Previsões para o Grammy 2018 [edição 24 quilates]

A melhor época do ano chegou! Junho-julho é o período em que os jornalistas gringos começam a especular sobre as indicações ao Grammy 2018, e apesar do meu oráculo favorito Paul Grein ainda não ter informado quais são os palpites dele, vou me adiantar e brincar de futurologia logo. (especialmente porque ano passado protelei até não poder mais essa postagem)

Pra quem já acompanha este humilde blog, eu geralmente faço duas postagens – uma agora em Junho/Julho e a outra lá pra Setembro/Outubro, após o período de elegibilidade, porque geralmente vazam as submissões das gravadoras e a gente vai confirmando quem fez escolhas boas e quem cagou nos artistas.

As previsões começam após o pulo – com foco em Pop Field e no General Field – mas como vocês viram pelo título, tem algo um tanto diferente nesta previsão…

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Combo de álbuns – Kendrick Lamar, “DAMN.”e Harry Styles, “Harry Styles”

Prometi, protelei e cheguei com mais um “Combo de Álbuns”, com dois lançamentos que considero entre os melhores de 2017. Qualidade comercial, identidade artística e retorno comercial são elementos que ajudam a tornar os dois CDs alguns dos lançamentos mais vibrantes do ano, cada um em fields distintos.

“DAMN.“, o quarto álbum do Kendrick Lamar (lançado em 14.04.17), o sucessor da obra-prima “To Pimp A Butterfly”, chegou com uma missão – corresponder às altíssimas expectativas em torno do trabalho do K-Dot, alçado a uma das cabeças pensantes da música atual, gênio e uma das figuras mais relevantes da cultura pop. O rapper conseguiu fazer algo incrível – se não superou TPAB (o que é uma missão ingrata), ele ofereceu a todos nós um álbum excelente, com ótima qualidade, e com apelo comercial suficiente para colocar três músicas no top 10 da Billboard e “Humble” como seu primeiro #1 solo.

Já o self-titled do Harry Styles (lançado em 12.05.17) é o debut do britânico após o hiato do One Direction. Todo mundo ficou de olho no que o jovem colocaria pro jogo – afinal de contas, ele era o membro mais popular da boyband e todos consideraram que ele tinha maior potencial para hitar. O que Harry ofereceu ao grande público foi uma verdadeira – e grata – surpresa: um CD de rock, mais precisamente emprestando o estilo soft rock, setentista, com um ar nostálgico, tocante e melancólico. Um álbum de muita personalidade e que alcançou muita gente fora do espectro do One Direction, e que além das boas críticas, foi lançado em primeiro lugar na Billboard 200 com mais de 230 mil cópias, sendo 190 mil só de álbuns (imagine isso em 2017, e com um artista cuja base de fãs é formada por jovens adultos e adolescentes que não compram CD físico nem digital há séculos).

Hora de saber o que há de tão bom nesses dois álbuns!

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Muita calma antes de falar mal de “Witness”

Ultimamente, falar mal da Katy Perry virou esporte mundial. Seja pelos singles lançados não fazerem muito sentido com o que ela tinha prometido no começo da era (de “pop com propósito” a “Swish Swish” é um caminho bem tortuoso), declarações ruins (como aquela “piada” com referência à Brtiney que foi de péssimo gosto), parceria com rappers acusados de homofobia (os Migos, em “Bon Appetit“) e outros artigos criticando a Katy que oscilam entre apontar erros válidos e perseguição sem muito sentido (já que a mídia adora derrubar quem costuma erguer), Katy é o alvo da vez, e para completar, os singles lançados não foram exatamente os sucessos que todos esperavam.

Mesmo trabalhando com hitmakers (Max Martin, Shellback, Ali Payami, Sia) e nomes mais alternativos (como os grupos Purity Ring e Hot Chip) em seu novo álbum, “Witness“, o que todos vem comentando em fóruns e resenhas dos grandes jornais é em como o álbum é uma “bomba”, “sem graça”, “Katy não cresceu”, que o som é ruim etc. Mas será que o CD é realmente essa napalm que estão todos dizendo ou já existe uma má vontade gratuita por causa de todo o backlash (merecido ou não) que a moça vem recebendo?

