Isso não é arte – Kanye West, “Famous”

Kanye West FamousO novo vídeo do Kanye West, “Famous” (aquela música em que o rapper diz que ele e Taylor Swift deveriam transar porque “I made that bitch famous”) vem sendo aclamado por vários veículos por aí, como épico, obra de arte, mais uma prova do quão visionário Kanye é. Vanity Fair destaca o sentido quase religioso daquele grupo de corpos vulneráveis e nus juntos na cama; Complex reforça que o vídeo é mais um exemplo do Kanye misturando música e visual, por meio de seu interesse por arte; a Rolling Stone chamou “Famous” de o mais controverso e provocador vídeo do rapper até hoje.

Mas não há arte aí. Não há sentido religioso. A arte é importante, ela deve ser provocadora e nos fazer pensar. Mas ela tem um limite (assim como o humor) – há um limite quando ofende quem sempre foi ofendido. Quem sempre levou o tapa. Ofende quando a arte está baseada num contexto misógino de um artista que usa corpos nus de mulheres para provar um ponto – “homens como eu fizeram dessas mulheres famosas, e elas devem entender isso, por isso estão nessa cama”. Ofende quando ele expõe nomes que deveriam ser banidos de qualquer discussão como Trump, Chris Brown e Bill Cosby (pelo amor de Deus) ao lado dessas mulheres, homens que – como Kanye, é hora de colocá-lo na discussão – subjugam direta ou indiretamente mulheres todos os dias. Não tem como defender, qualquer que tenha sido a referência, por mais ~gênio~ que Kanye seja (e eu já duvido disso). Não dá pra defender uma estátua da Rihanna sendo colocada ao lado do seu espancador. Não dá pra defender uma estátua da Taylor Swift ao lado do Kanye pra expô-la. (aliás, só os corpos femininos são expostos mais longamente, como se fosse um voyeur sinistro) Se era para falar sobre a cultura da celebridade e que todo mundo pode ser famoso, você tem tantas possibilidades; você pode criar tantos conceitos; e a música, apesar da letra extremamente egocêntrica, era uma das mais comerciais do confuso “The Life of Pablo”. Britney Spears com “Everytime” e Jennifer Lopez com “Jenny From The Block” foram mais efetivas e diretas ao ponto em seus vídeos e nunca foram consideradas gênios da música (mesmo com o praise em torno do vídeo da Brit).

O ponto de discussão é: até que ponto é arte quando ela vem imbuída de misoginia e preconceito?

O vídeo de Famous está por aí, você pode encontrá-lo.

Sendo linda – Christina Aguilera, “Change”

Cover Christina Aguilera ChangePara muita gente, Christina Aguilera é a jurada com uma bela voz do The Voice americano – e com as roupas mais estilosas entre todas as juradas que já passaram pela atração. Como o último álbum da moça (o filler “Lotus”, de 2012) passou despercebido pelos charts e ela já não faz uma tour desde o terceiro álbum, de 2006 (isso tem DEZ ANOS) é óbvio que o fato da Xtina ser uma das grandes vozes da música dos últimos 15 anos e ter álbuns relevantes com músicas incríveis e ainda atuais (“Can’t Hold Us Down” é a prova fiel disso) acaba escondido, principalmente numa época em que artistas somem e desaparecem com a rapidez que se apaga um snap no histórico. Se você não for marcante ou não ter seu nome na boca do povo o tempo todo – ou não saber como manejar seu período de “hiatus” – você some.

