IT’S BANJO TIME! “Man of the Woods”, JT

Você sabe o que esperar de Justin Timberlake: pop/R&B de primeira, com toques eletrônicos e de funk, e o toque futurista de Timbaland. Mesmo no álbum mais “clássico” do JT, o “20/20 Experience”, as músicas grandiloquentes possuíam o charme R&B e as desconstruções do Timbo em full force.

Geralmente, quando a gente tem um artista que com uma ou outra alteração, se mantém fiel à sua persona, ele tem a certeza do que quer e de suas limitações. Caso ele ou ela saia da sua zona de conforto, essa inquietação tem pontos muito seguros, porque o artista não tem interesse em alienar a sua fã-base; tampouco vai ficar no meio do caminho em sua quebra de expectativas – ou pior: vender “novidade” mas nada em seu som ou imagem determinam algo novo; e o que foi vendido como “novo” é só uma notinha de rodapé que não interfere em nada no conceito.

(mas não tô falando do Timberlake)

“Man of The Woods”,  quinto álbum solo do “presidente do Pop”, é uma tentativa de mesclar as sensibilidades pop/R&B do astro com um toque country. Com direito a uma divulgação de uma imagem “wild west… but now”, track list que inclui músicas como “Flannel”, “Montana” e “Livin’ Off The Land”, era de se esperar algo surpreendente e histórico, ou uma bagunça monumental.

O resultado foi mais para bagunça – e nem precisou ouvir o CD todo: “Filthy”, o primeiro single, já começou a bagunça e provou que alguma coisa estava muito errada no reino do Timberlake, que só foi se ampliando com a TENEBROSA “Supplies” e a opaca “Say Something”, desperdício de Chris Stapleton. O pior é que nada salva neste álbum, onde a coisa mais country que você pode encontrar é um fucking BANJO inserido aleatoriamente em metade da 16 músicas desse CD cansativo e muito, muito ruim.

São as letras medíocres, como a faux-hospitalidade sulista de “Midnight Summer Jam” soa pouco sincera saindo de uma das vozes mais associadas ao mainstream hollywoodiano e o glow da vida de estrela possível; o refrão sem sentido da faixa-título; “Livin’ Off The Land”, que parece um protótipo country de “Livin’ on a Prayer” que deu muito errado). Os arranjos repetitivos (a maior parte das produções dos Neptunes parecem uma longa e imensa música que se parece); músicas que não combinam com o vocal do Timberlake – que tem suas óbvias limitações, mas disfarçado pelo fato dele ser um ótimo intérprete – por exemplo, em “Morning Light”, com Alicia Keys, tem um arranjo meio soul meio reggae-ish que é gostoso, e mesmo com a letra pedestre, uma Beyoncé, J-Hud e um Usher teriam melhores resultados num hipotético dueto porque as vozes deles tem SOUL, e não soam flat e deslocadas como JT e Alicia. Pior é que o Justin soa em todo o CD cantando como ex-membro de boy band que acabou de lançar álbum solo, e não um cantor maduro e interessante (o maior exemplo disso é no refrão medíocre de “Man of The Woods”, que estraga uma faixa com ótimas ideias).

(okay gente, e se esse CD for uma elaborada cara e extensa PEGADINHA DO MALANDRO? porque só isso explica ISSO)

Whatever.

A única música que realmente me deixou animada pra alguma coisa foi “Montana”, que apesar do título horrendo, é uma música genuinamente boa, sexy e a vibe disco-funk retrô é sempre um plus (você já sabe que linha de baixo retrô is my weakness).

Se todo o álbum tivesse pelo menos  O ESPÍRITO… ou fosse MENOR.

Em geral, a palavra que define “Man of The Woods” é “insincero”. Vende-se uma imagem “woods”, “wild”, “roots”, “country”, e no fim do dia it’s the same old pop/R&B álbum só que com as letras mais pedestres possíveis. Só que para dar um ar ~country~ me enfiam um BANJO como se isso desse o mesmo efeito do Timberlake yodeling (o que thank god ele não teve a pachorra de fazer).

(até o “Joanne” captou melhor a vibe)

Mas não vou me alongar muito neste post porque como diz um grande pensador contemporâneo, Sometimes, the greatest way to say something is to say nothing at all.

Anúncios

Pós-festa: Grammy Awards 2018

Não queria ser a pessoa que diz “eu te disse”, mas… Eu te disse.