O que eu posso dizer é: CALMA JOVEM. E olha que eu fui com a pior expectativa possível pra esse álbum

Antes de mais nada, quem já ouviu todos os CDs da Katy Perry, sabe que eles são obras bem irregulares, porque elas tem bons singles mesclados com fillers às vezes ofensivos – tente passar incólume pela segunda parte do “PRISM” que é uma snoozefest. Mas o segredo dos álbuns da moça sempre foi: apesar da irregularidade, sempre teve uma penca de músicas fortes para serem single que ancoram a audição porque estão bem localizados dentro do álbum (em “One of the Boys”, os singles e/ou músicas com potencial estão na primeira parte do CD; o “Teenage Dream” é quase um Greatest Hits, nem dá pra estabelecer uma comparação; e o “PRISM” também coloca os singles e/ou faixas com potencial na primeira parte do CD. Tanto que você até “engole” os fillers porque passou por algo bem bacana antes). Já no “Witness” as músicas boas estão espalhadas num mar de fillers num CD que dura tempo demais e tem músicas demais.

Há um conceito pelo CD que a Katy busca, mas nem sempre dá certo. Entende-se que ela discuta aqui e ali, com letras mais maduras, assuntos sobre relacionamentos, empoderamento, autoestima e questões políticas, mas o que a gente pode perceber é que a musicalidade do álbum tem um diferencial mais palpável: o dance-pop não parece tão teen oriented, há uma memória meio retrô em algumas faixas, mas no final não sai muito dessa evocação. Mesmo assim, há muitas ideias bem realizadas, como em “Witness”, a faixa título onde o hype faz todo sentido. A letra é no ponto, a ambientação, é agradável e gostosa, um dance-pop maduro. Outras músicas que são ótimas ideias bem executadas e que indicariam um caminho interessante (um dance 80’s retrô que funcionaria bem com as letras românticas e reflexivas) são “Roulette”, com o synthzinho super bacana e tem bastante potencial; “Miss You More” (que aparentemente é sobre o John Mayer), a melhor baladinha do CD, onde a interpretação vocal da Katy, com os graves do refrão, está no ponto e muito bonita; “Bigger than Me” (inspirada na derrota da Hillary Clinton na eleição do ano passado), uma faixa gostosinha com o refrão fácil que poderia muito bem ser o último single do álbum; e a sensacional “Pendulum”, com o coral gospel ao fundo, o acompanhamento das palminhas, a pegada R&B com algo oitentista (gente, cadê meu CD anos 80 dona Katheryn?), tem até um groovinho de guitarra, uma música ótima que merecia fechar fácil o CD num clima bem up.

(não acredito que Katy Perry inventou a música gospel bicho)

(curiosamente, os singles do CD, que exceto por “Chained” não vendem o conceito do “Witness” AT ALL, estão bem localizados na tracklist, exceto “Bon Appetit”, uma anomalia que não faz sentido em lugar algum, mas que estranhamente cresce a cada ouvida)

Em outras músicas, como a medonha “Hey Hey Hey”, a letra parece ter sido escrita por uma menina revoltada de 14 anos (e considerando que essa música vem LOGO após “Witness”, nada faz sentido). Pior que a melodia não é ruim (umas guitarras dariam um ar bem rock ‘n roll), mas a letra é uma vergonha gente. Sem contar as fillers como “Dejà Vú”, “Save as Draft” (com o verso You don’t have to subtweet me que está me deixando envergonhada só em ler), “Tsunami”, e até “Mind Maze”, com a ótima letra sobre se perder dentro dos próprios problemas desperdiçada numa melodia entediante.

Mas se você perceber, nenhuma das músicas que tem potencial de single são faixas que gritam HIT SMASH CHART MONSTER. São faixas agradáveis, bem feitas, com boas letras, que dão substância e coerência ao CD, e que podem render sim; mas o que foi lançado não vende nada do CD – o que cria a impressão de que a Katy não “evoluiu” tampouco as músicas são “maduras”. As faixas são boas e interessantes, mas ainda tem o problema da tracklist cagada em que duas músicas parecidas estão juntas (“Mind Maze” e “Miss You More”), duas músicas se anulam completamente em ideias (“Witness” e “Hey Hey Hey”), músicas boas sendo seguidas por grandes porcarias (“Chained” e “Tsunami”) e ainda encerra numa bela snoozefest (“Into Me You Se”) quando poderia terminar lá em cima.

