Diário de uma mulher negra – “Lemonade”, Beyoncé

Cover CD Lemonade BeyoncéEu precisei dar uma primeira, segunda ouvida em “Lemonade”, novo álbum da Beyoncé que tomou o mundo como se fosse um grande tsunami de informações, histórias, conflitos e personal statements neste sábado. Para além do filme, um trabalho lindo, forte e emocionante, mostrando a jornada de uma mulher negra diante de conflitos internos e desafios externos, o álbum é outro diário dessa mulher, que possui tantas identidades que acabam se confundindo dentro da persona “Beyoncé” que o “Lemonade” é como ela consegue navegar em todos os seus ups and downs e ainda manter a persona diva, BEYONCÉ a superstar – mas acaba se aproximando de todas nós, no fim de tudo. Como diz a avó do Jay-Z (que deve estar tendo pesadelos com esse álbum) no final da faixa “Freedom”, que é a inspiração para o título do CD, “I had my ups and downs, but I always found the inner strength to pull myself up. I was served lemons, but I made lemonade.” (e no filme, a “limonada” também é referência por parte da falecida avó da Beyoncé, fechando o ciclo de mulheres fortes que colocaram direta ou indiretamente suas pegadas nesse álbum)

Beyoncé é uma das maiores, se não a maior, artista de nosso tempo. E mesmo bem sucedida, rica, poderosa, chegando onde chegou se provando a cada álbum e turnê (e isso está praticamente explícito numa das melhores faixas do álbum, “6 Inch”, com featuring do The Weeknd), ainda é alvo das traições e enganos do marido que se espera como companheiro. A mulher negra bem sucedida ainda é preterida pelo marido negro pela “Becky de cabelo bom” – a mulher branca. A solidão da mulher negra se revela até entre os ricos e poderosos.

Bey joga todas as verdades sobre as traições e mentiras em seu relacionamento em quase todo o CD. Em maior ou menor grau, uma relação em que você se doa enquanto o outro não retorna da mesma forma é algo que atinge a qualquer mulher. Mas aqui, Beyoncé tem o adicional dessa relação entre duas pessoas negras e poderosas (onde ela é a mais poderosa do duo), que deveriam se unir e lutar juntas -já que esse amor e casamento é uma afirmação política, de luta – mas que acabam sendo separadas pelas traições de uma das partes. É uma Beyoncé que sabe do que está acontecendo, que joga na cara que ela está por cima, profissionalmente falando, nessa relação, e que não aguenta mais as traições do Jay-Z. “Don’t Hurt Yourself”, trabalho com Jack White e a primeira departure do álbum, uma faixa rock com muita raiva e dor por parte da cantora, tem versos que mostram o quanto ela sabe da verdade, o quanto a verdade doi e que ela não aguenta mais ser traída (momento Sonia Abrão: o histórico de puladas de cerca do Jay-Z data supostamente de 2006. Dez anos.).

“Uh, this is your final warning
You know I give you life
If you try this shit again
You gon lose your wife”

É uma Beyoncé que não tem medo de falar a verdade sobre o fracasso do relacionamento, e que num verso, expõe para o marido, a outra e pra quem queira ouvir que ela sabe exatamente quem é a amante. “Sorry”, um urban mais pesadão, é a tal faixa da polêmica da “Becky with the good hair”. E aqui vai um parêntese grande: para quem reclama da “falsa sororidade” da Beyoncé em expor a outra, é porque não ouviu “Lemonade” todo. O álbum inteiro, cada faixa, exceto pelas mais politicamente reforçadas, é para espinafrar e falar mal do Jay-Z. Em nenhum momento o álbum trata de slut shaming ou para falar mal da mulher que era amante dele. A única referência de fato está nessa música, onde Becky, referência à mulher branca average americana, é o registro da Beyoncé de que ela sabe a verdade. E dado o histórico de abandono das mulheres negras e a solidão afetiva sofrida, quando somos preteridas por mulheres brancas, exigir “equilíbrio” de uma mulher traída, mulher negra, nesse contexto social, é pedir demais né? O que essa mulher deve ter ouvido a vida inteira, o quanto ela deve ter sido preterida?

Lemonade MemeDepois querem limitar a internet..

