Indicados ao Grammy 2016 [6] Álbum do Ano

O prêmio principal da noite, aquele que todos os grandes artistas querem, em diferentes estágios da carreira, é o de Álbum do Ano. O principal prêmio do Big Four é a consagração, a confirmação de uma trajetória bem sucedida ou o surgimento de um grande artista – ou mesmo a compensação por anos de indicações malsucedidas.

Entre os vencedores já tiveram clássicos atemporais (“Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, Beatles, 1968); o mesmo artista duas vezes seguidas (além do Frank Sinatra em ’66 e ’67, Stevie Wonder teve esse privilégio em 1975 com o “Innervisions” e no ano seguinte com “Fulfillingness’ First Finale”); recordistas (um tal de “Thriller” em 1984, de um mocinho chamado Michael Jackson; além daquele senhorzinho Santana em 2000); trilhas sonoras marcantes (além de “Saturday Night Fever” em ’79, Whitney Houston levou com a trilha de “O Guarda-Costas” em 1994; sem contar a trilha de “E Aí Meu Irmão, Cadê Você”, em 2002); arrasa quarteirões (“21”, alguém? – 2012) e vitórias envoltas num ambiente de “what?” (estou falando de você, Beck, e o “Morning Phase”).

Os indicados este ano compõem um espectro que representa bem como a bancada do Grammy estrutura seus indicados – um representante pop, outro R&B/urban, outro country, outro indie e um de hip hop. Por vezes, o representante de R&B é o representante do hip hop, os indies ficam de fora da equação, ou como neste ano, não teve um grande rock act fazendo o corte final, porque algum gênero diferente se destaca no ano anterior ou tem um álbum extremamente bem sucedido por aí (ou as divisões de votos fizeram vítimas aqui). Anos extremamente pop já estiveram presentes (como em 2012, na vitória do 21, com três indicados pop, um rock – Foo Fighters – e um mais eletrônico, o “Born This Way” da Gaga). Este ano foram mais álbuns de R&B contemporâneo (dois, o da Beyoncé e do Pharrell), com dois álbuns pop na equação e um de rock. Se formos para um passado mais distante, a predominância de um gênero se torna uma lógica fortíssima na escolha de álbuns para compor a lista final de indicados – como em 1978, quando entre os cinco indicados, apenas dois não eram álbuns de rock – justamente a trilha sonora de Star Wars (!!) e o comeback de James Taylor com o “JT”. Os outros eram “Aja”, do Steely Dan (classificado como jazz rock), o clássico “Hotel California” do Eagles e o vitorioso “Rumours”, do Fleetwood Mac.

Pois bem, como o ano de elegibilidade foi um dos mais diversos musicalmente dos últimos tempos (refletindo este período bem específico da música em que você não sabe exatamente o que está fazendo sucesso – e que brand seguir), hora de conferir os indicados e as análises para Álbum do Ano:

Alabama Shakes, “Sound and Color”
Kendrick Lamar, “To Pimp a Butterfly”
Chris Stapleton, “Traveller”
Taylor Swift, “1989”
The Weeknd, “Beauty Behind the Madness”

Alabama Shakes, “Sound and Color”

Cover CD Alabama Shakes Sound & ColorAclamadíssimo pela crítica especializada, o “Sound and Color” é uma experiência estranha pra mim. Tem algo esquisito mas ao mesmo tempo que funciona (como em “Dunes”, que começa de uma forma, entra em outro ritmo e o solo tem outra pegada). É um rock alternativo mas que tem na voz da cantora Brittany Howard uma ferocidade meio blueseira, meio soul singer (“Gimme All Your Love” tá aí pra isso), meio psicodélica, meio viagem de ácido que te atrai e te atinge como um raio.

A instrumentação é bem bacana, com as guitarras conduzindo todas as canções, o ar meio 60’s rolando em algumas músicas, a ambientação meio vintage, mas ao mesmo tempo moderna. Como eu disse, é uma experiência estranha, porque de todos os álbuns aqui, é o menos “coeso” dentro de uma esfera melódica, de produção polida e pop, mas essa estranheza é boa. É bom pra tirar da zona de conforto da gente, que espera todas as canções do mesmo jeitinho e todo mundo cantando do mesmo jeitinho. É pra isso que serve a música né.

