato é que a música ainda pode render mais e pelo menos chegar bem ao verão. É a cara do fim de tarde, quando termina o passeio na praia e a turma tá indecisa se volta pra casa ou estende a saída pela noite.

 

E esse hit, viral e tendência maravilhoso que é “Despacito“? A música do Luis Fonsi com o Daddy Yankee (que conseguiram o primeiro top 10 no Hot 100, corre que é histórico!) já tinha explodido nas rádios latinas, e fazia uma transição bacana para o crossover pop (lembrando que é uma faixa totalmente em espanhol), quando saiu na semana passada um remix com o Justin Bieber (cantando em espanhol) e a música deu um boom absurdo. Eu não queria admitir, mas que a inclusão do Bieber ajudou muito pra “Despacito” chegar à nona posição na Billboard subindo 39 posições (!), mas a faixa voltou para os charts digitais, cresceu nos streamings e deu um boost no chart de rádio ❤ lembrando que a versão que chegou ao top 10 é a remix porque os números foram responsáveis por mais da metade dos pontos da faixa no top 10.

Aliás, este é um momento histórico para a música latina – a última vez em que uma música toda cantada em espanhol chegou ao top 10 do Hot 100 foi com… Com…? Ricky Martin? Enrique Iglesias? J-Lo? 

ELES MESMOS – A MACARENA. Isso, há 21 anos atrás, direto do túnel do tempo. Só que Macarena chegou às 14 semanas em primeiro lugar nas paradas (socorro). Será que “Despacito” tem lenha pra queimar?

Por falar em “Despacito”, hora de deixar aqui a música para que vocês contribuam com mais pontos para a próxima semana 😉

 

Por que “Chained to the Rhythm” não aconteceu?

“Mas Marina”, você deve estar questionando, “a música tá no top 5 do iTunes, ainda tem lenha pra queimar”… 

Antes de mais nada, esse post tem mais perguntas que respostas, e que vocês podem ir questionando e lançando suas teorias aos poucos. Na verdade, eu até tenho umas hipóteses sobre o desempenho apagado do first single do novo álbum da Katy Perry (ainda sem nome), “Chained to The Rhythm”, uma faixa que aparentemente representaria um novo momento na carreira da californiana – um pop além do som comercial e criticado por soar infantil; um pop com “propósito”, mais “politizado”.

Mas no fim, minhas hipóteses são puramente chutologia. Hora de entender o que aparentemente deu errado, quais foram as razões, e se ainda há alguma chance para Katy.

O último CD da Katy foi lançado em 2013, “PRISM”. De lá pra cá, dois singles #1, alguns top 10, uma turnê bem sucedida e um Halftime Show bem recebido depois, a moça deu uma bela sumida, aparecendo apenas no ano passado, no período da Olimpíada, para lançar o single olímpico para as transmissões da NBC, “Rise”. Inicialmente, seria apenas mais uma música para divulgar os Jogos do Rio (SDDS Olimpíadas), mas aparentemente, a Capitol tratou como um lançamento sério, com direito a exclusividade na Apple Music (o que no fim afetou o desempenho da faixa no Spotify, e por consequência, nos streamings em geral), assim como uma apresentação bem bacana na Convenção Democrata pra escolha da Hillary Clinton como candidata à presidência dos EUA. Além disso, “Rise” ainda contou com um vídeo bem produzido (além do clipe feito pela BBC com momentos de atletas de competições passadas), ou seja, para muitos, foi tratado como um single.

E muita gente acreditou que “Rise” era um “balão de ensaio” da gravadora pra ver como a Katy se sairia com um single mais grandiloquente e menos óbvio.

No entanto, se a Katy tivesse deixado a faixa viver a vidinha dela sendo só “Olympic Anthem”, okay. Mas creio que “Rise” matou muito do buzz da californiana para o verdadeiro comeback. Uma música que ninguém entendeu direito se poderia ser tratado como single ou apenas uma música olímpica, e que acabou tirando aquele caráter de “surpresa” que uma volta da Katy proporcionaria.

