Muita calma antes de falar mal de “Witness”

Ultimamente, falar mal da Katy Perry virou esporte mundial. Seja pelos singles lançados não fazerem muito sentido com o que ela tinha prometido no começo da era (de “pop com propósito” a “Swish Swish” é um caminho bem tortuoso), declarações ruins (como aquela “piada” com referência à Brtiney que foi de péssimo gosto), parceria com rappers acusados de homofobia (os Migos, em “Bon Appetit“) e outros artigos criticando a Katy que oscilam entre apontar erros válidos e perseguição sem muito sentido (já que a mídia adora derrubar quem costuma erguer), Katy é o alvo da vez, e para completar, os singles lançados não foram exatamente os sucessos que todos esperavam.

Mesmo trabalhando com hitmakers (Max Martin, Shellback, Ali Payami, Sia) e nomes mais alternativos (como os grupos Purity Ring e Hot Chip) em seu novo álbum, “Witness“, o que todos vem comentando em fóruns e resenhas dos grandes jornais é em como o álbum é uma “bomba”, “sem graça”, “Katy não cresceu”, que o som é ruim etc. Mas será que o CD é realmente essa napalm que estão todos dizendo ou já existe uma má vontade gratuita por causa de todo o backlash (merecido ou não) que a moça vem recebendo?

O que eu posso dizer é: CALMA JOVEM. E olha que eu fui com a pior expectativa possível pra esse álbum

Antes de mais nada, quem já ouviu todos os CDs da Katy Perry, sabe que eles são obras bem irregulares, porque elas tem bons singles mesclados com fillers às vezes ofensivos – tente passar incólume pela segunda parte do “PRISM” que é uma snoozefest. Mas o segredo dos álbuns da moça sempre foi: apesar da irregularidade, sempre teve uma penca de músicas fortes para serem single que ancoram a audição porque estão bem localizados dentro do álbum (em “One of the Boys”, os singles e/ou músicas com potencial estão na primeira parte do CD; o “Teenage Dream” é quase um Greatest Hits, nem dá pra estabelecer uma comparação; e o “PRISM” também coloca os singles e/ou faixas com potencial na primeira parte do CD. Tanto que você até “engole” os fillers porque passou por algo bem bacana antes). Já no “Witness” as músicas boas estão espalhadas num mar de fillers num CD que dura tempo demais e tem músicas demais.

Há um conceito pelo CD que a Katy busca, mas nem sempre dá certo. Entende-se que ela discuta aqui e ali, com letras mais maduras, assuntos sobre relacionamentos, empoderamento, autoestima e questões políticas, mas o que a gente pode perceber é que a musicalidade do álbum tem um diferencial mais palpável: o dance-pop não parece tão teen oriented, há uma memória meio retrô em algumas faixas, mas no final não sai muito dessa evocação. Mesmo assim, há muitas ideias bem realizadas, como em “Witness”, a faixa título onde o hype faz todo sentido. A letra é no ponto, a ambientação, é agradável e gostosa, um dance-pop maduro. Outras músicas que são ótimas ideias bem executadas e que indicariam um caminho interessante (um dance 80’s retrô que funcionaria bem com as letras românticas e reflexivas) são “Roulette”, com o synthzinho super bacana e tem bastante potencial; “Miss You More” (que aparentemente é sobre o John Mayer), a melhor baladinha do CD, onde a interpretação vocal da Katy, com os graves do refrão, está no ponto e muito bonita; “Bigger than Me” (inspirada na derrota da Hillary Clinton na eleição do ano passado), uma faixa gostosinha com o refrão fácil que poderia muito bem ser o último single do álbum; e a sensacional “Pendulum”, com o coral gospel ao fundo, o acompanhamento das palminhas, a pegada R&B com algo oitentista (gente, cadê meu CD anos 80 dona Katheryn?), tem até um groovinho de guitarra, uma música ótima que merecia fechar fácil o CD num clima bem up.

