Problem com anabolizantes: “Focus”, Ariana Grande

Cover Ariana Grande FocusAriana Grande é uma das artistas com mais abrangência com o público jovem atualmente. Já distante de seus dias de Nickelodeon, a cantora e atriz possui uma base de fãs fiéis, capaz de colocar a moça em primeiro lugar no chart digital com seus singles e fazê-la vender uma quantidade interessante de álbuns em era de stream (exceto Adele, porque Adele é um furacão). E para manter o nome quente, sempre em evidência, num pop em que artistas aparecem e somem num estalar de dedos, lançar trabalhos de forma sequenciada é importante. Rihanna se notabilizou por todo novembro lançar algo novo; durante anos, Mariah Carey lançou CD todo ano. E com a Ariana, não é diferente.

Especialmente após o infame episódio do “Donutgate”, em que ela foi flagrada por câmeras de segurança lambendo em doces que ela não havia comprado, foi necessário por parte dela e do empresário da moça, Scooter Braun, realizar um gerenciamento de crise para manter a imagem fofa dela. E qual a melhor forma de fazer isso com música?

Como Ariana já estava começando o processo de produção e composição de seu novo álbum, “Moonlight”, era óbvio que o single seria lançado após um tempo em banho Maria e a famosa “limpeza de imagem”. Para aproveitar as vendas do final do ano e óbvio buzz no público teen, Ariana fez um countdown para lançar o novo single, “Focus“, para ampliar a expectativa (apesar da Adele), e para aproveitar os streams + vendas digitais (mesmo em franca decadência, apesar de… ah, deixa pra lá), a equipe lançou single e vídeo no mesmo dia.

O resultado? O melhor vídeo da Ariana para uma música que poderia ser um nível acima do que ela tinha apresentado com “Problem”.

Não dá pra dizer que estamos falando de uma música sem potencial de hitar. “Focus” é composta pela própria Ariana em parceria com Savan Kotecha, Ilya e Peter Svensson, que já tinham trabalhado com ela em “My Everything” e estão por trás de alguns dos hits da cantora, além da produção do Ilya e do indefectível Max Martin. Além disso, com uma vibe bem up, pop com uma pegada R&B leve e alguns sintetizadores no pré-refrão, a música explode num break com um vocal rapper chamando “focus on me” entremeado por um naipe de metais que nunca deixa a canção perder o ritmo.

Tirando os sintetizadores, o rapper quase chamando a Ari e a ausência de um featuring, eu poderia jurar que estava ouvindo “Problem”, lead-single do segundo álbum. A estrutura das duas músicas, tanto no sentido de produção quanto em ritmo e uso dos instrumentos, é extremamente parecida. Mas enquanto “Problem” era uma novidade – tudo naquela faixa era fresh, renovado, trendsetter, com uma rapper em ascensão e uma artista finalmente se apresentando ao grande público, aqui parece comida requentada, ou figurinha repetida. Nem sempre a ideia de “em time que está ganhando não se mexe” funciona, especialmente em se tratando de música pop. Decepcionante para quem mostrou evolução e inteligência do “Yours Truly” para o “My Everything”, conseguindo um som mais pop mas sem perder sua identidade mais R&B.

Já o vídeo, dirigido por Hannah Davies (com quem Ariana já trabalhou em “Love Me Harder”) tem uma curiosa paleta de cores meio fria (entre azul, um violeta meio rosa e violeta), com um break em preto e branco que torna o vídeo visualmente interessante. O ar futurista e “clean” lembra muito os vídeos do fim dos anos 90/início dos 2000 no pop, onde os vídeos eram situados num futuro sempre em formato redondo e “limpo”, “chapado”, sem relevos – mantendo aquele ar vintage pelo qual a Ari já era conhecida desde o primeiro álbum – aquela artista dos anos 2010 que rende homenagens à sua infância – os 90’s, 2000’s, mas sem soar datada. O cabelo azul quase branco, às vezes rosa bem claro, até funcionou no rosto já de boneca da Ariana, mas o que me incomodou mesmo foi o fato dela, que possui um rosto muito juvenil, aparecer sensualizando sem parar o vídeo todo.

Como ponto positivo, pela primeira vez a Ariana aparece mais confortável num vídeo, dublando com mais confiança.