A vitória (que podemos chamar de shocking upset) de Bruno Mars na 60ª edição do Grammy Awards ocorrida ontem à noite (domingo, 28) foi uma surpresa pra muita gente – seis Grammys, uma verdadeira limpa, com três vitórias no Big Four – e colocou o havaiano na lista dos Grammy Darlings como Adele, além de 11 vitórias em casa e um dos artistas mais populares e celebrados da década. No seu field, ele era o favorito para levar, e nós já tínhamos ventilado que o rapaz tinha chance de levar em Song of The Year, além de ser o principal rival de Kendrick Lamar no prêmio de Álbum do Ano.

Tudo isso foi falado e discutido tanto no Drops quanto nos posts do blog. E não deveria ser uma surpresa. Quer dizer, na hora em que o nome “24k Magic” deu as caras em Record, eu comecei a ver a “solução Lionel Richie” se formando. Mesmo antes, quando saíram as premiações que seriam dadas no pre-telecast (a premiação que não é televisionada), deu pra ver o que ia acontecer. Você imagina, prevê, mas pensa que vai acontecer o oposto.

(na verdade, a derrota do Kendrick Lamar estava escrita na estrelas desde 28 de novembro, quando a Academia revelou os indicados finais e em AOTY tinham dois álbuns de rap)

Mas eu não pretendo falar mal dos indicados e sim tentar apontar o resultado dentro de um contexto.

 

Tensão x escapismo

O Grammy é um prêmio da indústria, e como tal, deve congratular quem vendeu e trouxe credibilidade a ela. Ao mesmo tempo, é uma premiação que ainda não consegue refletir o espírito do tempo (como surpreendentemente o Oscar consegue, mesmo com tantos problemas de representatividade). Ano após ano, álbuns academicamente perfeitos para os jurados vencem outros que são mais inventivos, ou mais de acordo com o inconsciente coletivo (seja musicalmente ou na tradução de inquietações sociais ou pessoais), e este ano, quatro desses indicados representaram isso bem – e a própria premiação tentou captar o “espírito do tempo” com apresentações carregadas de política e statements fortes em discursos.

Mas então, por que o grande vencedor era o álbum mais leve?

(e por que o vencedor no pop field foi justamente o cara que esnobou a premiação por birra? essa é uma pergunta que infelizmente não saberei a resposta)

Sobre a vitória do “24k Magic”, por mais que seja o álbum mais “fraco” entre os indicados, ainda é um dos mais populares, e com um apelo que atravessa gostos musicais pessoais, já que o Bruno é um artista que atinge todas as idades. Mas acima de tudo, é um álbum escapista, que usa de nostalgia dos anos 80 como memória afetiva, uma válvula de escape para uma época mais inocente e sem problemas (como boletos). É um álbum seguro das tensões e problemáticas de um “DAMN.”, “4:44”, “Awaken, My Love!” ou mesmo a inquietação sentimental do “Melodrama”. É um álbum divertido, fresh e agradável como uma brisa; é a hora de esquecer por um instante que o mundo tá a um passo de acabar e dançar, nem que seja só um pouco.

Só que era o ano para falar de tensionamentos. De tomar uma postura. De gritar contra o racismo, machismo, a xenofobia, e dar o prêmio a “Despacito” como A Gravação do Ano (e que visivelmente foi tratado como uma “modinha de verão” e não como single sólido e vibrante, fresh, vivo, moderno, current, que sempre foi). E premiar o “DAMN.” como Álbum do Ano porque Kendrick conseguiu fazer sucesso com um álbum comercial do jeito dele e falando de assuntos sérios como black excellence, black experience e política sem perder o flow.

(afinal de contas, o que mais é necessário para Kendrick ganhar esse treco?)

Em Song, eu não daria o prêmio para “Hotline Suicide”, honestamente. A música é importante, mas ruim, os versos são clichês e a escrita pedestre. Por incrível que pareça, o Grammy está em boas mãos – a estrutura de “That’s What I Like” e a forma como foi construída é brilhante.

***

Mas voltando ao assunto principal, enquanto o Grammy Awards tentou se conectar com o que acontecia numa premiação bem irregular aliás (foram inúmeras apresentações e quase nada de prêmios entregues), falhando miseravelmente em tomar uma postura mais forward-thinking em relação aos vencedores, qual é o problema, afinal de contas?