No entanto, em meio ao luto nacional nos EUA com a morte de 49 pessoas pelas mãos de um atirador homofóbico que invadiu uma boate LGBT em Orlando, na Flórida, Christina lançou uma música em memória ao maior massacre da história dos EUA, que atingiu corações, mentes e a liberdade de amar de um grupo há tanto tempo perseguido. A música, “Change“, tem todos os lucros da venda doados para as famílias das vítimas, e a letra tem tudo a ver com a necessidade atual das pessoas, em face de uma tragédia sem sentido como a que houve nos EUA (e que reflete os comportamentos homofóbicos que vemos não apenas na terra do Tio Sam, como aqui no Brasil, onde leis anti-LGBT e contra os direitos das mulheres já vem sendo discutidas no Congresso mais conservador desde 1964). A necessidade de mudança para um pensamento de amor, empatia, tolerância, num mundo cada vez mais duro e cruel com as pessoas. Direta ao ponto. Simples, eficiente e com uma Christina Aguilera com o vozeirão controlado e soltando seus poderosos agudos nos momentos certos.

É evidente que, como é um single pra caridade, não dá pra focar em ser um hit massivo, #1 na Bill, iTunes e Spotify (e se irritar se flopar – a música conseguiu bater na porta de um top 10 no iTunes ontem) – e sim que venda bastante para ajudar as famílias das vítimas e faça o bem. Mas, indo além do posicionamento forte da artista em relação ao ataque em Orlando, vale ressaltar que essa é a primeira música inédita – e solo! – da Christina em anos. Para os fãs, deve ser uma delícia ter um materialzinho inédito em mãos, saber que a voz da Xtina ainda está tinindo e a faixa, mesmo uma midtempo pop, não parece uma coisa datada e vazia. Isso pode indicar, ainda, notícias sobre o próximo álbum da loira (agora ruiva)?

Pois é, o que as novas músicas registradas revelam são que a Xtina escreveu músicas com compositores que trabalharam para Fifth Harmony e o produtor do segundo álbum da Meghan Trainor, Ricky Reed. Apesar dessa informação não ter feito com que eu pule de alegria, ao menos a gente já sabe que ela está em estúdio, compondo e trabalhando, e aparentemente com produtores que estão rodando pelo mercado. Mesmo assim, a Christina sempre foi a cantora que trazia gente mais de nicho ou underground pra cena (não se esqueça de que ela quem trouxe a Sia pra compor pra ela, lá no “Bionic” – oi, “You Lost Me“, e o DJ Premier, que só trabalhava com hip hop gangsta – e os dois trouxeram “Ain’t No Other Man“) e as parcerias com o produtor urban Scott Storch deram muito crédito aos dois na cena pop e urban (sem contar com a fabulosa “Fighter“, mostrando que um dia a Aguilera precisa fazer rock). Sem contar o Mark Ronson! Ela sempre esteve cercada de gente boa, e o que eu espero, em nome da primeira vez que ouvi a Christina quando era era aquela loirinha do olho azul naqueles clipes cafonas de 2000, é que ela esteja guardando o melhor para si – e todo mundo saber quem é Christina Aguilera – não a jurada, e sim a espetacular cantora com uma voz bem maior que seu tamanho poderia sugerir.

E você, o que achou de “Change”? E o que espera do próximo álbum da Xtina?

Dê uma segunda chance ao Nick Jonas em “Last Year Was Complicated”

Cover CD Nick Jonas Last Year Was ComplicatedUma das histórias de “morte e substituição” mais bem sucedidas da música pop foi Nick Jonas. O moço do anel de pureza e músicas inofensivas com os irmãos se tornou um habilidoso cantor solo, fazendo um R&B respeitável no primeiro CD solo (descontando o “Nicholas Jonas”) e arrancando suspiros com photoshoots sensuais e sem camisa. É óbvio que depois da boa recepção ao selftitled , o que se esperava era um trabalho igualmente coeso, bem trabalhando e mantendo aquela ambientação sexy e misteriosa do “Nick Jonas”.

“Close”, o lead single do novo álbum, “Last Year Was Complicated”, era mais pop que R&B, e contou com uma química intensa com a sueca Tove Lo. Mas o resto do CD segue com a pegada R&B do álbum anterior, só que com aquela pegada menos “pura” e mais mistura urban e pop, lembrando claramente a sonoridade dos anos 2000. No entanto, não é um amor à primeira vista.

Entenda o porquê no track-by-track!

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