A questão que também perpassa este álbum (e que está profundamente enraizada no filme) é a tradição. As jovens senhoras com roupas remetendo ao século XIX, no período Antebellum (entre a guerra de 1812 e a Guerra Civil Americana) e a tradição Creole da Louisiana (como vimos no vídeo de Formation) estão intimamente ligadas às raízes da Beyoncé no Texas – e como essas raízes e o que ela aprendeu desde criança vão balizar as próximas posições dela dentro da sua trajetória. Como ela repete a história que enxerga dentro de casa – das traições do pai, Mathew Knowles, que a ensinou a ser BEYONCÉ, mas a legou, aparentemente, um ciclo de aceitação de um comportamento nocivo dentro de um casamento – o que soa irônico depois que a gente ouve “Daddy Lessons”, a outra departure do álbum, uma ode honesta ao pai. Um country gostoso, meio old school, com mais sentimento que muita música country feita por aí (sim, estou falando com você mesma Taylor Swift pré-1989). E como ela percebe que é necessário lutar pra manter as suas raízes, a sua história viva, quando ela decide que é hora de tomar uma posição como mulher negra e assumir a luta pelo bem estar e empoderamento do seu povo. Em “Freedom”, parceria com Kendrick Lamar (o que eu chamaria de união de consciências), ela parece ter acordado de um longo tempo meio distante das questões raciais

“Lord forgive me, I’ve been runnin’
Runnin’ blind in truth”

e marcha junto com outras mulheres na luta pela liberdade e direito do povo negro, numa faixa com produção impecável e uma bateria que conclama a sair nas ruas e marchar. Seguramente a faixa mais emocionante do álbum, e provável finalista do Grammy de Canção e Gravação do Ano. É brilhante, pungente e forte, e incluída na porção do filme onde aparecem mulheres parentes de pessoas negras mortas pela violência policial, cala forte em nós. Só nós sabemos a nossa dor.

Mesmo com o evidente perdão da Beyoncé ao marido (“Daddy Lessons” era a dica; mas a partir de “Love Drought”, a única faixa que eu não gostei muito no álbum, você começa a perceber que ela vai perdoá-lo e aceitá-lo com seus erros. Um final que eu particularmente não sou muito fã – eu sou #teampénabundadoJayZ, mas e como se no fundo, a Beyoncé entendesse que o único que estaria ali por ela, aceitando sua posição como artista, seu poder e influência, pelo tempo que passaram juntos e o amor construído, é o Jay-Z. Que outro homem não a aceitaria como alguém “maior” na relação. E ela acaba aceitando o que a vida lhe oferece. Faz do limão uma limonada.

Com uma compreensão mais profunda de um R&B urban com ecos alternativos e adições bem vindas de rock e country, “Lemonade” consegue ser melhor e mais firme em seus propósitos que o Selftitled. Enquanto o “BEYONCÉ” era a afirmação de Beyoncé como artista; este álbum é o descortinamento da cantora como uma pessoa, suas dúvidas, seus medos, sua posição, e como ela se fortalece para se tornar a força que é hoje. E mesmo nós não sendo BEYONCÉ, a rainha, a diva, mas nunca estivemos tão próximas dela como aqui, neste álbum. E nunca estivemos tão fortes para nos unir. Para nos ajudar. Para ajudar a ela também, caso o inbox esteja aberto.

Por que não?

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Mais que um garoto normal de 23 anos – “Mind of Mine”, Zayn

Cover CD Zayn Mind of Mine Sair de um grupo vocal, seja boyband ou girlband, para começar uma carreira solo, é sempre um desafio. As pessoas te conhecem como parte de uma turma, seu estilo musical provavelmente é uma incógnita e as escolhas de singles atreladas a um carisma natural podem representar uma carreira bem sucedida (ver: Justin Timberlake) ou flop sem precedentes (ver: Nicole Scherzinger). Além disso, você deixa para trás uma base de fãs que ninguém sabe se podem consumir seu material solo ou te abandonar porque “abandonou” a banda.

Não deve ter sido fácil também para Zayn Malik. O membro mais calado da boyband sensação britânica One Direction deixou a banda citando a vontade de ser “um garoto normal de 22 anos” (agora 23), mas a questão que pegou mesmo foi a diferença de sonoridade em relação ao que o resto do grupo trabalhava. O rapaz tinha influências mais R&B no seu som, mas ficava encaixotado no pacote pop do One Direction. Após passar boa parte de 2015 discreto, com uma ou outra aparição com o cabelo numa cor nova, Zayn apareceu com o primeiro single do debut álbum “Mind of Mine”, a slowjam “PILLOWTALK”, começando 2016 em alto nível e grande estilo – completamente diferente do que fazia no One Direction.