 

O problema não é individual. É estrutural.

Não é culpa do Bruno Mars (artista aliás que nutro uma profunda admiração e deve ser uma das pessoas mais talentosas a pisar naquele palco). Ou da Adele. Ou dos stans no twitter.

Pensa no seguinte: a situação já estava formada quando definiram os finalistas e haviam dois álbuns de rap pra dividir votos. Dentro dos jurados já existia um viés, e os jurados (que são produtores, executivos, músicos, artistas) representam o microcosmo de toda a indústria musical. Como essa indústria, que a cada dia que passa é SURRADA pelo streaming, ainda está tão fora de contato com a realidade? O rap é o gênero mais ouvido pelos americanos, os artistas que mais bombam no Spotify são rappers; as músicas mais vistas no YouTube são latinas! Por que cargas d’água o Grammy não reflete isso em suas vitórias?

Por mais que o “24k Magic” seja um CD de R&B extremamente consistente, e eu nem me lembro mais da última vez em que um álbum de R&B levou o prêmio, sabemos que muita da exposição do R&B neste ano com o Bruno se dá pelo fato de que, apesar dele não ser branco, ele não é negro (Bruno tem pai portorriquenho e mãe filipina), mas há uma ambiguidade suficiente para que o público geral o leia como negro. Ou seja, a indústria continua dando apoio o R&B se não é feito por negro. As gravadoras ainda tem resistência absurda para cantoras negras de R&B; o R&B sem influência urban ou rap (há muitos puristas que detestam o R&B feito por SZA e Khalid) inexiste de forma crossover se você não se chama Bruno Mars (e tem gente fazendo esse som por aí mas nem as rádios do field dão apoio). E aí? Como dizer que determinados gêneros são rejeitados no Grammy se a própria indústria nega esse apoio?

A própria indústria cria feuds desnecessários entre rappers femininas.

A própria indústria alimenta que só tenham duas cantoras negras na cena.

A própria indústria trata acts latinos como “modinhas” e a música latina como “a outra”. (e quando você descobre que o Bruno Mars teve problemas antes da fama porque queriam colocar ele como artista latino por causa de um sobrneome e ele queria cantar pop, você entende que a indústria ainda pensa como se vivêssemos nos anos 70)

A própria indústria – e seus apoiadores, como veículos de mídia – alimenta feuds femininos no pop, questiona créditos femininos, coloca as artistas em caixinhas, explora seus trabalhos para depois arrotar hipocrisia no twitter (sim, Sony Music!)…

O problema é mais do que um indivíduo, é da indústria musical como um todo, e que ano após ano alimenta falsas esperanças de que finalmente veremos um Grammy com reflexo do que as pessoas realmente curtem, do que está lá fora, e opta pela válvula confiável de escape (tanto na sonoridade quanto na temática ou na imagem), pra dizer “we are soo woke y’all!”.

 

Qual a solução?

É necessário o Kendrick Lamar lançar um CD de rap que não pareça rap pra levar o prêmio (a la OutKast?) Precisam os grandes nomes boicotarem a premiação para alguém fazer alguma coisa? Eu particularmente não tenho respostas manifestas aqui, só estou tentando pensar (e nem li outras thinkpieces nem olhei o twitter que deve estar uma loucura até agora),  e nem acho que o boicote seja a solução – a ausência de acts mais inventivos no Grammy o tornaria mais fora da realidade do que ele é.

Entretanto, espero sinceramente que, qualquer que seja o retorno do público, de articulistas e de outros membros da indústria sobre o prêmio de domingo, os membros do Grammy tenham a decência de ouvir, absorver e tomar decisões não apenas olhando para si, para suas convicções; e sim para o que há lá fora. O Grammy sempre foi o prêmio da indústria para refletir os artistas mais bem sucedidos em diversas esferas, e não o prêmio para a indústria fazer o discurso diante do próprio espelho.

 

Agora é com vocês! Acompanharam a premiação ontem? O que acharam dos vencedores? Fiquem à vontade para comentar!

Como chegamos aos indicados a [4] Melhor Álbum Pop

Essa é uma pergunta que mesmo às portas do Grammy, eu não sei bem como responder – especialmente dadas as esnobadas aqui e ali, e a construção do Big Four. Mas de maneira geral, os indicados nesta categoria são os indicados de um período em que o pop prosseguiu sendo uma nota de rodapé no zeitgeist musical, enquanto o rap e o urban dominavam (e ainda dominam) a cena.