O nome “Sound and Color” pro álbum funciona perfeitamente, já que estamos falando de um CD que parece ter cores, de fato – as músicas não apenas tem som, você consegue perceber colorações, tanto na voz da Howard quanto nos instrumentos, e em como algumas canções começam com um riscadinho como se fosse um disco antigo começando a tocar – um LP antigo (como em, por exemplo, “This Feeling”), e se você fechar os olhos, parece ver cores, como se as histórias fossem aparecendo em painéis. É uma perspectiva brilhante para um álbum, e olha, se estivéssemos em outro momento e lugar, tenho certeza que “Sound and Color” seria vencedor de Grammy de álbum do Ano. Mas o “homem” está um pouco abaixo, e ele merece muito o que tem a apresentar.

(sorry)

Kendrick Lamar, “To Pimp a Butterfly” (resenha em 24.03.2015)

Eu ainda me choco com “To Pimp A Butterfly”. Sério. Ainda me surpreendo em como alguém pode ser tão genial sem Cover CD Kendrick Lamar To Pimp a Butterflyfazer esforço algum, sem fazer autopromoção, sem egotrips, sem forçar barra (eu tô falando de você mesmo, Kanye West e sua viagem pra lançar “The Life of Pablo”), só fazendo música e colocando todo mundo pra pensar, lançando hinos que podem até não ser moldados para as rádios, mas são moldados para entrar no inconsciente coletivo. Em tempos de “Formation”, de Beyoncé contundente e chamando para a discussão sobre empoderamento negro e violência racial em pleno Superbowl, como o trabalho do Kendrick, lançado no início do ano passado, ainda é forte, ainda dá pra pensar, ainda é um diário da vida e dos tempos de um jovem homem negro. Pode ser nos EUA, e pode ser aqui mesmo.

A mistura rítmica do álbum é intrigante, já que sai da dureza e do hip hop noventista do “good kid, m.A.A.d City” e pega todos esses samples e esses arranjos mais soul, jazz, funk, mas sem perder o fraseado do rap, construindo uma narrativa pessoal que se torna social, onde o sucesso de Kendrick se torna seu pior inimigo. As pressões o colocam para baixo, destroem-no a ponto dele ter que lidar com tentações, depressão e uma tristeza profunda; e ele acaba encontrando na religião e no retorno às raízes em Compton uma forma de se recuperar, não apenas como ser humano, mas se recuperar como homem negro e enxergar o mundo como um espaço de conflitos, em que o negro sofre violência, preconceito, genocídio, e é levado por um sistema racista histórico a brigar entre si, se autodestruindo no processo (pode ser a terceira interpretação de “The Blacker The Berry”).

Nesse processo, emergem pérolas como “King Kunta”, a linda “These Walls”, “Wesley’s Theory” (a irmã mais velha de “Formation”, o hino dos protestos “Alright”, que vem logo após da crise pessoal e mental de “u” (e como essa sequência é forte dentro do CD!), além das já clássicas “The Blacker The Berry” e o hino de amar a si mesmo “i”, que é bem diferente na versão CD em relação ao que conhecemos na versão single. Exceto por “i”, que tem algo de up que se sobressai como mais radiofriendly, todas as outras canções não são exatamente um estouro de comerciais, mas a junção música-letra-produção-conceito torna as 16 faixas (incluindo a conversa bizarra com Tupac em “Mortal Man”) hinos de uma geração e de uma realidade que bate à nossa porta diariamente.

Apesar do “To Pimp A Butterfly” dividir o favoritismo com o “1989” da Taylor Swift pela dicotomia entre “a obra-prima do ano, com influência social e política” versus “o grande vendedor do ano, que abriu discussões sobre consumo musical na indústria”, a diferença essencial entre os trabalhos de Kendrick e Taylor reside no fato de que TPAB é uma obra mais bem acabada em seu todo, sem altos e baixos em seu caminho, extremamente coeso e relevante. É como se o álbum não ficasse velho – um ano após seu lançamento, as músicas tem um poder de te fazer pensar, dançar, observar o mundo, fazer comparações. O CD está atualíssimo, especialmente com discussões na mídia com o #OscarsSoWhite, ainda o movimento do Black Lives Matter e a violência policial contra os negros correndo solta nos EUA. “To Pimp A Butterfly” continua fresco e novo como em seu primeiro dia de lançamento. Além disso, foi bem sucedido em seu lançamento comercial – e a indústria, evidentemente, observa isso positivamente. Não nos esqueçamos ainda de que Kendrick foi egitadíssimo no Grammy de 2014, quando ele concorreu a sete gramofones com o “good kid…” e perdeu até no próprio field pro Macklemore ¬¬ nada contra o “The Heist”, mas ali nunca foi um álbum pra concorrer de fato com o trabalho do Kendrick.

