As narrativas do Grammy 2017

GRAMMYS_logo_backplateComo vocês vem tendo a oportunidade de ler em nosso esquenta (que terminará sim, como se fosse um epílogo, prometo!), a construção de indicados ao Grammy obedece a lógicas muito particulares, determinadas seja pela época da premiação; ou pelo momento musical da indústria; como também pela própria necessidade do Grammy de se renovar ou manter a credibilidade.

Os motivos pelos quais as indicações este ano foram as que foram lidam justamente com narrativas que tem tudo a ver com o que aconteceu em 2015-16 na música, tanto no sentido de charts e canções da moda, quanto em relação ao efeito dos álbuns e dos lançamentos numa indústria que caminha por uma estrada sem retorno.

Nessa estrada sem retorno caminham os partidários do Streaming, que abriram boas discussões sobre consumo musical, valorização do artista e formação de público. Uma narrativa comandada por nomes como Drake, um dos artistas mais ouvidos (se não o mais) dos serviços de streaming. Uma força a ser reconhecida nos charts, que alcançou o sucesso e um poder absurdo dentro do rap e do pop; ainda apropriando-se de uma das trends mais relevantes do período: o tropical house, os derivados do dancehall, ritmo caribenho que virou parte integrante de 9 entre 10 hits ou músicas feitas para emplacar dos artistas pop –  a exemplo das músicas do Justin Bieber e seu “cd de produtor”, o “Purpose”.

Uma narrativa capitaneada por Beyoncé com forte fervor político – black is beautiful, black lives matter, a beleza e a força da mulher negra. “Lemonade” é o álbum de 2016 por excelência, tocando em todas as feridas dentro de um dos anos mais tensos política e socialmente, tudo isso emoldurado por uma história de traição que fala a qualquer mulher que já passou por um relacionamento amoroso. Narrativa que usou o streaming (exclusivo do Tidal) para construir outra narrativa, a visual (assistida anteriormente na HBO), e que reforçou a importância de um trabalho artístico completo, onde imagem e som são indissociáveis e fazem todo o sentido. Se Lady Gaga ajudou na volta dos clipes como eventos pop, Beyoncé em dois álbuns tornou o videoclipe uma proposta artística para além da mera divulgação de um single – é parte de uma mensagem maior.

Mesmo com as mudanças relevantes na forma como artistas lançam seus materiais, essas mudanças são tão rápidas e por vezes adotadas sem compreender a profundidade delas – apenas para seguir a “moda” – que vários artistas optam por um caminho mais lento, tradicional, tentando retomar um processo antigo, sem reflexos com o consumo atual; mas a força do nome é tão poderosa que você entra nessa viagem apenas pelo hype do envolvido. É a narrativa da Adele, que com certeza tem força numa grande parte da bancada, mais conservadora.

(e talvez essa seja a surpreendente narrativa do Sturgill Simpson, o indicado country de Álbum do Ano?)

Mas o Grammy é um prêmio da indústria, e a indústria precisa louvar quem trabalha. Se você lança um CD, mesmo que bom, e não mostra ele ao mundo, divulga e prova o valor do seu produto, por que ser recompensado com uma indicação? Essa é a narrativa da ausência do “Revival”, da Selena Gomez, tão incensado para entrar no corte final (incluindo por mim) e a da presença do “Confident” da Demi Lovato, que apesar do álbum ter sido lançado e sumido pouco tempo depois, continuou trabalhando e divulgando as faixas incessantemente, aparecendo nos programas e se fazendo conhecer. Ainda está no caminho para ser uma main pop act de fato, mas a recompensa do esforço está na indicação.

No entanto, as lógicas tão particulares do Grammy não explicam muitas coisas: por que ignorar Bowie no General Field? O camaleão do rock não era queridinho da bancada, mas indicações ao “Blackstar” (a música em Canção do Ano e o CD em Álbum do Ano) seriam bem vindas como uma homenagem sincera a uma das lendas da música. Errou feio e foi deselegante. Reter o CD num field rock apenas expõe a falha nessa lógica de se adequar aos acontecimentos musicais sem perder a credibilidade, quando um lado da balança (o mercado) pesa mais do que o outro (a arte). O equilíbrio precisa ser priorizado.