Exceto por Ed Sheeran, evidentemente o último pop star que restou (o resto ou flopou ou underperformed ou está no R&B), os outros grandes nomes trouxeram trabalhos cujos resultados não causaram grande impressão. Katy Perry, o pior caso, até trouxe um CD interessante (eu já disse que gosto do “Witness”, só acho a playlist bagunçada e o CD longo, com fillers desnecessários), mas nada rendeu – exceto pelo lead single, “Chained to The Rhythm”. Miley Cyrus flopou forte, mas foi tão anticlimático que nem foi punchline na pop culture. Selena não lançou CD (e quem sabe quando lançará), Demi fez sucesso com “Sorry Not Sorry”, mas isso não se traduziu em indicação…

Lady Gaga na verdade ressuscitou para o grande público com o Superbowl (o que eu acho que será o caso do Timberlake); enquanto Kesha trouxe um dos grandes álbuns do ano que deveria ser mais ouvido – mas a RCA tem uma inabilidade ridícula com divulgação.

No entanto, a questão não é só os materiais dos artistas atuais não serem interessantes de fato em relação à variedade e inquietação do rap/urban atual. O próprio pop parece em meio a uma fase down, pra baixo, com refrões focados mais no grave que no agudo, e pouca diversão. A música pop, mesmo quando é “politizada”, é escapista, divertida e quer te fazer dançar – e nada em 2017 no pop me fez querer dançar (e o sucesso dos ritmos latinos e latino-oriented como “Havana” mostra que as pessoas desejam escapismo de tempos controversos). Tanto que enquanto o rap conseguiu divertir e ser conceitual ao mesmo tempo (onde Kendrick e Migos conviveram em harmonia), o pop quis ser “conceito” – até mesmo com acts que nunca venderam conceito – e agora precisam recorrer ao urban para reencontrar a notoriedade perdida.

Enquanto 2019 não chega com o retorno do pop a momentos mais felizes (o que venho duvidando bastante com o tipo de material que os a-lists vem lançando), hora de conferir o que restou ao Grammy para lidar com o momento no tempo.

Em primeiro lugar, os indicados ao prêmio de Melhor Álbum Pop:

Coldplay – Kaleidoscope EP
Lana Del Rey – Lust for Life
Imagine Dragons – Evolve
Kesha – Rainbow
Lady Gaga – Joanne
Ed Sheeran – ÷

A análise de cada álbum segue com o pulo:

Continuar lendo

Drops Grammy 2018 [5] “24k Magic”, Bruno Mars

Lionel Richie ganhou o Grammy de Álbum do Ano em 1985 com o “Can’t Slow Down”, um álbum pop respeitável com clássicos como “Hello” (is it me you’re looking for?) e “All Night Long”. A vitória de um dos artistas mais populares e acessíveis da música pop mundial é sempre um bom momento; no entanto, muitos acreditam que o triunfo do Lionel foi uma “safe” choice da Academia diante de CDs mais fortes como “Born on the U.S.A”, de Bruce Springsteen; e “Purple Rain”, do Prince, que concorriam no mesmo ano (completavam o lineup Cyndi Lauper e Tina Turner).

Essa situação parece se repetir em 2018 – o último candidato a ser analisado é o Bruno Mars e o seu “24k Magic”, álbum R&B com inspiração nos anos 80 e 90 que une justamente aquilo que a Academia quer num vencedor: um som bem visto pela crítica, de sucesso e com um artista com forte apelo popular e bom trânsito entre os fields.

No entanto, a “solução Lionel Richie”, segura e infalível para os votantes do Grammy, pode ser um problema grande num contexto geral de vitórias e derrotas em Álbum do Ano. Quer saber o motivo? É só conferir o vídeo!

 

Drops Grammy 2018 [4] “Awaken, My Love!”, Childish Gambino

O Grammy Awards está bem perto (faltam menos de duas semanas para a grande noite) e o Drops Grammy 2018 chega ao clássico momento indie dos indicados a Álbum do Ano. O Grammy sempre cotiza uma parte dos indicados para os artistas alternativos desde os tempos do Beck (que até ganhar com o “Morning Phase”, tinha batido na trave umas duas vezes), Radiohead, The White Stripes, Arcade Fire, Alabama Shakes e aquele ano em que todo mundo era indie, pop ou não (2013, com a vitória do Mumford & Sons).