Mas… E se a Katy não tivesse lançado “Rise”? Se ela tivesse lançado o comeback single em 2016, tempo suficiente para manter o buzz e não ser esquecida? Olha quantas coisas aconteceram, olha a leva de pop acts chegando (Zara, Dua Lipa, Anne Marie, a Camila Cabello, Alessia Cara). Porque você sabe, a Katy não é uma artista de massa – ela depende de uma fã-base, fã-base essa sempre jovem e adolescente. Com uma demora nos lançamentos, ela perde terreno para acts mais jovens e fresh no pop (a lista tá lá em cima); e você sabe, adolescentes um dia crescem. Nem pra fazer um featuring nesse meio tempo pro pessoal ainda lembrar a existência.

O caso em comparação aqui para entender o erro da Katy em relação ao timing (e que vou repetir algumas vezes na discussão) é o do Bruno Mars – outro hitmaker que demorou para fazer o comeback (quatro anos, pense bem). Só que 1. o homem apareceu em todo canto quando “sumiu” (“Uptown Funk” OI, aquele Halftime dele e da Beyoncé), então ele não estava necessariamente desaparecido numa caverna; 2. o principal: a fã-base é diferente. Por mais que não seja um grande vendedor de discos na primeira semana, os CDs estabilizam muito as vendas e os dois primeiros CDs do Bruno tem grande vendagem no fim das contas. O homem é artista do povão – ele atinge de criança a velho, todos os gêneros e raças. A Katy precisa do público jovem, e os jovens são volúveis. Se demorar muito, eles te esquecem.

 

Primeiro single de um comeback esperado? Tem que fazer a rota das rádios, especialmente quando o single não é fácil – logo vou explicar a razão. Tem que fazer pelo menos um talk show, cantar na Ellen, no Jimmy Fallon, na final do The Voice. Eu sei que as A-Lists estão largando de mão a divulgação, mas a Katy sempre foi uma artista que divulgou, sempre deu sangue pelas músicas, especialmente pelo material ser extremamente comercial. Pior que a Katy não é uma grande performer, então com divulgações muito esparsas (Grammy e iHeart Radio Awards, nos EUA; e o BRIT Awards na Inglaterra), fica difícil a música acontecer também. A cada performance, a faixa pelo menos ficaria na cabeça das pessoas e dava pra sugar até virar bagaço. Mas pior – a cada performance, a qualidade vocal da Katy piorou e muito.

(curiosamente, a Capitol fez um acordo com o Spotify onde a faixa seria tocada em várias playlists do serviço. Até ajudou num desempenho aceitável nos streams, não o suficiente pra dizer “QUE HIT!!!”. É como o famoso jabá das rádios – o dinheirinho inicial dá o empurrão, mas se a música não cair no gosto do povo, não tem deal com as rádios que dê jeito.)

Se ela promovesse mais, poderia melhorar até o jeito que ela canta “Chained to the Rhythm” e trazer novas versões (acústico, ou versão rock) que se adequassem mais à Katy. Não sei, a impressão é de que – ou confiaram demais no potencial hitmaker dela, ou escolheram ocasiões específicas esperando que resolvesse a situação. Mas a Katy é artista pra vencer pelo cansaço, não é do tipo que vende com performance. Lady Gaga vende com performance, (ele de novo) Bruno Mars vende com performance; até o Ed Sheeran sedento pelo #1 tá aprendendo a ser promo-sensivity.

(pra não dizer que não teve presença, e aquele viral FAIL das bolas espelhadas?)

 

Eu gosto de “Chained to the Rhythm”. A música tem uma ironia fina escondida por uma faixa upbeat, só que menos uptempo que outras coisas lançadas pela Katy. O featuring do Skip Marley é uma presença válida e relevante num mundo de feats desnecessários – especialmente porque ele traz força e reiteração da mensagem através ds versos da Katy – mas sinceramente, CTTR não tem a mesma força de uma “I Kissed a Girl”, “California Gurls” ou mesmo “Roar”, super derivativa. A faixa não inspira muita confiança – você não sabe pra que serve a música: se é música pra inverno, faixa pro verão, música de festa, ou faixa viral pra render streaming. A única coisa que deu certo foi a lyric dos ratinhos; porque nem o clipe cheio de easter eggs viralizou pra incentivar o pessoal a repetir as views.