(não acredito que Katy Perry inventou a música gospel bicho)

(curiosamente, os singles do CD, que exceto por “Chained” não vendem o conceito do “Witness” AT ALL, estão bem localizados na tracklist, exceto “Bon Appetit”, uma anomalia que não faz sentido em lugar algum, mas que estranhamente cresce a cada ouvida)

Em outras músicas, como a medonha “Hey Hey Hey”, a letra parece ter sido escrita por uma menina revoltada de 14 anos (e considerando que essa música vem LOGO após “Witness”, nada faz sentido). Pior que a melodia não é ruim (umas guitarras dariam um ar bem rock ‘n roll), mas a letra é uma vergonha gente. Sem contar as fillers como “Dejà Vú”, “Save as Draft” (com o verso You don’t have to subtweet me que está me deixando envergonhada só em ler), “Tsunami”, e até “Mind Maze”, com a ótima letra sobre se perder dentro dos próprios problemas desperdiçada numa melodia entediante.

Mas se você perceber, nenhuma das músicas que tem potencial de single são faixas que gritam HIT SMASH CHART MONSTER. São faixas agradáveis, bem feitas, com boas letras, que dão substância e coerência ao CD, e que podem render sim; mas o que foi lançado não vende nada do CD – o que cria a impressão de que a Katy não “evoluiu” tampouco as músicas são “maduras”. As faixas são boas e interessantes, mas ainda tem o problema da tracklist cagada em que duas músicas parecidas estão juntas (“Mind Maze” e “Miss You More”), duas músicas se anulam completamente em ideias (“Witness” e “Hey Hey Hey”), músicas boas sendo seguidas por grandes porcarias (“Chained” e “Tsunami”) e ainda encerra numa bela snoozefest (“Into Me You Se”) quando poderia terminar lá em cima.

(resumindo o problema da tracklist: quando você tem muito filler e pouca música com pinta de hit, tem que fazer um bom corte final e deixar as faixas fortes juntas, ancorando a audição 😉 )

Em resumo, “Witness” é um CD de ótimas ideias e uma condução mais reflexiva e madura que se perde numa tracklist confusa, faixas sem sentido e uma péssima escolha de single. Se Katy e a Capital eu fosse, seria dessa forma que lançaria o CD:

E você, qual a sua opinião sobre “Witness”? É bomba ou não é bem assim?

 

 

 

 

 

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11 comentários sobre “Muita calma antes de falar mal de “Witness”

  1. Ouvi só duas vezes o material (pretendo ouvir mais, ainda mais dps da sua análise) e achei o que eu sempre acho dos álbuns da katy, que foi exatamente o q vc falou: músicas bem legais, com alguns fillers. A diferença dessa vez é que não tem nada fantástico, até as mais legais tem alguma coisa q me incomoda. Não me vejo voltando muito nesse álbum no futuro, como faço pra ouvir legendary lovers ou mannequin. Mas também acho q a mídia tá pegando pesado com ela.

    No final, acho q o material foi mal trabalhado. O álbum foi vendido com a bandeira do amadurecimento, o q botou um peso a mais na expectativa pra muita gente; Os singles não mostravam muita coesão entre si e foram escolhas fracas dentro do álbum; além de tudo q vc falou na tracklist e das fillers pavorosas. As histórias com o migos e a Taylor tb não ajudaram. Mesmo com outras estratégias ótimas de divulgação (se tem uma coisa q eu bato palma pra katy é na divulgação dos trabalhos, a era do teenage dream foi impecável na minha opinião – e olha q eu nem gostava muito do álbum naquela época), dessa vez não deu.

    • Eu não gostei da música especialmente pela letra – o arranjo é muito bom, os versos são medíocres. Eu fiquei acompanhando com uma V. A. imensa toda a faixa – até “Swish Swish”, que não é um primor liricamente, tem melhores insights.

  2. Oi Marina, tudo bem? Parabéns por mais um post!

    Já estou ouvindo esse álbum há alguns dias. Estava muito ansioso pelo lançamento de Witness e estava com uma expectativa grande, afinal, é a Katy! One of the Boys e Teenage Dream são dois dos meus álbuns favoritos, e apesar de ter AMADO apenas um dos três singles que ela lançou (Chained to the Rhythm), eu esperava coisas boas do álbum por conta de todo aquele papo de “pop com propósito”.

    No entanto, é uma coisa que a gente só acabou vendo mesmo em Chained to the Rhythm e Bigger than Me.