Nos charts, se descontarmos VOCÊ-SABE-QUEM, a Ari tem fortes chances de conseguir um top 3. A música tem cara de hit, um grande potencial, os fãs vão comprar a faixa sem parar no iTunes (neste momento ocupa a honrosa segunda posição) e será uma das faixas mais ouvidas nos serviços de stream. Além disso, Ariana lançou num bom momento: final do ano, boas vendas e premiações relevantes à vista para a faixa ser performada. E lembrando que como a equipe da moça não brinca em serviço, veremos a Ari performando “Focus” até na lojinha de donuts mais próxima.

Ariana-Grande-Focus video

Pena que a serviço de uma música tão aquém das possibilidades da moça…

Hello, it’s Adele… Finally.

A diferença de idade entre eu e Adele é de dois anos. Quando ela surgiu com o “19”, eu ainda era uma adolescente meio chata que achava saber muita coisa do mundo mas não sabia a metade – e na época, não tinha aproveitado o álbum (Só conhecia “Chasing Pavements” e pronto). Aos poucos, fui ouvindo o debut da britânica tímida que tinha uma aparência fora dos padrões do pop e compunha sobre seus sentimentos de uma forma confessional, e que conseguia atrair um público além da minha faixa etária. A sua voz, que ecoava alguém de muito mais idade, não tinha me cativado tanto quanto eu esperava (especialmente por, na época, vir bombardeada de informações sobre a Adele ser vendida como uma “nova Amy Winehouse” pelas vozes parecidas – o que é uma injustiça e uma inverdade para ambas as artistas). Mas eu precisava de tempo.

E tempo, para Adele (e pra mim), é algo que muda, movimenta, catalisa, sepulta as coisas.  Quando eu estava me acostumando com a versão fabulosa de “Make You Feel My Love”, ela aparece com um soco no estômago – “Rolling in The Deep” e todas as emoções de um amor fracassado, traições e resignação pelo fim, tudo envelopado num dos melhores álbuns pop da década, o “21”. Nesse período eu acompanhava melhor música e era uma universitária um pouco mais consciente dos meus (parcos) privilégios, tentando me descobrir como “adulta” em meio às primeiras escolhas profissionais e pessoais. Nunca tinha passado pelas emoções absurdas vividas pela Adele no CD, mas a história dela, a interpretação e as letras tinham um caráter universal. Algum dia, em algum ponto da minha vida, eu poderia passar por alguma decepção amorosa e aquele seria o álbum pra me ajudar na cura disso. “21” está guardadinho com esse objetivo (que espero, fique no campo da hipótese).

Após a trajetória meteórica e brilhante de prêmios, reconhecimento e #1’s, Adele deu um descanso da voz e de todas aquelas emoções. Um marido, um filho, e todas aquelas coisas comuns e tradicionais que as pessoas definem como “vida de adultos”. E quando ela volta calmamente, sem muito esforço, com poucas mensagens e a carta sobre o motivo do seu novo álbum se chamar “25”, o que a Adele escreveu deu um estalo na minha mente. Como se o que ela falasse e o que eu sentisse, mesmo com esses dois anos de diferença, finalmente fizesse sentido pra mim. Quando ela diz: “I miss everything about my past, the good and the bad, because it won’t come back“, é como se ela estivesse falando de mim, das coisas que eu sempre senti falta, das histórias do passado, de não ter responsabilidades, de tudo ser mais simples, de não andar numa corda bamba entre as máscaras de quem você é e de quem você precisa ser diante dos outros. Aí eu entendi que esse álbum “25”, pode ser pra mim, finalmente. Que eu finalmente posso aproveitar plenamente o que Adele tem pra me oferecer porque ela escreveu no momento em que vivo atualmente, com as dúvidas e certezas de quem ainda se recusa a perceber que se tornou adulta.

Mas é hora de falar de “Hello“, o poderoso novo single da britânica, composto junto com Greg Kurstin, conhecido pelos trabalhos com P!nk e Kelly Clarkson. Ao contrário das produções mais acústicas do “19” e das batidas mais marcadas que fizeram parte do inconsciente coletivo do “21”, “Hello” tem uma produção simples, com algo orquestrado. Uma balada pop com tons épicos e uma letra confessional, pode parecer destinada a um ex-namorado, sobre conversar a respeito do passado e se perdoar – mesmo que o rapaz não esteja tão disposto a isso. No entanto, outra hipótese diz que a música se refere ao pai de Adele, que abandonou a família quando ela era pequena, e os dois estavam ensaiando uma reaproximação. Essa habilidade de, com simplicidade, compor músicas que se relatem a qualquer situação e sejam identificáveis com qualquer um, tornam a música da Adele universal – e como esse apelo atinge a todas as idades. Quem nunca teve que lidar com relações fragmentadas? Com alguém com quem você não se dá há algum tempo e sente a necessidade de retomar o contato, nem que seja pra pedir perdão?