(resumindo o problema da tracklist: quando você tem muito filler e pouca música com pinta de hit, tem que fazer um bom corte final e deixar as faixas fortes juntas, ancorando a audição 😉 )

Em resumo, “Witness” é um CD de ótimas ideias e uma condução mais reflexiva e madura que se perde numa tracklist confusa, faixas sem sentido e uma péssima escolha de single. Se Katy e a Capital eu fosse, seria dessa forma que lançaria o CD:

E você, qual a sua opinião sobre “Witness”? É bomba ou não é bem assim?

 

 

 

 

 

Vencedores e perdedores de 2017 [primeiro semestre]

O ano de 2017 chegou à metade e sempre é bom ver, em retrospecto, as coisas que deram certo ou não dentro do pop – especialmente quando estamos num dos anos mais curiosos dentro do mainstream: com a ascensão quase dominante dos streams como determinante para o sucesso de uma faixa (ou de um estilo), muitos artistas e gêneros estão padecendo para se inserir numa nova cultura de consumo – e atingir o público que lá está, enquanto outros conseguiram o segredo para um hit, um viral, e execuções certeiras no Spotify.

Ao mesmo tempo em que veteranos e novatos lutam para entender e se adequarem à nova ordem da indústria, podemos dizer que a “guerra dos sexos” dentro do mundo pop hoje está com os homens ganhando de goleada. Eles estão com os álbuns mais bem recebidos, singles de sucesso e parcerias que deram certo – além dos gêneros que dominam as rádios e streams atualmente serem justamente aqueles onde os male acts dominam. E o pop, que durante toda a primeira metade da década foi uma festa feminina, hoje se tornou um clube do Bolinha.

Pensando nestes encontros e desencontros é que eu trago uma lista de vencedores e perdedores no pop de 2017, cobrindo o primeiro semestre. Lá no final do ano, eu retomo essa mesma lista com os destaques do ano em geral, e perspectivas para 2018. Por isso, coloque os headphones, aperte play na “Today’s Top Hits” do Spotify e continue lendo!

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You’re not going to happen! Por que o jump de compositor para artista famoso é tão difícil

Você já deve conhecer a história – compositor escreve músicas para outros artistas enquanto espera a hora dele ou dela aparecer na frente do palco. Às vezes, o songwriter em questão precisa apenas de um featuring ou uma faixa viral pra ficar na boca do povo e instigar a gravadora a lançar um trabalho solo. Outras vezes, é só a progressão natural da carreira – você entra como cantor, mas precisa melhorar suas habilidades e passa a compor para os outros – até o momento em que está pronto para fazer sucesso com o próprio nome.

Só que nem sempre essa progressão natural acontece – pelo contrário: muita gente rala horrores pra deixar o anonimato da composição e chegar no topo do sucesso como artista principal, mas não dá certo e o topo fica bem distante. Os motivos são inúmeros, e os exemplos de como às vezes essa transição não se converte em sucesso ou reconhecimento são vários. Esse é o tema do novo vídeo lá do canal Duas Tintas de Música no Youtube, usando três exemplos bem interessantes pra ilustrar as dificuldades desse jump. É só dar play (e não se esqueça de se inscrever no nosso canal!)

 

Lançamentos da semana: do pior para o melhor

Essa quinta-e-sexta-feira teve uma quantidade tão grande de lançamentos pop que a gente tem até que respirar em pensar quais são as músicas e que artistas lançaram alguma coisa. Mas eu decidi juntar tudo num post só, com o velho combo de singles, só que com um diferencial: do pior material lançado até a melhor música divulgada neste fim de semana.

Esse é o meu top 4, veremos se será parecido com o de vocês 😉

4. “Switch”, Iggy Azalea feat. Anitta

Um dia a Iggy foi uma rapper ascendente com um som bacana, e que prometia ser a grande revelação na cena, a julgar pelas antigas mixtapes. O “The New Classic”, primeiro CD, foi aquele rap para neófitos, mais pop que qualquer outra coisa, que apesar do sucesso, não se converteu depois numa segunda era bem sucedida – pelo contrário, depois daquele CD, a queda da australiana foi uma das coisas mais rápidas e frenéticas já vista na popsfera.

Atualmente a mulher ainda está tentando lançar alguma coisa para o segundo CD, “Digital Distortion”, e até agora o que eu tenho consciência que foi single mesmo foi “Team“, que teve uma certa divulgação e algum buzz. O resto foi lançado daquele jeito, e nada foi tão interessante. Pra completar, todo single que a Iggy vinha apresentando parecia sem sal, sem apelo; e pior – agora com “Switch”, sem personalidade alguma.