Por que duas indicações para “Famous”, do Kanye West? Será que a bancada também curte uma treta e quer ver o circo pegar fogo, usando “Famous” como pivô, exatamente um ano depois do agora-infame discurso de Taylor Swift recebendo Álbum do Ano? E já que estamos aqui para responder perguntas estranhas, o que é a presença de “I Took a Pill in Ibiza” indicado a Canção do Ano? Eu entendo que a versão indicada foi a original e não a remixada, e que a música de certa forma era uma crítica ao fato do cantor e compositor, Mike Posner, ser tratado como um one hit wonder e um fracasso ambulante. Ótimas ideias, música final nem tanto assim. Pior que a faixa fez sucesso, mas soa deslocada entre faixas tão fortes e contundentes na mesma categoria – e mais estranho ainda é que não atende a nenhuma narrativa forte – tradição, inovação, trend. Só os charts seriam uma escolha óbvia, mas mesmo assim não se trata de um “Stressed Out” ou “7 Years”, que deixaram marcas no público, ajudando esses consumidores a ouvirem o cantor ou o artista que está por trás da faixa.

De todas as narrativas que o Grammy nos oferece, em qual delas está o seu fave? Acha que ele ou ela tem chances de levar o gramofone? Confira os indicados ao Grammy 2017! A lista toda está no site oficial.

ÁLBUM DO ANO:
“25” – Adele
“Lemonade” – Beyoncé
“Drake” – Views
“Purpose” – Justin Bieber
“A Sailor’s Guide To Earth” – Sturgill Simpson

ARTISTA REVELAÇÃO:
Kelsea Ballerii
The Chainsmokers
Chance the Rapper
Maren Morris
Anderson Paak

MÚSICA DO ANO:
“Formation” – Beyoncé
“Hello” – Adele
“I Took a Pill In Ibiza” – Mike Posner
“Love Youself” – Justin Bieber
“7 Years” – Lukas Graham

GRAVAÇÃO DO ANO:
“Formation” – Beyoncé
“Hello” – Adele
“7 Years” – Lukas Graham
“Work” – Rihanna Feat. Drake
“Stressed Out” – twenty one pilots

Best Pop Solo Performance
“Hello” – Adele
“Hold Up” – Beyoncé
“Love Yourself” – Justin Bieber
“Piece By Piece (Idol Version)” – Kelly Clarkson
“Dangerous Woman” – Ariana Grande

Best Pop Duo/Group Performance
“Closer” – The Chainsmokers Featuring Halsey
“7 Years” – Lukas Graham
“Work” – Rihanna Featuring Drake
“Cheap Thrills” – Sia Featuring Sean Paul
“Stressed Out” – Twenty One Pilots

Best Pop Vocal Album
“25” – Adele
“Purpose” – Justin Bieber
“Dangerous Woman” – Ariana Grande
“Confident” – Demi Lovato
“This Is Acting” – Sia

Best R&B Performance
“Turnin’ Me Up” – BJ The Chicago Kid
“Permission” – Ro James
“I Do” – Musiq Soulchild
“Needed Me” – Rihanna
“Cranes In The Sky” – Solange

Best R&B Song
“Come See Me” – PartyNextDoor Featuring Drake
“Exchange” – Bryson Tiller
“Kiss It Better” – Rihanna
“Lake By The Ocean” – Maxwell
“Luv” – Tory Lanez

Best Urban Contemporary Album
“Lemonade” – Beyonce
“Ology” – Gallant
“We Are King” – KING
“Maibu” – Anderon Paak
“ANTI” – Rihanna

Best Rap Performance
“No Problem” – Chance The Rapper Featuring Lil Wayne & 2 Chainz
“Panda” – Desiigner
“Pop Style” – Drake Featuring The Throne
“All The Way Up” – Fat Joe & Remy Ma Featuring French Montana & Infared
“That Part” – ScHoolboy Q Featuring Kanye West

Best Rap/Sung Performance
“Freedom” – Beyoncé feat. Kendrick Lamar
“Hotline Bling” – Drake
“Brocooli” – D.R.A.M.
“Ultralight Beam” – Kanye West Featuring Chance The Rapper, Kelly Price, Kirk Franklin & The-Dream
“Famous” – Kanye West feat. Rihanna

Best Rap Song
“All The Way Up” – Fat Joe & Remy Ma Featuring French Montana & Infared
“Famous” – Kanye West Featuring Rihanna
“Hotline Bling” – Drake
“No Problem” – Chance The Rapper Featuring Lil Wayne & 2 Chainz
“Ultralight Beam” – Kanye West Featuring Chance The Rapper, Kelly Price, Kirk Franklin & The-Dream

Best Rap Album
“Coloring Book” – Chance The Rapper
“And The Anonymous Nobody” – De La Soul
“Major Key” – DJ Khaled
“Views” – Drake
“Blank Face LP” – ScHoolboy Q