A interpretação da Adele ajuda muito nisso – com sua voz evocativa, que supera os seus atuais 27 anos, ela parece vinda de um outro tempo, uma mulher de mais idade rememorando um passado que pode servir a todos nós.  O vocal da britânica, que começa como se fosse um bate-papo cantado nas estrofes, explode num refrão maravilhoso, mostrando que a voz da Adele está tinindo, melhor do que nunca, e como vinho.

De fato, a melodia da canção explode mesmo no último refrão após a bridge, mas o vocal da britânica já faz todo o trabalho de te situar lá atrás.

E como ser #1 é o que a gravadora quer, no fim das contas, já foi lançado logo o vídeo de “Hello”, dirigido por Xavier Dolan. É Adele sendo Adele – clássica, emocional e timeless.

 

 

Previsões para o Grammy 2016 – The Madness Edition

A melhor coisa sobre as especulações em torno do Grammy é justamente essa época do ano – quando vazam as submissões enviadas pelas gravadoras à bancada de jurados, para a partir daí, eles fazerem o corte final dos indicados ao prêmio mais famoso da música. A partir dessa lista, a gente já pode fazer especulações mais direcionadas e tentar pensar quem serão os indicados de fato para o Grammy.

Eu tinha feito uma previsão anterior no final de julho, baseado no que já tinha sido lançado até aquela data. Mas nos últimos dois meses um verdadeiro turbilhão passou pela música pop, e não dá pra negar o peso dessas mudanças no xadrez que são as indicações ao Grammy. Por isso, como a minha análise se restringe ao pop field, basta dizer que, além dos indicados já serem de domínio público, algumas adições bem curiosas no Big Four precisam ser ressaltadas. Por isso o subtítulo do post ser “The Madness Edition”

Para bom entendedor…

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A transição inteligente de Selena Gomez em “Revival”

Cover CD Selena Gomez Revival Selena Gomez não é a melhor cantora a surgir da Disney. Com um vocal limitado e sem a potência de sua amiga Demi Lovato ou mesmo Miley Cyrus, seus álbuns anteriores junto com a banda The Scene sempre tiveram como base o dance-pop, com faixas que funcionavam bem com a voz da jovem. Trabalhos sólidos, mas ainda com aquela marca de “estrela Disney”. A transição para artista adulta começou aos poucos, com o primeiro álbum solo, “Stars Dance”, um esforço pop/dance/EDM um tanto irregular, que apesar de feito de forma inteligente, mostrando as facetas mais maduras da Selena e um pouco de sensualidade, soou datado – especialmente quando a Miley 2.0 explodiu com “Bangerz”.

Um namoro conturbado com Justin Bieber e uma série de fofocas de tabloides, além de uma carreira ainda em ascensão no cinema de alguma forma dividiram as atenções da Selena, mas a troca de gravadora e um tempo longe dos holofotes, cuidando da saúde (ela tem lúpus e passou por um tratamento) deu um senso interessante à jovem. Agora contratada pela Interscope e com mais liberdade criativa, Selena decidiu continuar a transição para artista adulta de uma forma diferente de suas peers da Disney. Enquanto Miley associou sua imagem com controvérsias, aliando as polêmicas à música (ou seja, não expondo A e cantando B) e conseguiu se desvencilhar da imagem de “estrela teen” com sucesso; e Demi ainda tateia sua imagem adulta mesmo com músicas ainda meio adolescentes; Selena segue um caminho muito particular (e inteligente) com seu novo álbum, “Revival” – ela pretende expor os dilemas de uma jovem mulher crescendo em meio a relacionamentos complicados e tentando superar os problemas que a vida apresenta. Como qualquer outra pessoa de 23 anos.