Esse ritmo tropical já cansado, essa música batida, a Iggy cantando por cima do featuring … Aliás, Anitta foi desperdiçadíssima na faixa: parece uma backing vocal qualquer e o vocal ficou abafado por tanta camada e efeito que eu só percebi que era ela mesmo porque o timbre, mesmo em inglês (um bom inglês até), se sobressaiu. Mas sinceramente, se colocassem a Iggy com autotune no lugar não fazia diferença alguma.

Para a brasileira, o featuring valeu a pena para apresentá-la ao mercado americano de uma forma mais “oficial” (mesmo que o nome dela já esteja rodando aqui e ali, em matérias da Billboard e interações com artistas no twitter e no instagram), mas pra Iggy Azalea, é mais uma oportunidade desperdiçada numa música que é bem ruinzinha e esquecível.

(curiosamente, a parte mais marcante pra mim foi o pré-refrão da Anitta. A única coisa que tá na minha cabeça até agora de “Switch”)

nota: ⭐⭐ de ⭐⭐⭐⭐⭐

 

3. “Crying on the Cheap Thrills of You”, Camila Cabello

Quando você sai em carreira solo de uma boyband/girlband, onde geralmente as canções eram bem polidas e produzidas para gerar uma sonoridade generalista (pra não dizer outra palavra) e puxada para o público jovem, o que se espera é que o artista em questão mostre o motivo pelo qual ele ou ela se sentiu pronto/a para dar o jump e mostrar “identidade musical”. O Zayn, com o “Mind of Mine”, fez isso – quem imaginava que o menino do One Direction lançaria aquele petardo de álbum alt-R&B todo moody e misterioso?

Pois bem, depois de ver o vídeo de “Crying on the Club”, da Camila Cabello, duas coisas ficaram na minha mente. Uma é: alguém cancela a Sia, porque essa música é mais um derivado da fórmula “Cheap Thrills”/”The Greatest”, e pior, a faixa me lembra “Shape of You”, ou seja, música mais genérica não há! Pra piorar a situação, o delivery vocal da Camila tá muito parecido com o da Rihanna (como todas as últimas 1500 pop starlets tentam fazer – e a Pitchfork pontuou muito bem recentemente). Zero personalidade numa música que mesmo grudenta, é bem safe, bem “o que tá tocando por aí.

Aí a cidadã me lança um clipe (chatérrimo, aliás), onde a intro é com uma midtempo pop mega dramática, com um letrão daqueles, os vocais impecáveis; pra combar com “Cheap Thrills parte 3”. Quem é a gravadora da Cabello, minha gente, que não colocou “I Have Questions” de lead? Isso seria um tapa na cara maravilhoso de quem acha que a menina não tem identidade musical!

(btw, a melhor coisa de “Crying on the Shape of the Club” é o sample de “Genie on the Bottle” haha)

nota: ⭐⭐⭐ de ⭐⭐⭐⭐⭐

 

3. “Swish Swish”, Katy Perry feat. Nicki Minaj

Primeiramente, mais uma música da Katy que não aconteceu, né? Eu tô impressionada com a era dela, porque nada deu certo – até mesmo o vídeo de “Bon Appétit”, que fez um barulho nas redes sociais, não ajudou no desempenho da faixa nos charts. Daqui a pouco a mulher lança o álbum e a gente só vai ouvir a imprensa caindo em cima e o público realmente desinteressado na Katy.

(ou seja, ela nunca conseguiu firmar uma base de fãs que a seguem aonde vai, a fã-base sólida e fiel que outras colegas tem aos montes, como a Lady Gaga, por exemplo)

Pois bem, “Swish Swish” é o single promocional do “Witness”, o novo álbum da californiana (que tem essa capa bem “teoria da conspiração”), e deve ser sobre a Taylor Swift né, só pra confirmar… Mas enfim, a faixa passa longe do “pop com propósito” ou daquele treco inominável que era “Bon Appétit”: é um dance-pop que lembrou uma versão mais pesada de “Walking On Air” (que a KATY NÃO LANÇOU COMO SINGLE NA ERA PRISM, desperdício!), uma letra debochada que rememora a velha Katy de “One of The Boys” e que tem um clima menos infantil que boa parte dos singles da moça desde “Teenage Dream”. É um pop adulto, divertido, despretensioso, com uma letra fácil e cheia de shades e um bom momento da Nicki Minaj, que como rapper anda tendo um ano criativamente tenso (aquela resposta à diss da Remy Ma foi ridícula…).