“Chained to the Rhythm” é anticlimática, tem cara de fim de festa. O top 10 foi até bom pra música. E talvez as pessoas tenham percebido, o público não é bobo.

A gente volta a falar do fato da demora dela, como representante desse pop mais comercial, leve e despreocupado, ter afetado a carreira da Katy a um longo prazo. Como eu disse, já tem muita novata, fresh e jovem, fazendo um som carefree que é representativo da Katy – e nisso entra o horroroso componente do ageism, já que a Katy tem 32 anos, perto dos 33, e a cada ano em que as acts femininas ficam mais velhas, menos elas tocam na rádio (já contei sobre isso outra vez aqui). Para as rádios, se tem acts mais novas fazendo um som comercial, porque ouvir Katy Perry, que voltou com uma música aparentemente “sem graça” e “politizada”?

Pra completar, com esse distanciamento da Katy, sem promoções e exposição massiva da figura, nem parece que uma das maiores hitmakers dos últimos anos voltou. Agora, com as promos no iTunes e uma ação da Capitol, eles estão tentando dar uma chance de sobrevivência à música, que está caindo igual a fruta madura no Hot 100. Eu não sei se continuaria insistindo numa música que não aconteceu – mas ao mesmo tempo, ela poderia cair na “24k Magic Situation” – (ele de novo) Bruno Mars performou essa música tanto, mas tanto, mas tanto, que as performances ajudaram a faixa a se manter no top 10 da Billboard. Sugou até o osso e depois saiu feliz para o segundo single, mais fácil de trabalhar, e com mais potencial viral.

Mas, novamente: Katy não é uma grande performer, e não é uma artista de massa. Apenas se ela tivesse performando, divulgando e sendo capa de revistas (cadê o SNL?), CTTR poderia conseguir essa “sorte” do colega hitmaker havaiano.


Tempo de lançamento demorado aka sumiço longo? Falta de exposição e divulgação maciça? Música que não “pega”, não “gruda”? Saturação da artista? O que você acha que está relacionado a “Chained to the Rhythm” não ter “acontecido”?

Não tô chamando de flop, estou chamando de uma música que “não pegou”, um primeiro single de desempenho apagado que poderia ser melhor, julgando pelo nome envolvido… Ou foi flop?

So many questions… Qual a sua teoria?

(aproveite e veja o clipe da música que Katy tá precisando)

Pop baunilha – Ed Sheeran – ÷

Nas últimas semanas, vocês já devem ter tido acesso à célebre resenha do novo álbum do Ed Sheeran, “÷” (lê-se “divide“), feita pela conceituada Pitchfork (spoiler: a publicação deu 2.8 ao CD, menos que o pavoroso “Nine Track Mind”, do Charlie Puth). Mas será que o novo álbum do ruivo é tão ruim assim?

Antes da resenha, é importante dizer que durante a divulgação do álbum, Ed deu algumas declarações no mínimo estranhas para um pop act – como dizer que “abaixo de Adele, só ele vendeu discos” e que “agora tem vários cantores-compositores e que eu estou muito feliz por todo mundo, mesmo que eles copiem tudo que eu tenho feito” (foi mais ou menos isso que ele disse, como se Ed Sheeran fosse o rei da originalidade). Pois bem, pra quem se arvorou o criador do WGWG (Bob Dylan foi uma alucinação coletiva,  I guees), o material do moço é bem aquém. Especialmente o “÷“, que é até um improvement em relação ao snoozefest que era o Multiply (que dor ouvir aquele CD que foi indicado ao Grammy!!!!), mas não tem nada de diferente, curioso ou groundbreaking em relação a outros male acts e parece um pop baunilha, pronto pra consumo nas rádios, tocar na novela e ganhar “respeito” do Grammy que vai indicar esse CD a qualquer coisa porque é puro middle-of-the-road.