Mais detalhes no faixa-a-faixa a seguir:

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Tinashe – Player (feat. Chris Brown)

Cover Tinashe Player feat. Chris BrownO segmento R&B feminino acabou se tornando um local de nicho: ou você fica restrita às rádios do gênero, esperando uma oportunidade de lançar um single crossover para ser ouvido pelo grande público; ou os nomes antigos tentam misturar R&B e pop para recuperarem o público perdido.

Ou você é a Beyoncé.

Ou você não tem definição e está numa categoria só sua, tipo a Janelle Monaé.

Quando a Tinashe surgiu como um furacão, com a deliciosa “2 On”, além das letras sensuais e o clima sexy do debut “Aquarius”, ela foi vista como um dos sopros de renovação do gênero. Ao contrário do estilo “diva do vozeirão”, já consagrado pela Bey, a jovem cantora e compositora bebe da fonte dançante, das vozes com menos potência, a fonte de uma Ciara, que no fim é a inspiração vinda da Janet Jackson.

Bonita, talentosa, ótima compositora, com presença de palco invejável e ótimas coreografias, Tinashe estava pronta para estourar. No entanto, talvez pelo conteúdo menos palatável das músicas ou pelo fato das músicas serem “pouco crossover”, o grande público não seguiu as críticas elogiosas dos grandes sites e revistas. Por isso, a própria Tinashe decidiu, em seu segundo álbum, lançar um CD com potenciais sucessos e se tornar um nome forte na popsfera.

Além de ter se unido com o midas pop, Max Martin (e o Dr. Luke), Tinashe optou por lançar como lead-single do “Joyride” (o nome do segundo CD) uma faixa mais pop com featuring de um dos nomes mais conhecidos do cenário urban/R&B, o controverso Chris Brown. Ou seja – uma faixa com apelo universal mas sem alienar a fã-base: “Player

A faixa consegue ser mais pop que qualquer coisa do “Aquarius”, que tinha uma ambientação muito específica, em som e letras. Bem mais pop que os singles mais pop da Tinashe (“2 On” e “All Hands on Deck”), tem uma estrutura que começa numa pegada meio mid-tempo urban/R&B e explode num refrão pop dance-y (que me lembra muito esse electro-R&B oitentista que andou hitando em 2014-15 tipo “Love Me Harder” e “Good Thing”), uma atmosfera sexy sobre romance e sexo mas de uma forma palatável e a depender da radio edit, não perde o sentido da música – todo mundo pode ouvir. Aqui, Chris Brown não aparece na sua versão cantor (exceto no refrão, onde dá pra ouvir a voz de fundo do rapaz), e sim numa pegada mais “rapper”.

“Player” consegue cumprir bem o objetivo de apresentar uma Tinashe mais pop mas sem perder seu crédito urban R&B, até mesmo com um featuring bem colocado do Chris Brown (que não é exatamente um dos meus artistas favoritos), que aparece não como um convidado “forçado” na música, e sim um complemento à relação que é contada na primeira parte da canção pela Tinashe. A faixa é grower e tem chances de hitar muito nas rádios R&B – além de fazer boa figura nas rádios pop, já que 2015 é o ano em que ninguém sabe exatamente o que tá hitando de verdade – já teve pop puro, R&B, hip hop, funk, EDM e até dance tropical. Evidentemente, se a gravadora colocar a moça nos principais programas, nas premiações e até divulgando na feirinha da esquina, já que 1. a Tinashe só é conhecida de um público de nicho; e 2. a música não é exatamente a explosão que se espera da moça.

A estrutura de “Player” é muito esquisita – parece que são três músicas em uma (como se ela e os produtores pensassem em algo que misturasse as influências R&B/urban dela com uma pegada pop pra chamar o grande público mas ao invés de fazer isso numa música só, pegaram colagens de melodias diferentes que custam a funcionar como uma unidade), o refrão é grower mas pop demais pro resto da canção, e eu sinceramente não consigo imaginar uma coreografia destruidora pra essa música como a gente já viu outras vezes da Tinashe. Eu tô tentando gostar muito da música, tentando achar incrível, mas fiquei com a sensação de que podia ser melhor como o “estouro” dela no mercado pop.

(e não, essa não é produção do Max Martin). (e sim, é produzido pelo Max Martin. Não foi um dos melhores momentos dele, aliás)

(pior que eu sei que vou ouvir horrores a faixa, cantar juntinho o pré-refrão, mas sempre com a sensação de que “podia ser melhor”)

E você, gostou de “Player”?