(ou seja, bem favorito. Se perder nessa, o backlash será maior ainda)

 

Chris Stapleton, “Traveller”

TravellerO representante country no Álbum do Ano, é uma escolha interessante da bancada. Chris Stapleton está com um debut bem recebido pelo próprio field, num trabalho que tem uma pegada que lembra muito aquelas vozes antigas de country, longe do bro-country e canções falando de mulher, cachaça e festa (tipo sertanejo universitário), e sim músicas mais reflexivas e timeless. Country music não é a minha, mas o “Traveller” é sensacional – acho até mesmo porque não é exatamente um cd de countryzão pesado a la Willie Nelson HAHAHA e sim tem algo rock n’ roll, meio soul, exatamente porque ele vai contando histórias, vai revelando tramas – como boas canções country fazem: elas tem um storytelling fabuloso, e você vai ouvindo e vivendo junto com os cantores aquelas histórias.

Você tem até uma música que fale de bebida (“Tennessee Whiskey”, que tem algo meio soul até), mas se ouvir bem, o Chris não tá falando beeeeem de bebida. Ainda tem “Whiskey and You” (que é um voz e violão maravilhoso, gente tô encantada haha), que também não tá falando exatamente de bebida. Além disso, a voz dele tem uma coisa estranha, diferente, como se ele estivesse cantando bem no seu ouvido e te confessando coisas. É muito agradável e maduro ao mesmo tempo, para alguém que tá começando agora na música.  Só que tem um detalhe especial sobre o Chris Stapleton: ELE NÃO COMEÇOU AGORA. O HOMEM COMPÕE PRA MEIO MUNDO DESDE SEMPRE. Além disso, ele vem participando de grupos country e de bluegrass desde muito tempo, mas só agora parece que tudo sorriu pra ele – especialmente porque, em meio a um desgaste de um estilo que vem parecendo uma paródia de si mesmo há alguns anos, quando alguém lança algo que é refrescante, novo mas que presta homenagem ao antigo, até quem não ouve o ritmo mas gosta de música vê que tem algo ali de especial, de brilhante.

Enfim, se fosse outro ano, outro momento, se não tivesse ❤ Kendrick Lamar ❤ nessa lista, se este ano não fosse tão urgente, eu apostaria minhas fichas no Chris Stapleton, apesar de álbuns country, apesar de todo o respeito que o ritmo tem no States, não fazerem o requisito de Álbum do Ano. É um CD tão bem feito, tão fechadinho, tão gostoso de ouvir e de viajar que eu tô resenhando e me apaixonando a cada faixa. E repito, country nunca foi a minha; mas quando você tem um trabalho tão bem feito (sério, ouçam a faixa-título; “Nobody to Blame”; “More of You”… ), acaba torcendo naturalmente para que o álbum tenha um futuro brilhante.

(sério, que pena que o Traveller tá concorrendo nesse ano)

Taylor Swift, “1989” (resenha em:03.11.2014)

O álbum pop por excelência, direto ao ponto e recordista, além de ter sido o CD que abriu discussões sobre o streaming gratuito na indústria, o “1989” é um dos favoritos à principal categoria do Grammy Cover CD Taylor Swift 1989. Levemente inspirado nos anos 80 (digo leve como eufemismo, porque tem horas em que o CD nem parece ter uma “inspiração” naquela década, o grande trunfo da Taylor, além do sucesso estrondoso na indústria, com direito a três #1 na Billboard, é o fato do CD ter uma coesão absurda, onde as canções conseguem ser boas – mesmo caindo no problema de algumas serem fillers demais pra um indicado a Álbum do Ano, sobressaindo sempre duas ou três canções com potencial para single, mas sem perder a capacidade de funcionar bem como álbum, e não um coletivo de singles, ou uma confusão pra agradar gregos e troianos.

Falarei mais disso depois.

Como resenhei já o “1989” na última postagem, serei breve. Puramente pop, despretensioso e muitas vezes juvenil, o álbum tem fôlego na sua primeira parte e vai caindo de produção até o final da execução, mesmo com as mãos firmes de Max Martin, Shellback, Ryan Tedder, Jack Antonoff (do fun.) e da própria Taylor, habilidosa compositora como poucas no pop, segurando o barco de polaroids. Apesar da terrível “Welcome to New York”, “Blank Space” continua sendo um synthpop genial e auto gazeteiro, “Out of The Woods” é uma composição incrível e “Style” é boa de um jeito estranho – o refrão tem algo estranho que funciona bem pra Taylor e inspirou muita gente com a guitarrinha na levada faux-R&B 80’s que pegou todo mundo em 2015.