Para 2018, esse espaço é ocupado com glórias merecidas por Donald Glover aka Childish Gambino. Ator, rapper, roteirista, diretor e um dos caras mais queridos da turma nerd/geek e do pessoal que acompanha cultura pop, ele surpreendeu todo mundo com o cuidadoso e incrivelmente bem-trabalhado “Awaken, My Love!“, tomando emprestado referências do funk e do soul dos anos 70 com uma vibe surpreendentemente futurista. A indicação em Álbum do Ano, apesar de surpreendente (já que muitos garantiam no mínimo o single “Redbone” no Big Four), não é injusta – é um grande CD.

Mas será que o CD mais “diferentão” do corte final tem alguma chance nessa premiação? Dê play no vídeo e confira!

Como chegamos aos indicados a [3] Gravação/Canção do Ano

Eu acompanho Grammy Awards desde 2007 (ano em que as Dixie Chicks fizeram aquele baita comeback com “Not Ready To Make Nice”), mas de uma forma mais consciente a partir de 2011. Nessa época, eu já curtia música observando os charts e resenhas; e por causa desse tempinho assistindo ao Grammy, talvez eu nunca tenha visto uma disputa tão imprevisível como este Big Four de 2018. Honestamente, não me lembro de categorias com tantas possibilidades (e pior, sem favoritos em categorias-chave como Canção do Ano) e com favoritos que são tão diferentes do que se premia usualmente. Não tem um pop puro (que seria cortesia de “Shape of You”, bem ou mal merecedor ao menos de ROTY) – o que mostra em que momento esteve a música pop entre 2016 e 2017; os indicados são de minorias (três negros, três latinos – um deles com ascendência asiática) e o único branco é canadense. As sonoridades – rap, R&B, soul e reggaeton – são fruto dessas minorias e absolutamente representativas do estado da música nesse período. É evidente que o Grammy não virou “woke” do nada (e suspeito que para 2019 voltaremos aos mesmos números de antes, exceto se tivermos um álbum absurdo da Cardi B, a Camila conseguir se manter no topo este ano e a Nicki arrombar a festa), e é importante chamarmos a atenção para as construções de narrativa que foram feitas pra chegar a esse diverso, criativo e muito talentoso grupo de indicados; mas mesmo que muitos reclamem de como chegamos a este corte final de Gravação e Canção do Ano, é inegável que é uma lista respeitável e um reflexo exato do que houve na indústria. A proximidade é real.

Apesar de considerar o lineup de Canção muito light, muito suave (tem música com “mensagem” mas a faixa melhor trabalhada é a do Jay-Z), o fato é que estamos falando mais uma vez de um grupo diverso etnicamente e por idades, sonoridades e influências, o que é um espelho também da sociedade americana e de certa forma, um espelho nosso, tão globalizados e ao mesmo tempo tentando nos identificar com algo, ou alguém. No fim das contas, quem “forçou” ser “too-american” não conseguiu seguir em frente (sim, Lady Gaga), e quem não tinha nenhuma identidade bateu na trave (você mesmo, Ed Sheeran), ficando aqui quem tem alguma conexão com o zeitgeist, seja musical ou cultural.

Neste post, dividido em dois, vou falar um pouco sobre o contexto das indicações a Gravação do Ano (em que a emergência de excelentes músicas e grandes hits amplia o desafio de uma bancada com seus vieses em premiar canções com sonoridades rejeitadas pelo júri conservador) e Canção do Ano (onde a falta de um favorito pode ser a dica para resolver as tensões em Álbum do Ano) e quem são os meus favoritos e dark horses da edição.

É só conferir após o pulo!

Continuar lendo

Design de um top 10 [36] O mundo é de Belcalis Almanazar e apenas vivemos nele

Depois de 84 anos, retorno com um baluarte deste blog, o Design de um Top 10, onde eu sempre faço análises sobre os destaques musicais de mais uma semana na Billboard Hot 100. Hora de aproveitar os primeiros dias de 2018, que já está no quente com vários lançamentos, sucessos que se mantém desde o ano passado e músicas que já nasceram parte da conversa cultural

Ah, e vou explicar quem cargas d’água é “Belcalis Almanazar”.