Infelizmente, apesar de crescer na gente igual bolo no forno, “Swish Swish” não chega perto daquele soco no estômago de outros singles da Katy Perry – sabe, aquela sensação de OMG QUE HINO de quando a gente ouvia “Teenage Dream”, “Hot ‘n Cold” e “Dark Horse”? Tá faltando aqui e nas outras faixas que ela trouxe nessa era. E o pior é que as músicas dessa nova era poderiam ser melhor trabalhadas, ou até retrabalhada com ganchos menores, mas o resultado final infelizmente é muito aquém do que a Katy poderia oferecer como uma das maiores hitmakers da década.

nota: ⭐⭐⭐/5 de ⭐⭐⭐⭐⭐

1. “Bad Liar”, Selena Gomez

Quando a gente fala de evolução dos artistas, não é apenas evolução de imagem (mais edgy, mais madura, ou conceitual); dizemos também sobre a evolução do som deles.

Neste momento, não dá pra pensar na Selena Gomez como aquela cantora fofa do pop adolescente da banda “Selena Gomez & The Scene como a mesma pessoa que canta “Bad Liar”, lead single do seu segundo álbum solo. “Bad Liar” é um pop fresco, diferente de tudo que tá tocando por aí. É uma música única por não ser tropical house, urban, EDM, ou um derivado da Sia.

A faixa, escrita por Selena junto com os hitmakers do momento Julia Michaels e Justin Tranter, usa de forma inteligente o sample de “Psycho Killer” do Talking Heads pra criar uma história de amor meio confusa entre Selena e o boy, com estrutura meio sincopada, alguns trechos falados, gemidos bem colocados, o refrão mais grudento do primeiro semestre e uma interpretação impecável da Selena. O que é essa menina hoje, que puta intérprete! É uma artista que conhece suas limitações, sabe trabalhar com elas e o que fazer com a própria voz.

O resultado é um dos melhores singles pop do ano, que recebeu praise da Pitchfork com uma “Best New Track” e a bênção do David Byrne, vocalista e guitarrista do Talking Heads e um dos artistas mais cultuados da indústria.”Bad Liar” mostrou uma evolução grande e surpreendente (a Interscope confia mesmo na Selena, porque a música tem risco, mesmo sendo extremamente pop), e me fez ficar ainda mais curiosa com o que  ela vai oferecer na sua segunda empreitada solo.

(agora, é fato que a Selena capturou o delivery vocal TODINHO da Julia Michaels no começo da faixa né haha)

⭐⭐⭐⭐⭐ de ⭐⭐⭐⭐⭐

Bonus track: “Strip That Down” (Liam Payne feat. Quavo)

Né… Enfim…

Zayn, Niall e Harry possuem vozes distintas e marcantes no ouvido do público comum, na hora de divulgar o material solo… Porque o Liam é lindo, mas tem o vocal tão marcante quanto um boi pastando.

Pra piorar, parece alguma coisa que o Justin Timberlake rejeitou e foi passada pelo Nick Jonas, que nem quis gravar; e ficou dentro do guarda-roupa do Justin Bieber. Que horror.

 

E você,  o que achou dos lançamentos da semana? Concorda com a ordem que eu listei aqui ou preferia outra música nas primeiras posições?

Anticlímax – Miley Cyrus, “Malibu”

Eu acompanhei a Miley Cyrus crescendo diante da mídia, com Hannah Montana, os álbuns como Miley, a explosão do “Bangerz” e a surpresa do Dead Petz. Acompanhei porque no auge do Orkut, as comunidades e os fakes da Miley vinham em quantidades absurdas, e quem vivia música pop também lidava com a ascensão das Disney Stars, e se elas conseguiriam fazer de forma bem sucedida o jump de child star para artista respeitável.

Posso dizer que hoje, eu mal me recordo dos tempos de Hannah Montana, nem da imagem que a Miley tinha naquele período. Ela conseguiu deixar pra trás aquela fase com muita maestria e bom conhecimento de cultura pop. É uma das grandes marketeiras da popsfera (e isso é um termo positivo), e eu a admiro por isso.