Pois bem, dá pra ver que eu não gostei do CD né. Bora pro track-by-track:

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Design de um top 10 [34] O que aconteceu? Estava lavando o cabelo em Estocolmo

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Literalmente, se assim posso dizer.

Pois é, após uma viagem a temperaturas entre -1° e 3° (e finalmente conhecer a neve), não sem antes tweetar sobre o Grammy (e todo aquele final anticlimático em Album of the Year), hora de recuperar o tempo perdido e começar de fato 2017 – porque o ano sempre começa após o Grammy – com a situação dos charts neste início de ano, onde já podemos colocar Ed Sheeran com o primeiro grande hit pop do ano, entre os A-Lists. Afinal de contas, o ruivo conquistou a plataforma do futuro presente: os streamings.

Com sete semanas não consecutivas em #1, é o óbvio primeiro sucesso de 2016; mas temos outra turma de artistas classe A por aqui que com certeza vão dar muito trabalho em 2017 – além dos sucessos via stream com os quais vocês precisam se acostumar. Bem-vindo à nova era!

Top 10 Billboard Hot 100 (11.03.2017)

#1 Shape Of You – Ed Sheeran

#2 Bad and Boujee – Migos featuring Lil Uzi Vert

#3 I Don’t Wanna Live Forever – Zayn & Taylor Swift

#4 That’s What I Like – Bruno Mars

#5 Closer – The Chainsmokers feat. Halsey

#6 Paris – The Chainsmokers

#7 Love On The Brain – Rihanna

#8 Chained to the Rhythm – Katy Perry feat. Skip Marley

#9 Bounce Back – Big Sean

#10 Bad Things – Machine Gun Kelly x Camila Cabello

 

ed-sheeran-shape-of-youShape of You“, o outro lado do single duplo do novo álbum do Ed Sheeran, “÷” (que pronuncia-se divide), está estourado, em #1 no iTunes, destruindo nos streams (onde o Ed é poderosíssimo desde o “X”) e vem sendo muito bem recebido nas rádios, onde está em #1 no Pop Airplay, Adult Pop Songs e evidentemente na Radio Songs. A música, que também pode ser conhecida como “Cheap Thrills parte 2”, é super catchy e tem cara de sucesso, e a julgar pelo desempenho da música, será um ótimo lead para um terceiro CD extremamente bem sucedido em 2017. Será que o ruivo será o grande nome do pop neste ano?

Enquanto isso, o outro single do Ed, “Castle on the Hill”, peakou na estreia em #6 e neste momento está na 66ª posição. Uma pena, porque a música é cativante e bem melhor do que “Cheap Thrills parte 2”.

 

Se o britânico domina todas as plataformas de música neste começo de ano, os streamings estão como os principais migos-bad-and-boujee-gifresponsáveis pela subida de “Bad and Boujee“, do grupo de hip hop Migos, com featuring de Lil Uzi Vert. A música, que subiu feito um furacão viral e ficou em #1 no Hot 100 da Billboard por três semanas não-consecutivas. Como você sabe, quando a faixa é viral, o consumo é rápido, mas quando os streamings abraçam de verdade, não tem iTunes que venha de encontro. “Bad and Boujee” está em primeiro nos charts de stream há NOVE semanas, mas tem desempenhos moderados nas rádios e no digital, neste momento. Mesmo assim, é lider nos charts de hip hop, o que ajuda a manter a faixa nas primeiras posições do chart. O retorno à segunda posição só reforça isso.

Não é a minha faixa favorita do mundo e tampouco faz o meu gênero, mas é sempre bacana ver uma faixa de rap menos pop e mais “raiz” fazendo sucesso, sem fazer concessão a algum featuring pop ou pandering pra um público crossover. É original na sua pegada mais tradicional, e segue novamente a tendência de hits massivos nessa linha mais noventista, mais seca, do rap, como “Trap Queen” e “Panda”.