Best Compilation Soundtrack For Visual Media
“Amy”
“Miles Ahead”
“Straight Outta Compton”
“Suicide Squad (Collector’s Edition)”
“Vinyl: The essentials Season 1”

Best Song Written For Visual Media
“Can’t Stop The Feeling” – Trolls (Justin Timberlake)
“Heathens” – Suicide Squad (twenty One pilots)
“Just Like Fire” – Alice Through The Looking Glass (Pink)
Purple Lamborghini – Suicide Squad (Skrillex & Rick Ross)
Try Everything – Zootopia (Shakira)
The Veil – Snowden (Peter Gabriel)

Best Music Video
“Formation” – Beyoncé
“River” – Leon Bridges
“Up & Up” – Coldplay
“Gosh” – Jamie XX
“Upside Down & Inside Out” – Ok Go

Best Music Film
I’ll Sleep When I’m Dead- Steve Aoki
The Beatles: Eight Days A Week The Touring Years – The Beatles
Lemonade – Beyoncé
The Music Of Strangers – Yo-Yo Ma & The Silk Road Ensemble
American Saturday Night: Live From The Grand Ole Opry

 

Terminaremos o histórico do Grammy ainda esta semana; e a partir da semana que vem, teremos as primeiras análises dos indicados – começando por uma categoria onde eu tenho mais certeza das coisas: Performance Pop Solo. Até lá!

 

O Grammy 2017 vem aí parte 3 – A era pop

Tensões sociais e culturais sempre são refletidas na música e nas premiações, como uma forma de avalizar mudanças ou participar das modas, mesmo que com atraso. O Grammy não foge à regra, especialmente após a premiação passar a ser televisionada ao vivo, o que colocou na tela os artistas mais bem sucedidos de seu tempo, alçados ao patamar de lendas. No entanto, o surgimento da MTV em 1981 sacode o mundo da música com a possibilidade firme de aliar imagem e som de uma forma indelével e não apenas como um acompanhamento para a canção, mas também para oferecer visões de mundo, divulgar ideias, produtos, “educar” um novo público.

Essa geração MTV logo tomará o Grammy de assalto, a tal ponto que muitos, compreendendo o quanto a imagem era forte nos anos 80, decidiram focar apenas no visual e esquecer a música – e esse encontro primeiramente feliz entre arte e comércio tornou-se um problema que a Academia resolveu da pior forma possível.

Mas pra que spoilers, né dona Marina? Em primeiro lugar, acompanhe a curta e excitante “era pop” do Grammy!

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O Grammy 2017 vem aí parte 2 – o período clássico

A décima-terceira edição do Grammy foi realizada em 16 de Março de 1971, premiando os destaques da música do ano de 1970. A diferença da premiação naquele ano foi o fato de que, pela primeira vez, as cerimônias passaram a ser televisionadas ao vivo pela ABC (atualmente, o canal que transmite o Grammy é a CBS, e essa saída de cena da ABC levou à criação do American Music Awards em 1973, criado para rivalizar com a outra premiação BARRACOS EM NY). A primeira edição exibida ao vivo do Grammy veio num período de grande diversidade de estilos e quando grandes artistas conviviam juntos nas rádios, oferecendo uma variedade única de canções e álbuns que definiram gerações. Ver esses astros sendo indicados e premiados na televisão, ao vivo e a cores, deixou uma marca que pavimentou o caminho para compreendermos algumas das motivações do prêmio hoje  – mais performances que premiações, a tentativa da Academia em atender a anseios do mercado colocando artistas mais populares no centro para chamar audiência etc. O jogo começa a virar, mas neste momento, vira para os grandes nomes que se tornam lendas.

É a era de Paul Simon, Stevie Wonder, Aretha Franklin, dos Carpenters. É o período clássico do Grammy.

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O Grammy 2017 vem aí parte 1

No dia 6 de dezembro, serão revelados os nomes dos artistas e bandas que vão concorrer ao chamado “Oscar da música”, o nosso querido e famigerado Grammy Awards. Nessa época, eu sempre faço um esquenta antes da divulgação dos indicados, comentando sobre o processo de votação ou algumas curiosidades históricas de premiações passadas (é só buscar os meus posts de 2014 e 2015); mas neste ano, eu estava sem muitas ideias interessantes pra trabalhar até que me deu um insight – que tal fazer uma viagem no tempo, cobrindo acontecimentos importantes dos Grammys em décadas anteriores?

(como eu amo posts históricos, essa opção me pareceu mais confortável e divertida)

Por isso, que tal viajar nessa história que começa lá atrás, em 1959, e chega ainda com muita força, buscando relevância e adequação aos tempos modernos, quase 60 anos depois? É só dar o pulo!

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