Por outro lado, todos nós crescemos e nos arrependemos das merdas do passado (às vezes não, às vezes a gente só queria ter feito alguma merda relevante pra ter uma adolescência digna de nota), mas levando em consideração que a gente aprende algo do passado pra levar pro resto da vida. Claro que nossa adolescência não foi sob os holofotes, mas crescer sempre é um processo difícil, especialmente quando você lança mão de determinados artifícios para amadurecer.

Antes de resenhar “Malibu”, lead-single do novo álbum da Miley Cyrus, gostaria de ressaltar uma coisa, que me incomodou bastante em 2013 e hoje continua me incomodando (e olha que 2013 eram tempos menos descontruídos pra todos nós): crescer é bom, mostrar que amadureceu melhor ainda, mas não negue, nem deixe de lado que você se apropriou e usou como fantasia e estereótipo uma cultura alheia pra ser vista como “madura” e “cool”. E isso a Miley fez; usando de todos os estereótipos possíveis ligados à cultura negra pra lucrar, pra depois se afastar de elementos que ela considerava “ruins” mas que em 2013 eram bem bacanas pra pagar de “crescida”. Assumir esse erro – ninguém assume. E isso é o que todo mundo está tentando levar em consideração e colocar na discussão, especialmente as publicações ligadas aos negros, como a Complex e o BET.

(curiosamente, eu nem acho o “Bangerz” ruim – fiz alguns comentários bem elogiosos certa feita, mesmo achando que o CD envelheceu mal)

Problema é: o que em 2013 passou, hoje não passa.

E ainda pra completar, o retorno da Miley à cena ainda tem como gênero-da-vez o country (um estilo musical que faz parte das raízes da jovem, nada mais justo que trabalhá-lo), mas tudo soa como “limpeza” de imagem – especialmente considerando a pegada conservadora do country lá nos States. Sabe, depois de ser “ratchet” com o rap, hora de se “adequar” cantando country.

(as críticas também são pautadas por essa mudança. E isso deve ser levado em consideração e pontuado sim, até mesmo pelos jornalistas que forem entrevistá-la.)

Após essa breve introdução, vamos à “Malibu“:

O single é um pop/rock praiano que lembra algo da Colbie Caillat e com ecos de Sheryl Crow. A letra é interessante, com referências ao retorno do seu relacionamento com o Baby Thor aka Liam Hemsworth. A vibe é bem fim de tarde de verão, luau na praia ao pé da fogueira, comecinho de romance com abraços furtivos ouvindo música no violão – ou seja, perfeita para o Hemisfério Norte. A voz da Miley funciona muito bem com esse tipo de música – ela tem um vocal de muita personalidade, a voz é marcante, você sabe exatamente quem é, assim que ouve.

No entanto… Apesar da vibe, a faixa me pareceu muito anticlimática, indo do nada ao lugar nenhum. Monótona, não explode, e a música fica no mesmo tempo o tempo todo, tirando do refrão (bom, fácil) todo o “momento” da música. Refrão é pra ser o centro das coisas, a explosão, ou o grande momento (ou mesmo quando tratamos do pré-refrão, a hora em que você segura a respiração para o big break)… O refrão aqui parece perdido no meio da melodia, e a música perde muito com isso.

Quando se tem uma música assim, é necessário que o clipe traga o “momento” que o single não possui. E o clipe de “Malibu” não ajuda. Chato, não é um vídeo que veria de novo. Ver a Miley de um lado a outro correndo na relva e na praia, na cachoeira e segurando balões ao som de um non-event como essa música não me atrai nem um pouco. Essa coisa meio only girl in the world só funciona se a música te leva junto, num crescendo que explode (como em “Only Girl in the World” da RiRi), e essa música não cresce, não acontece.

(especialmente no chart male-dominated de 2017, em que as faixas mais bem sucedidas são urban/hip hop e EDM pasteurizado a la Chainsmokers, “Malibu” é um risco calculado, e poderia ser mais marcante até por ser um risco)

Por fim, pode ser que faça sucesso (chegou ao #1 no iTunes) porque a Miley (que já tem performances engatilhadas no Billboard Music Awards e no Today Show Concert Series) sabe render as músicas, seja com performance, seja com a imagem; e além disso, ela tem uma fã-base bem sólida (ao contrário de outra act pop por aí), construída desde os tempos da Disney – gente que literalmente cresceu com ela. Só que eu vejo a possibilidade de hit diretamente relacionada à divulgação disso, porque a música em si é tão meh…

E vocês, o que acharam de “Malibu”?