 

bm-24k-3Crossover, curiosamente, é o sucesso de “That’s What I Like”, do Bruno Mars. Amparado por uma excepcional performance no Grammy e subidas cada vez mais consistentes nos charts, a faixa chegou à quarta posição no Hot 100 e ainda nem tem vídeo! Digo “crossover” porque, apesar da música ter a mesma pegada R&B de todo o material do terceiro CD do havaiano, tem um apelo mais pop que outras músicas do curtíssimo álbum, e consegue atingir a todos os públicos – do mais R&B, que abraçou mesmo o material – tanto que no chart do estilo, está há duas semanas em #1 (primeiro topo do Bruno no gênero) – ao público pop que sempre esteve com ele desde o primeiro álbum. “That’s What I Like” só faz crescer nos charts, e tem chances fortes de ser o primeiro #1 da era – basta um bom clipe e uma divulgação on point, já que o Bruno é altamente sensível à promo: ou seja, o público o consome de uma forma diferente: não são fãs die-hard, são consumidores casuas que ouvem, gostam do material e compram/ouvem/pedem na rádio.  Meio artista à moda antiga.

Aliás, a música é a décima-terceira do moço a chegar ao top 5 na década, empatando com a Rihanna. Selo hitmaker comprovado.

 

E se vocês pensaram que a banda Closer, quer dizer, The Chainsmokers, sumiria após o sucesso estrondoso do hino the-chainsmokers-gifdo fim do verão, enganam-se! O duo EDM lançou “Paris” e a faixa chegou à sexta posição na Billboard Hot 100.  Apesar do excelente resultado, em quem vocês devem prestar atenção não é nesta música (que no digital já sumiu de circulação), e sim na parceria com o Coldplay (!) com “Something Just Like This”, que estreou em #56 no chart e nas vendas digitais, debutou na vigésima-primeira posição. No iTunes, a faixa está em segundo, atrás apenas do hit “Shape of You”. Ou seja: cuidado, eles estão chegando.

Quanto a “Paris”, a música não é um bom follow-up pra “Closer”, que bem ou mal era uma música grudenta com um break pronto para os remixes. Essa música não vai pra lugar nenhum. Já a faixa com o Coldplay é bem legal (sim, é boa) e acho que tem futuro neste fim-de-inverno-começo-de-primavera-americana – e ainda segue o padrão desse EDM que o The Chainsmokers vem fazendo, mais mid e menos bate-estaca.

 

katy-perry-gifE após uma boa estreia na quarta posição, a Katy Perry caiu quatro casas no tabuleiro do Hot 100 e está em oitavo com o lead single do novo álbum, “Chained to the Rhythm“, feat. Skip Marley. O problema é que a “boa estreia” está disfarçada por um desempenho bem abaixo do esperado para uma hitmaker como a Katy (por exemplo: a música nem chegou ao #1 no iTunes, está mal nos streams – apesar do acordo massivo com o Spotify, e dizem por aí que a música já começou a tocar nas madrugadas das rádios americanas, quando pouca gente está ouvindo música), e nem o clipe (excelente, aliás) deu resultado. Acredito que nem com uma promoção constante a faixa vai bombar na boca do povo, o que é uma pena – é uma grande canção pop, onde a Katy mantém a pegada pop que sempre teve nos trabalhos, com uma letra inteligente e de crítica sutil; e o clipe prossegue com a Katy usando sua já tradicional estética fun a serviço de um vídeo que em alguns momentos se torna assustador, quando se observa o que ela realmente está dizendo.

Sabe o que é o pior? A música realmente não foi comprada pelo grande público. Acho que nem um Carpool Karaoke com o James Corden dá jeito. 😦

 

Mas se vocês quiserem contribuir para o sucesso da Katy Perry (ou ainda não ouviram a faixa), aproveitem e confiram o vídeo “Chained to the Rhythm”. É só dar play!