Já a segunda parte é um problema. O songwriting da Taylor aqui não sabe se quer ser madura (como em “Clean” e “Wildest Dreams”) ou se quer ser menininha de 15 anos escrevendo no diário (como nas pavorosas “All You Had To Do Was Stay”, “I Wish You Would”, “How You Get The Girl”) – ou se escreve “Bad Blood” (que eu acho boa, mas o mundo acha horrenda haha). Às vezes toda essa despretensão traz problemas, e aqui podem custar muito – mesmo você sendo Taylor Swift.

Mas por você ser Taylor Swift, seu álbum pode ser favorito por ser bom, bem sucedido, Taylor ser querida pela bancada, e ter colocado questões da indústria em discussão pelo bem da manutenção das coisas-como-elas-estão. O problema é que ela está em meio a algo que talvez seja maior e anterior a ela. Uma vitória da Taylor aqui é um problema pro Grammy resolver, e que nem Taylor Swift pode segurar essa marimba.

(e o que Shake it Off faz nessa confusão? Obrigada)

The Weeknd, “Beauty Behind the Madness” (resenha em: 12.09.2015)

Cover CD Beauty Behind the Madness The WeekndOuvir um álbum pelo qual você tem sentimentos misturados é curioso – porque você quer gostar do que não gostou na primeira (ou nas ouvidas posteriores) ao mesmo tempo em que percebe logo onde está o erro do trabalho. O caso do Abel Tesfaye aka The Weeknd é justamente esse: o “Beauty Behind the Madness” é um trabalho com várias faces, uma coesão de temas admirável e acima da média de outras produções do ano, mas parece que atira em várias direções – especialmente por conta do “comando” das produções dentro do álbum.

A primeira parte, mais focada na sonoridade antiga dele, com produções puxadas para um altR&B, é forte e a mais legal do CD – com o foco nos amores problemáticos, relações bisonhas e o Abel dizendo o tempo todo que não presta (quer dizer, essa é a vibe do CD todo né haha), mas a ambientação é um pouco mais obscura e o perigo está por todos os lados – os highlights são a autobiográfica “Tell Your Friends”, a sexual “Often”e o hino dos relacionamentos destrutivos “The Hills”, aquele hit massivo que você nunca pensou que o americano médio ia curtir. São faixas coerentes com a história do The Weeknd, sendo comerciais, mas sem perder a essência do trabalho do cara.

A segunda parte é a Max Martin-oriented,  mais pop, com a quebra de expectativa mais escrota do ano que é “Can’t Feel My Face” e a pergunta que não quer calar – “cadê uma interlude aqui Brasil?”, mas mesmo extremamente pop, ainda funciona bem como álbum (mesmo que não tenha nada a ver com a forma que começou o BBTMM, já que aqui as produções são mais polidas, bem trabalhadas como pop songs e feitas para hitar). As highlights aqui são evidentemente “Can’t Feel My Face”, “Earned It” (que não é do Max Martin, mas vamos dizer que perdidinha nesse CD acabou ficando aqui mesmo), além de “In The Night”,que parece uma música perdida do Michael Jackson na era Bad.

Com “As You Are” entram algumas canções R&B/altR&B/pop que não fazem muito sentido com o resto do álbum, mas tem gemas lindas aqui, como “Dark Times”, o dueto com Ed Sheeran, que é muito bem trabalhado, “Prisioner” (com a Lana Del Rey, em que eles ficam disputando quem é o mais emocionalmente ferrado) e Angel, com essa pegada pop/rock anos 80 a la power ballads do Foreigner que combinaram bem com a voz do Abel.

Na busca pelo sucesso, The Weeknd criou uma colcha de retalhos que, apesar de liricamente falando funcionar bem pra gente entender um pouco a mente perturbada do rapaz, acaba sendo bem complicado pra definir como “álbum do ano”. É como se ele jogasse algumas cartas para não chatear os antigos fãs, depois outras cartas para conquistar os novos fãs, e incluir os featurings high profile no álbum pra chamar buzz. Funciona no field, já que o “Beauty Behind The Madness” é um bom álbum, apesar de tudo, e foi um sucesso estrondoso. Mas pra Álbum do Ano? Tinha que decidir pra que caminho seguir, e a quem ser fiel.

(não dá pra ser indie e ficar de amores com o produtor mais comercial do mundo)

Hora de correr para o Grammy, então espero que minhas previsões funcionem aqui

 

Até logo!

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