Top 10 Billboard Hot 100 (13.01.2018)

2. Havana – Camila Cabello feat. Young Thug

3. Rockstar – Post Malone feat. 21 Savage

4. Thunder – Imagine Dragons

5. No Limit – G-Eazy feat. A$AP Rocky & Cardi B

6. Bad At Love – Halsey

7. Too Good At Goodbyes – Sam Smith

8. MotorSport – Migos, Nicki Minaj & Cardi B

9. Gucci Gang – Lil Pump

10. Bodak Yellow (Money Moves) – Cardi B

 

Mais um hit para Ed Sheeran – e uns streamings a mais pra Queen B

Você já perdeu a conta? O remix de “Perfect“, último single do álbum do Ed Sheeran, com a participação da Beyoncé, chegou à quinta semana em #1. A baladinha, que é a cara do inverno, ainda lidera os charts digitais e de rádio, enquanto teve uma queda nos charts de stream. No entanto, a música passa longe de estar morrendo – com o novo remix com Andrea Bocelli (“Perfect Symphony”) crescendo no iTunes e a versão original sendo tocada nas rádios, “Perfect” tem tudo para emplacar pelo menos uma semana em primeiro. Digo uma porque a concorrência tá forte neste começo de ano.

Curiosidade: Beyoncé, que deve estar preparando uma nova era com esses featurings em faixas de artistas fortes no stream, conseguiu com “Perfect Duet” o seu sexto #1 solo nos charts de airplay, o primeiro em quase nove anos.

Quando “Havana” se levantará?

Já o hit que tá pedindo pra ser #1 há um bom tempo, “Havana” da Camila Cabello, parece que vai padecer mais uma semana longe do topo. Agora, a música está em #2, fazendo seis semanas que chega nessa posição. Apesar de algumas quedas nos charts de rádio, a faixa está em #2 no chart de stream e em terceiro no digital. No entanto, a Camila está no topo das rádios pop pela sétima semana, e esses números podem ajudar bastante a faixa a conseguir uma chance que seja de ficar pelo menos uma semana em primeiro. A menina merece muito, a música é decididamente um dos grandes hits do fim do ano/início deste.

Curiosidade: o segundo single da Camila, “Never Be the Same“, voltou ao chart na 71ª posição. A faixa não é tão instantânea quanto “Havana”, mas tem cheirinho de hit. E a gente sabe que a menina divulga – e divulga bem – então, as chances de chegar ao top 10 são boas.

 

Dose tripla de Belcalis Almanazar no top 10… Ou podem ser quatro?

Ou mais precisamente, Cardi B, a rapper mais bombada do momento, que colocou pela segunda semana seguida três músicas no top 10 da Billboard. Ela é a terceira artista da história a colocar suas três primeiras músicas no top 10 ao mesmo tempo, depois dos Beatles e de Ashanti. Tá em boa companhia a moça hein?

A faixa melhor colocada da moça é “No Limit“(#5), de G-Eazy, onde ela e A$AP Rocky são os featurings. Já “MotorSport“, do Migos e com feat também da Nicki Minaj, está em #8; enquanto seu primeiro hit, o viral inescapável “Bodak Yellow“, continua em 10º lugar.

Mas não é só isso: quando digo que a gente tá vivendo no mundo da Cardi B, é que tem muita coisa por aí (com altas possibilidades de #1) – tem “Bartier Cardi“, onde ela é lead, que caiu para #19 (mas ainda tem clipe pra sair, o que pode alterar as coisas); “La Modelo“, faixa do Ozuna em que ela é participação, que está em #61; e o crossover pop que a Cardi precisava para ser apresentada a um grande público – o remix de “Finesse“, do Bruno Mars, que ganhou um clipe cheio de referências a In Living Color e entrou na conversa cultural esta semana, sem chance de ficar em segundo plano. A julgar pelo fato da música ter entrado com apenas um dia de vendas em #35, a faixa estar crescendo nas rádios, em #1 na principal playlist do Spotify e sendo assistida constantemente no YouTube, se for apresentada no Grammy, pode colocar mais um #1 na conta da Cardi (e o oitavo #1 pro havaiano).

O que é curioso em “Finesse” é que a música, faixa oito do “24k Magic”, parece que foi descoberta agora, dois anos depois, pelo grande público, e está tendo desempenho de lead single. Caso as previsões se confirmem, logo vou falar um pouquinho mais sobre a música.

E vocês, o que acham dos movimentos nos charts desta semana?