Na verdade, nada nesse álbum se parece com o que ele fazia antes. Para ser honesta, “Mind of Mine” é um CD de quem tem lenha pra queimar. De quem sabe muito bem o que está fazendo e tem uma percepção muito clara de quem é musicalmente. Um álbum de quem sabe muito de música.

Aqui, Zayn (que co-escreve todas as faixas do álbum), se une a produtores fora do esquemão e que trabalham com R&B alternativo (como Malay, que apesar de ter trabalhado em dois álbuns do John Legend, ficou conhecido mesmo por produzir o “channel ORANGE” do Frank Ocean) para criar um álbum extremamente coeso, refinado, onde você não encontra singles óbvios nem músicas fáceis. A deluxe edition são 18 canções que você ouve numa sentada, com faixas seguindo quase sem parar uma após outra, criando um ambiente que mistura slowjams R&B, alt-R&B, midtempos R&B com pegada oitentista e até uma faixa em Urdu. Boa parte das letras não são um primor de composição (na verdade, acho que liricamente o álbum é até monotemático, girando muito nos conceitos “sou um bad boy, não presto, mas se estamos juntos essa relação é só tesão, mas se você me deixar eu ainda sou o melhor que você já teve”), mas conseguem falar tanto ao público que o acompanhava no One Direction, e que agora cresceu; quanto para aqueles que não o ouviam ou sequer o conheciam, e veem o Zayn como um artista completamente diferente.

Dentro da “nova ordem do R&B”, bem mais influenciado pela música alternativa e pelos trabalhos do The Weeknd, Zayn parece muito um The Weeknd teen, mas o rapaz tem personalidade o suficiente para fazer a sua voz raspy, levemente rouca e bem trabalhada, ser reconhecida por todo o álbum. Músicas como a própria “PILLOWTALK”, o sensacional segundo single “Like I Would” (um R&B mais dançante e com ecos oitentistas, perfeito para a primavera/verão americano), “It’s You”, a ótima “Rear View” (com ecos de pop/rock 80’s que cai muito bem aos ouvidos, e a letra bem trabalhada); “Wrong” com a cantora Kehlani (o segundo refrão mais catchy do álbum, que não é feito de refrões fáceis); são faixas que se destacam pela habilidade do Zayn de mostrar a própria voz e não ser engolido pela produção, ou ser um cantor de estúdio.

Batidas que convidam ao sexo, mesmo que as letras não o façam, a presença de guitarras ao fundo em diversas faixas, criando uma ambientação intimista que faz jus à viagem dos ouvintes pela mente de Zayn Malik. É um trabalho refinado e maduro para um cara de 23 anos, que alcançou o sucesso com músicas que possuem um equilíbrio curioso entre serem muito muito boas, ao mesmo tempo em que não parecem prontas e embaladas para o sucesso rápido.

Afinal de contas, como a controladora RCA deixou esse garoto fazer um álbum desses com uma estética mais alternativa embalada num produto mainstream, sendo que ele não tinha nenhum histórico de lançamentos desse tipo antes? Isso que é ter confiança no taco do contratado.

QUERO MUITO: Rihanna, “Kiss It Better”

Rihanna video Kiss It Better

Já comentei aqui o quanto eu não gosto do “ANTI”, o novo álbum da Rihanna, numa série de posts que geraram reações bem específicas na caixa de comentários do Facebook. A opinião contrária é sempre bem vinda, e discutir faz parte do jogo democrático. Mas eu sempre achei “Kiss It Better”, a cota mais pop rock que sempre tem nos álbuns da RiRi, uma das highlights do álbum, e uma faixa com pegada comercial para ser single – considerando que o CD não é exatamente uma máquina de hits, como as outras aventuras da barbadiana.

Por isso, eu fiquei muito feliz quando soube que essa faixa seria lançada como música de trabalho – e quando o clipe foi lançado, não foi apenas felicidade que eu senti. Foi uma sensação de: CA-RA-LHO. Quero essa mulher pra mim. Quero ser ela. Free the nipple. Saudades vida amorosa. Que vídeo maravilhoso. Que vídeo maravilhoso!