    Eu achei um CD que se entrega excessivamente para o EDM e abafa os vocais da Katy na maioria do tempo, sem falar que diversas letras ficam escondidas atrás de batidas que me entediaram. Gosto de escutar álbuns pop por inteiro, mas em Witness não consegui fazer isso uma vez sequer, uma vez que achei toda a seção entre Deja Vu e Mind Maze chata, e que, depois de Chained to the Rhythm, o álbum perde muita força e as únicas faixas que merecem serem ouvidas são Bigger than Me e Pendulum. Isso sem falar no desastre que é Tsunami, a pior da Katy sem dúvidas…

    Enfim, acho que no fim o álbum não valeu a pena. Curti o recut que você fez e tenho ouvido à ele muito mais do que ao álbum em si, mas acho que é projeto que agradará apenas aos fãs de plantão. Esperarei pela próxima era da Katy, no entanto…

    • Valeu por estar ouvindo o recut ❤️ Sobre as letras escondidas por trás de batidas entediantes eu concordo plenamente. Mind Maze tem uma letra massa escondida num arranjo chato, parecido com a faixa posterior. E ainda tem a tracklist muito bagunçada, e as 15 músicas foram muito desnecessárias. Entre oito e dez daria um CD mais forte e coeso.

      (Tsunami é horrenda. Eu escrevi no rascunho um “GENTE…” porque não tinha o que dizer de tão ruim)

  3. Printada! hahahahahahahaah

    Agora sério: vc acredita que ela ainda pode reverter esse pessimismo em cima do “Witness” ou qualquer coisa que lance sairá com o selo de “flopado”?

    Tentar, pelo menos ela tem tentado.

    • A resposta sincera? Não, infelizmente. Até mesmo esse live que ela fez no Youtube, que foi uma jogada de marketing ao meu ver GENIAL, de reforço da brand dela de “quirky” e “relatable”, foi recebido com ceticismo por vários veículos de imprensa. E no geral, foi muito bom – teve entrevista, momento terapia, discussão de assuntos relevantes e trends, discussão acalorada e até pedidos de desculpa da Katy.
      Tomara que eu esteja errada e algum desses singles renda algo (por favor seja “Pendulum”, seria uma baita surpresa pra todo mundo ela lançar essa faixa, é super R&B, gospel, agradável, pra cima)

  4. Caramba, será que eu sou o único que gosta muito dos 3 primeiros singles lançados?

    “Chained to the Rhythm” gostei desde a primeira que ouvi, “Bon Appetit” só faz crescer a cada audição (Marina, vc já a ouviu bem alto? Impossível não querer dançar!). Quanto a “Swish Swish” tem um dos melhores feat. de Nicki Minaj que eu já ouvi (não fique com vontade de me matar!! rrsrsrs).

    Lembro ainda que as duas primeiras músicas tiveram vídeos excelentes, além de bem produzidos, muito interessantes.

    Claro que não tenho embasamento teórico pra resenhar as músicas (letra e melodia), são apenas impressões de áudios que fazem bem aos meus ouvidos.

    Quanto ao fato de fazer sucesso, lamento. O “amadurecimento sonoro” da artista não é o propósito que me faz ouvir determinada música. E é muita pretensão achar que uma música pop vai mudar o mundo. Não é essa a finalidade e nem o propósito. Pop rima com diversão. E se tiver algo a mais, é apenas um bônus.

    • Eu acho que o amadurecimento sonoro veio da própria Katy, da necessidade dela se provar como uma artista para além da hitmaker. Nesse CD tem algumas ideias que funcionam (tem algumas das letras mais interessantes da carreira de longe), mas tem muita coisa que não funcionou, talvez pela tracklist cagada haha

      Sobre os singles, se for pra ser bem straight to the theme, “Bon Appétit” não faz sentido algum com o resto do álbum (mas eu concordo que a música cresce muito, eu não nego), por isso tirei do meu recut haha mas “Swish Swish” (outra grower) faz, até melodicamente. Já Chained é muito anticlimática pra ser lead – e depois que você ouve o álbum todo, acha que ela poderia ter arriscado mais e lançado “Witness” como lead e “Chained” como terceiro single após o verão.

      Mas parece que falei mal do CD, pelo contrário, eu gostei mais do que pensava. A Katy tá sendo injustiçada com esse material, que é bem instigante. “Witness” vai ser um novo “Bionic” – todo mundo falava mal quando lançou, anos depois o povo diz que é “à frente do seu tempo” hahahah pode me printar.

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