Lembra que eu falei no vídeo da Ariana Grande que sensualizar num vídeo sem muitos recursos de produção, dependendo do magnetismo do artista, era algo pra poucos? Então, Rihanna dá uma aula no vídeo de “Kiss It Better” que é pra ser usado como estudo de caso na aula de Vídeo Pop Feminino 101. Confira:

O vídeo é em preto e branco e apesar de termos um visual bem nítido do piercing e dos seios da Rihanna, todo o resto é surpreendentemente implícito. Você só saca o prazer, a excitação, a dor e a expectativa pelo jogo de corpo, a edição do vídeo e as expressões da RiRi. O magnetismo dela e o poder que ela tem sobre o próprio corpo são tão grandes que dá pra notar o amor que a câmera tem pela Rihanna, mesmo que a barbadiana não passe o vídeo todo olhando na direção dela.

Esse magnetismo passa pra gente – porque a gente quer olhar mais, quer continuar observando, sendo seduzido e apaixonado pela Rihanna, ao som de uma música com uma melodia que convida mesmo a “making love”. Uma fuck music de primeira categoria, que dá vontade da gente apertar replay, mesmo o vídeo não tendo nada demais – só Rihanna, poucas roupas, muita sedução e tudo em preto e branco. Mas se você for RIHANNA, apenas isso basta pra fazer algo épico. Só ela – e umas poucas – pra segurar um vídeo assim.

Apenas uma pergunta: qual é a história daqueles dados? Cadê os little Monsters com as teorias, obrigada!

Você assistiria novamente a “Dangerous Woman”, da Ariana Grande?

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Eu adoro “Dangerous Woman”, lead-single do terceiro álbum da Ariana Grande, de mesmo nome. Acho uma balada sensual e elegante, com ótimos resultados e um solinho super charmoso de guitarra. O vídeo até foi lançado numa boa hora – até o momento em que a Rihanna tomou todas as atenções com “Kiss It Better” – mas o resultado final (que nem é o final, porque essa é a primeira versão, ou “Visual 1”, do vídeo) deixa muito a desejar.

Pra você fazer um vídeo sensual, sem muitos recursos cênicos ou de produção, precisa se apoiar muito na sensualidade do artista em questão. A pessoa tem que segurar o vídeo até o final, e fazer você se sentir atraído pelo combo música + vídeo e te fazer ver até o final, depois repetir até cansar – e quando cansar, você ainda vai assistir de novo. O artista, por sua vez, precisa te seduzir – você precisa se apaixonar por ele pra que a experiência valha a pena. Sabe o que acontece em “Dangerous Woman”? Um incômodo por todo o vídeo, como se estivéssemos o tempo todo vendo alguma coisa muito estranha e muito errada.

  1. Ariana é uma cantora, uma intérprete, que se apoia na voz e nas performances que tem a ver com o seu vocal poderoso. Ela não tem pegada de performer, que dá um show e que tem magnetismo nas performances e vídeos. Os empresários a vendem como performer quando ela é uma cantora de microfone na mão e banda atrás e cenários simples. Essa descolamento de imagem fica evidente quando é necessário ser performer num vídeo e você é cantora.
  2. Mesmo a Ariana sendo uma jovem adulta e maior de idade (22 anos), ela parece uma menina bem mais nova, de uns 15, 16 anos (ou menos). Ou seja, soa esquisito e até de mau gosto ver uma jovem com cara de criança tentando sensualizar num vídeo simples onde a sensualidade precisa segurar todo o clipe.
  3. E se você não sabe sensualizar – pior, é visível o quanto essa imagem da Ariana que tentam associar, a imagem de “lolita”, será algo constante nessa era – por que insistir? Se o interesse é em manter essa pegada, por que não fazer como em “Love me Harder”? A sensualidade, que existia na música e no clipe, era encarnada por uma Ariana que passava uma imagem de jovem mulher adulta com muito mais conforto e menos incômodo que em “Focus” e “Dangerous Woman”. Takes de câmera, fotografia e maquiagem colaboram fortemente para essa impressão. É só ver os clipes em sequência que você percebe isso.

Se existe alguma coisa louvável nesse vídeo, é que curiosamente, nos takes em que se usa a luz azul, parece muito os enquadramentos de câmera do clipe de “The Way”. Não sei se foi intencional ou não, mas foi uma referência interessante, e se não fosse o incômodo já citado, eu consideraria uma espécie de rito de crescimento – daquela cantora destinada para o público teen para uma artista dedicada a um público adulto. E evidentemente, a música, que continua sendo sensacional, mostrando a maturidade da Ariana como intérprete.

De resto, é esperar que essa impressão esquisita se esvaneça com os próximos vídeos da era.

E você, o que achou do vídeo de “Dangerous Woman”?